Flamengo x Fluminense: do tático ao mental, da estratégia ao acaso, clássico teve de tudo

Carlos Eduardo Mansur
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Mailson Santana/Fluminense FC / Agência O Globo

O futebol é absolutamente indomável. Não só por permitir cenários tão contrastantes entre o primeiro tempo de domínio absoluto do Flamengo e a virada do Fluminense no segundo.

Mas também pela forma como o 2 a 1 tricolor se construiu. É verdade que os minutos iniciais da segunda etapa eram prova de que o Fluminense abusara do conservadorismo até sofrer o gol. Podia ter oferecido um pouco mais a ele e ao jogo. E que empatara quando, ao menos, tinha algum plano para incomodar o Flamengo na outra extremidade do campo. Saltava a pressão ofensiva rubro-negra com um jogo mais direto e a busca por Fred como desafogo. Mas também é fato que chegou ao gol decisivo de uma forma um tanto improvável e quando o esforço de pura resistência que empreendera no primeiro tempo já cobrava um preço das pernas tricolores. E leva do Maracanã lições e três pontos que podem ser cruciais em sua busca por um lugar na próxima Libertadores.

Porque o futebol é feito de tudo isso: do domínio que escapa, da mudança tática, do esforço e até do acaso. É da essência do jogo.

Já o Flamengo, que para ser campeão precisa de uma arrancada, não consegue dar a sensação de que está prestes a arrancar. Ontem, perdeu mais do que um clássico: deixou no caminho a chance de uma guinada psicológica no campeonato na noite em que o São Paulo foi goleado.

Após a boa imagem inicial, dois fatores chamaram atenção. Primeiro, como qualquer mínima tentativa do Fluminense de colocar a bola perto da área rubro-negra se revelou suficiente para causar instabilidade. E depois, como ainda é um time instável em rendimento e ideias. A simples mudança de Gabigol por Pedro na segunda etapa, ambos ótimos atacantes, faz o time se modificar de forma muito radical. O Flamengo passa de um jogo com doses de mobilidade a um modelo muito mais posicional, com jogadores em setores mais demarcados. É difícil um time fazer as duas coisas bem e em tão pouco tempo.

É até possível argumentar que o corte errado de Matheus Ferraz foi decisivo para Arrascaeta romper, após 39 minutos, a resistência tricolor. Mas não seria na área rubro-negra que aconteceria um erro de um defensor no primeiro tempo. Porque o jogo quase não passara por lá. É legítimo defender tão atrás, mas o efeito colateral é conviver com o risco de que qualquer falha ocorra perto do seu gol.

Tricolor muda plano

No duelo de ideias, foram 45 minutos de controle do Flamengo. Nos 39 minutos anteriores à abertura do placar, Gabigol, Rodrigo Caio, Bruno Henrique e Arrascaeta já haviam perdido chances importantes. Em pelo menos duas delas, o sistema defensivo do Fluminense se resumia ao goleiro Marcos Felipe.

O time rubro-negro nem sempre foi uma avalanche criativa, mas teve muito volume porque recuperava rapidamente a bola. E viveu etapas distintas: começou produzindo em combinações de Gerson, Bruno Henrique e Filipe Luís pela esquerda; depois teve dificuldades para infiltrar até conseguir mover mais rapidamente a bola e achar Isla na direita; e em dado momento entrou pelo meio, em bola de Arão para Arrascaeta.

O plano do Fluminense não era inédito na longa fila de Fla-Flus deste ano. Em parte do primeiro tempo, o time protegeu bem a entrada da área, mas Araujo e Wellington acompanhavam os laterais rubro-negros até muito perto da linha defensiva. O tricolor se via sem escape ao retomar a bola. E era sufocado pela marcação adiantada do Flamengo. Restava o jogo direto para Fred aparar a bola e esperar o time chegar, mas nem sempre acontecia.

Os minutos finais da primeira etapa, com o Fluminense já em desvantagem, anunciavam que era possível haver um jogo. Em duas bolas paradas, o tricolor incomodou. Mas a mudança para o segundo tempo foi evitar a pressão do Flamengo com um jogo mais direto, se necessário em bolas longas para “saltar” a pressão: e sempre para Fred ser o apoio para a chegada de frente dos companheiros. Numa bola parada, veio o empate de Luccas Claro. Em seguida, outra bola aparada por Fred terminou em chute de Araujo na trave. Era outro o Fla-Flu.

Mas logo se perceberia o quanto o tricolor se desgastara defendendo e o quanto Fred é vital neste tipo de jogo do Fluminense. Sem ele, e já com Felippe Cardoso, a bola já não parava tanto no ataque.Ailton ainda tentou colocar Lucca e Caio Paulista, mas já não teve tantos contragolpes e o Flamengo voltou a pressionar.

Só que, desta vez, mudara o Flamengo. Pedro entrou, Bruno Henrique passou a ocupar mais a ponta esquerda e o time mudara muito a sua forma de atacar. Voltou a ter controle da bola e do campo ofensivo. Rondou a área, mas não criou tanto. Quando o jogo parecia condenado ao empate, outra bola parada e uma batida longa resultou em erro de Filipe Luís e o gol de Yago Felipe nos acréscimos.