Análise: Palmeiras seguiu, contra o River Plate, a receita do futebol na pandemia: não é tempo de brilho, mas de adaptação

Carlos Eduardo Mansur
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A forma como o Palmeiras construiu uma vantagem quase instransponível sobre o River Plate, na Argentina, é um retrato fiel das peculiaridades da atual temporada no futebol mundial. Este é, muito mais, um período em que vitórias são produtos de adaptações a circunstâncias, de buscas de soluções ideais a cada jogo, do que, propriamente, da construção de times vistosos e reconhecíveis em qualquer campo, capazes de impor modelos de futebol bem acabados partida após partida.

Primeiro, há muito pouco tempo para construções coletivas sofisticadas, para dotar times de identidades reconhecíveis. O futebol vive um período de jogos espremidos no calendário, jogadores levados ao limite e desfalques produzidos em escala industrial: seja porque as pernas reclamam, seja porque o vírus se propaga num ou noutro elenco.

Vale para o Brasil, vale para a Europa. Sempre desnivelados, os principais campeonatos nacionais europeus veem seus gigantes deixando pontos pelo caminho com uma frequência que não se via há muito tempo. Alguns, como o Liverpool, famosos pela pressão sufocante no rival, oscilam. Na Premier League inglesa, estudos indicam que as ações de pressão no campo adversário caíram 22% em média. E até o Campeonato Brasileiro, mantido o atual aproveitamento do líder São Paulo, verá um campeão com algo entre 77 e 78 pontos. Nas últimas seis edições, só uma vez o vencedor somou menos de 80.

O fator Abel Ferreira

Desde que assumiu, há pouco mais de 60 dias, Abel Ferreira conviveu com um surto de Covid, do qual ele próprio foi uma vítima, administrou desfalques em série e a falta de sessões de treino num raro clube brasileiro que chegou à virada do ano em três competições simultâneas. Obteve muitos resultados, nem sempre ofereceu grandes desempenhos. O time não jogou bem nas semifinais da Copa do Brasil, foi especialmente ruim ao rodar elenco na vitória do Bragantino pelo Brasileiro e teve sorte em alguns chaveamentos de torneios de mata-mata. Atingiu objetivos, mas seria cruel cobrar consistência, performance linear. O momento do jogo, globalmente falando, não é para tal.

Abel foi alternando planos, exibiu-se notavelmente adaptável num contexto que jamais tinha vivido: se para um técnico europeu o calendário ordinário do Brasil já soa como uma afronta ao bom senso, nestes tempos pandêmicos a situação é limítrofe. Pois Abel fortaleceu a capacidade do time de defender e criar espaço para seus homens de velocidade na frente e, quando os jogos exigiam, tentou fazer o time controlar mais a bola. Mas este Palmeiras é especialmente forte com espaço para acelerar. E o River Plate de hoje é especialmente frágil após a perda da bola. O rio correu para o mar em Buenos Aires.

O treinador português buscou uma destas soluções específicas, fruto de astúcia e estudo. Iniciou o jogo com uma linha de quatro defensores contra um River Plate que joga num 4-3-3, mas sem pontas abertos: seus três atacantes jogam alguns metros para o centro do ataque, enquanto os laterais buscam abrir campo. Após ceder chances perigosas, fez Gabriel Menino virar um ala pela direita e passou a se defender com cinco homens atrás. Os três zagueiros centrais cuidavam dos atacantes, por vezes em perseguições pessoais, enquanto os alas cuidavam dos laterais do time de Gallardo. O Palmeiras passou a conter o ímpeto ofensivo, desarmar e tentar acionar rapidamente seu ataque: pela velocidade de Rony ou pelo excelente jogo de Luiz Adriano, fosse como apoio de costas para o gol ou recebendo em profundidade.

E as circunstâncias ajudaram. Um erro do goleiro Armani, quando o Palmeiras era dominado, deu o gol a Rony. Mas a jogada tem origem na mudança tática, já que o lance nasce do lançamento de Patrick de Paula para Gabriel Menino avançar como ala pela direita. Até ali, a bem da verdade, o Palmeiras sofria no jogo. Mais tarde, veio o contragolpe magnífico que resultou no 2 a 0 de Luiz Adriano e, em seguida, uma expulsão num River Plate mentalmente golpeado. É até justo considerar o placar grande para o jogo. Mas, outra vez, esta é uma temporada em que a lei é extrair o máximo das circunstâncias atípicas.

Recuperação

É também um ano em que a chave é fazer jogadores importantes chegarem com pernas, frescos, a jogos vitais. E após tantas questões físicas, o Palmeiras recuperou Luiz Adriano e teve na juventude de Menino, Danilo e Patrick de Paula o seu motor. Os dois primeiros passaram pela Covid e Patrick por questões musculares.

O Palmeiras talvez não tenha tido uma exibição inesquecível em Buenos Aires sob o ponto de vista da exibição de virtudes. Mas conseguiu, com competitividade e entendimento do jogo e das circunstâncias desta temporada insana, um resultado memorável. E é isto que o futebol atual tem valorizado mais.