ANÁLISE-Questionamentos sobre nome para o BID sinalizam poder dos assessores de esquerda de Lula

Ex-presidente do BC Ilan Goldfajn

Por Marcela Ayres e Rodrigo Viga Gaier

BRASÍLIA (Reuters) - Uma disputa entre assessores econômicos do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva sobre o indicado do Brasil para comandar o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) tem alimentando preocupações de que assessores econômicos de esquerda têm mais poder no time do petista do que assessores pró-mercado.

À medida que a transição de governo avança antes da posse em 1º de janeiro, os investidores se perguntam qual grupo será mais influente na condução da política econômica de Lula, depois que o petista venceu as eleições com uma coalizão formada tanto por pessoas de centro-direita de orientação pró-mercado quanto por membros de longa data do PT, de centro-esquerda.

Lula ainda não disse se apoia ou não a candidatura de Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central indicado para a presidência do BID pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, o presidente eleito autorizou seu ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, um conselheiro próximo há anos, a escrever ao governo dos Estados Unidos e aos representantes dos demais países no BID buscando apoio para adiar a eleição de 20 de novembro para que o próximo governo do Brasil possa indicar seu próprio candidato, disse Mantega na sexta-feira.

A posição de Lula sobre a presidência do BID, juntamente a comentários recentes focados nos gastos sociais sobre a disciplina fiscal, sugerem que seus assessores de esquerda têm mais influência, disseram especialistas.

"Lula tem uma vasta gama de pessoas ao seu redor, mas a julgar por seus discursos e pelo barulho recente em torno da nomeação do BID, parece que ele está ouvindo mais os conselheiros do PT à moda antiga", disse Arthur Carvalho, economista-chefe da TRUXT Investimentos, no Rio de Janeiro.

Isso é "preocupante", acrescentou Carvalho, "porque antes ele se cercava de um conjunto mais diversificado de assessores".

APOIO DE ALCKMIN

Lula autorizou Mantega a buscar o adiamento da eleição para o BID apesar do apoio do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin à candidatura de Goldfajn, disseram duas fontes à Reuters.

Ex-candidato presidencial pelo PSDB, Alckmin tem sido um interlocutor chave entre Lula e a comunidade empresarial. Sua nomeação como coordenador da equipe de transição de Lula foi vista como uma boa notícia por aqueles que aguardam por políticas favoráveis ​​ao mercado.

"É possível que haja um lobby para Ilan vindo de economistas liberais e que tenha a simpatia do vice-presidente", disse uma terceira fonte com conhecimento direto das discussões. "Mas Alckmin não decide nada nessa área."

Parece pouco provável que o plano de adiamendo da eleição terá sucesso, depois que o Tesouro dos EUA, principal acionista do BID, disse na sexta-feira que apoia a realização das eleições no próximo domingo. Mesmo com esse revés, assessores de Lula ainda estão trabalhando nos bastidores para tentar convencer os países latino-americanos a apoiar o adiamento, disse a terceira fonte.

Com sede em Washington, o BID é um importante investidor na América Latina e no Caribe, por trás de quase 600 projetos em andamento de infraestrutura, saúde, turismo e outros. Foi responsável por 23,4 bilhões de dólares em financiamento e outros compromissos em 2021.

O Brasil é um membro influente do BID, mas sem sinais de apoio total do presidente eleito ao candidato de seu país, os Estados Unidos e outros eleitores importantes podem buscar outra solução, disseram fontes.

"Só o Brasil pode tirar a presidência de si mesmo", disse uma fonte do BID próxima ao assunto. "A bola está na cara do gol."

TENTANDO AGRADAR

A preocupação dos investidores com os planos econômicos de Lula vem crescendo desde a semana passada.

Na quinta-feira, o ex-presidente do banco central Henrique Meirelles, que serviu no governo Lula e era visto como uma possível escolha favorável ao mercado para ministro da Fazenda, disse durante uma reunião privada que Lula estava procurando agradar seu círculo íntimo.

"Sou pessimista, sem dúvida", disse ele em comentários vazados. "Só posso dizer uma coisa a todos vocês: boa sorte."

Neste dia --depois que Lula prometeu priorizar os gastos sociais à frente da retidão fiscal, e os investidores se preocuparam com os atrasos na nomeação de seu ministro da Fazenda-- a moeda e as ações do Brasil despencaram.

Os ativos brasileiros subiram desde então, e os investidores agora aguardam o projeto de lei de Lula para garantir maiores gastos sociais em 2023, com a previsão de que uma versão final será anunciada na quarta-feira.

(Reportagem de Marcela Ayres, Gabriel Startgardter e Rodrigo Viga Gaier)