Análise: São Paulo envia contundente recado a seus perseguidores

Carlos Eduardo Mansur
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Rubens Chiri / saopaulofc.net

A atual temporada é avessa a previsões de longo prazo, não recomenda apostas num voo de cruzeiro de um time até o fim do Campeonato Brasileiro. Seja pela loucura do calendário, seja pela inexistência de um time sem vulnerabilidades, sem defeitos. Mas o líder São Paulo, ao bater o Atlético-MG por um expressivo 3 a 0, enviou um contundente recado aos que se candidatam a persegui-lo.

Num campeonato de 38 rodadas, em tese todas as vitórias valem o mesmo. Mas há jogos que são marcantes, simbólicos, como um manifesto de intenções. A vitória desta quarta-feira do Morumbi foi uma destas partidas, por várias razões. A primeira, porque num ano tão dado a oscilações, o São Paulo fez um de seus melhores jogos justamente três dias depois de uma atuação ruim no clássico com o Corinthians. Foi como estancar uma sangria, evitar que as dúvidas cercassem a equipe.

Além disso, por falar em dúvidas, o time construído de forma quase artesanal por Fernando Diniz enfraqueceu outro argumento. A recente sequência de vitórias do tricolor paulista tivera muitos adversários da metade de baixo da tabela. Mas foi contra um time forte, alvo de investimento elevado para o Brasileiro e treinado por um dos melhores técnicos em atividade no país que o São Paulo foi excelente. E conforme amadurece o trabalho de Fernando Diniz, no cargo há quase 15 meses, o time se adapta a circunstâncias mais diferentes, com soluções táticas mais variadas. O jogo com o Atlético-MG foi prova disso.

O que mais chama atenção neste São Paulo, no entanto, é uma liberdade de movimentos, a capacidade de agrupar três, quatro ou até mais jogadores em torno da bola e criar pequenos circuitos de passes, envolvendo rivais até avançar no campo. O São Paulo é agradável de ver. Tem defeitos, oscila, por vezes tem desacertos sem bola, se expõe, ou esbarra em times que marcam muito atrás. Mas em muitos momentos diverte, produz bonitas passagens de futebol. É leve. E voltado para o gol.

Por vezes tratado como um excêntrico, Diniz perdeu Luciano, peça vital em seu modelo, e saiu-se com uma solução original. Escalou Tche Tche, que marcava como um segundo atacante, ao lado de Brenner, na hora da saída de bola do adversário, mas quando o São Paulo tinha a bola virava mais um meia. Isso, somado à liberdade de Igor Gomes e Gabriel Sara, que partem dos lados do campo com liberdade para se movimentar entre as linhas de marcação rival, fazia o time paulista dominar o meio. Aliás, Sara e Igor jogaram ótima partida. E, vale dizer, times como o Atlético-MG, que não se encerram atrás, fazem um tipo de jogo que convém ao São Paulo. A boa troca de passes na saída de bola vencia a marcação rival e abria campo.

O Atlético-MG de Jorge Sampaoli nunca conseguiu lidar com isso no primeiro tempo, em especial com a movimentação de Tche Tche. Após uma saída limpa da defesa, ele conduziu a bola até Igor Gomes abrir o placar em belo chute. O 3-4-3 de Sampaoli, que tentava atacar com laterais abertos e seus atacantes mais por dentro, era superado.

Por momentos, o São Paulo viu sua pressão ofensiva ser ultrapassada e começou a se adaptar. Passou a marcar um pouco mais atrás, faceta que Diniz desenvolveu para momentos de dificuldade. Mas sem nunca renunciar ao jogo. Ocorre que, no início da segunda etapa, o time chegou a ser dominado por alguns minutos. Sampaoli mexeu no intervalo, abriu mão dos três zagueiros e abriu Savarino e Keno. Vargas seguiu como centroavante e, por trás dele, chegavam Arana pela meia esquerda, Calebe pelo centro e Allan Franco pela meia direita. O São Paulo perdeu referências de marcação.

De novo, o time se adaptou. Aos poucos, voltou a valorizar a bola e achar espaços às costas da pressão de um Atlético-MG que nunca teve o ritmo intenso de outros jogos. Talvez por ter jogadores que se recuperaram há pouco tempo da Covid-19. O time de Diniz foi retomando controle através da conservação da bola e, quando Allan foi expulso, viu os espaços se ampliarem. Eram 37 minutos do segundo tempo quando surgiu um lance com a cara do São Paulo. Um contra-ataque se armou, mas o time preferiu a paciência com a bola após não conseguir um ataque rápido. Trocou passes, triangulou, acumulou oito homens no setor ofensivo. Até Vitor Bueno fazer belo cruzamento para o gol de Gabriel Sara. Já no minuto final, Toró arrancou em velocidade e fechou a conta.