Análise: por que Europa está sofrendo tanto com ondas de calor?

Há dois meses, a França teve o maio mais quente já registrado, com recordes de temperatura em algumas cidades. Em junho, o país foi novamente afetado por uma onda de calor que também atingiu Espanha e Itália. Então, neste mês, a Polônia e várias partes da Europa Oriental sofreram um período de calor extremo.

Onda de calor extremo: Temperatura no Reino Unido passa de 40ºC pela primeira vez na História

Crise climática: Europa cozinha em calor devastador enquanto queima mais carvão

Agora, as temperaturas em toda a Europa estão subindo novamente, passando dos 40ºC da Espanha ao Reino Unido, e se espalhando para o Leste. Os incêndios florestais catalisados pelo calor queimam em várias nações, enquanto boa parte do continente lida com uma seca prolongada. E ainda faltam dois meses para o verão no Hemisfério Norte terminar.

Os cientistas dizem que o calor extremo persistente deste ano segue uma tendência. As ondas de calor na Europa, afirmam, aumentam em frequência e intensidade em um ritmo mais alto do que em quase qualquer outra parte do planeta.

O aquecimento global desempenha um papel-chave, tal qual em outras ondas de calor pelo mundo. Hoje, a média da temperatura planetária é 1,1ºC maior do que na segunda metade do século XIX, antes da Revolução Industrial intensificar as emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa.

O calor extremo, portanto, decola de um ponto de largada mais alto. Além disso, há outros fatores, como as condições atmosféricas e as correntes marítimas, que podem transformar a Europa em um epicentro para o problema.

Vídeo: Incêndios florestais expulsam milhares de pessoas de casa na Europa

Temperatura de 40ºC: Após calor recorde, governo do Japão pede que 37 milhões de pessoas economizem energia

Não há duas ondas de calor que sejam exatamente iguais. As altas temperaturas vistas na segunda e nesta terça na Inglaterra e do País de Gales devem-se em parte devido a uma área atmosférica de baixa pressão, estacionada em altas altitudes há semanas na costa de Portugal.

É o que o jargão dos meteorologistas chama de “baixa segregada” ou “gota fria” ("cut-off low", em inglês), porque se separou de uma corrente de ventos do Oeste, que sopram de áreas de alta pressão em zonas subtropicais para os pólos. Assim, circulam o planeta em grandes altitudes.

Zonas de baixa pressão como a atual tendem a atrair ar para si. Neste caso, ela puxa para a Europa o ar que vem do Norte da África:

— Está bombeando ar quente para o Norte — disse Kai Kornhuber, pesquisador do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia.

Contexto: Europa luta contra incêndios em semana que deve ter recorde de temperaturas

Imagens: Onda de calor recorde no Reino Unido leva milhares às praias

Kornhuber é um dos autores de um estudo publicado neste mês que constatou o aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor na Europa nas últimas quatro décadas. O agravamento, segundo o trabalho, é ao menos parcialmente associado às mudanças atmosféricas.

Os pesquisadores descobriram que muitas ondas de calor europeias ocorreram quando a corrente atmosférica se divide temporariamente em duas, deixando uma zona de ventos fracos e alta pressão entre si. O cenário é propício para o calor extremo.

Efi Rousi, cientista do Instituto Potsdam para Pesquisa Climática, na Alemanha, e principal autora do estudo, disse que a atual onda de calor parece estar ligada a esse “jato duplo”. O fenômeno, disse ela, está em vigor na Europa há duas semanas, e pode ter permitido a criação da baixa segregada, além das áreas de ventos fracos sobre a Europa que permitiram às condições meteorológicas se prolongarem.

— Parece que isso está realmente favorecendo essa onda de calor — disse ela.

Mudanças climáticas: Inundações deixam dezenas de mortos na Índia e em Bangladesh

Veja vídeos: Inundações e deslizamentos em Yellowstone, nos EUA, arrastam casas e destroem estradas

Pode haver outras razões pelas quais a Europa está vendo mais (e mais persistentes) ondas de calor, embora algumas delas sejam atualmente objeto de debate entre os cientistas. A variabilidade natural do clima pode dificultar a identificação de influências específicas, disse Rousi.

Kornhuber, por sua vez, disse que o aquecimento no Ártico, que ocorre em ritmo mais veloz que em outras partes do planeta, pode ter um papel. Conforme o polo aquece mais rapidamente, a diferença de temperatura entre ele e a Linha do Equador diminui, o que faz os ventos de verão diminuírem e, consequentemente, perpetua as condições atmosféricas.

— Vemos sim um aumento de persistência — disse ele.

Há também indícios de que mudanças em uma das maiores correntes oceânicas do mundo, conhecida como circulação meridional de capotamento do Atlântico, pode afetar o clima da Europa. Rousi publicou, no ano passado, um trabalho que usava simulações virtuais para mostrar que um enfraquecimento da corrente, enquanto o mundo aquece, causaria mudanças na circulação atmosférica, deixando os verões europeus mais secos.

Como em outras partes do mundo, uma onda de calor na Europa pode aumentar a probabilidade de ocorrência de eventos similares na mesma área. Isso ocorre porque um período de calor extremo resseca o solo.

Quando há umidade no solo, parte da energia do sol é usada na evaporação da água, causando um leve efeito de resfriamento. No entanto, quando uma onda de calor elimina quase toda a umidade do solo, resta pouco para evaporar quando a próxima onda de ar quente chega. Assim, mais energia do Sol assa a superfície, aumentando o calor.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos