Análise: Talles Magno ressurge no Vasco com Luxemburgo; Botafogo paga o preço

Igor Siqueira
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MARCELO THEOBALD / Agência O Globo

Há algo de especial na relação entre Talles Magno e Vanderlei Luxemburgo. A segunda partida do técnico nesta nova passagem no Vasco trouxe a melhor atuação do atacante na temporada. O desempenho no clássico contra o Botafogo, em São Januário, vencido por 3 a 0, remete a 2019, quando o mesmo Luxemburgo promoveu o atacante ao time principal. Foi de Talles Magno a cabeçada que abriu o placar na Colina neste domingo.

Para o Vasco, a retomada do laço afetivo traz um efeito psicológico que se traduz na tabela: o time chegou aos 32 pontos e se afastou ainda mais da zona de rebaixamento. A diferença em relação ao Bahia é de três pontos, com um jogo a menos. O Botafogo segue pela via dolorosa rumo ao calvário da Série B. São nove pontos de distância do Fortaleza, o primeiro fora do Z4.

Com Talles Magno, Luxemburgo parece saber exatamente como fazer a abordagem tática e mental. No primeiro dia da atual passagem, o técnico se deparou com jogador de 18 anos fazendo uma massagem na mão, em um canto do vestiário no CT. A reação imediata foi uma bronca e a ordem para “chutar uma bola”, ao melhor jeitão do professor.

— Ele me subiu, sempre me ajudou em todos os momentos. Nesse momento difícil, ele tem me reanimado, me reencontrado. Tenho que agradecer muito a ele por cada esporro, por cada briga, porque eu sei que é para o meu melhor — disse Talles Magno, que fez seu terceiro gol na temporada.

Detalhe é que o atacante fizera gols anteriores nos clássicos contra Flamengo e Fluminense, mas o Vasco perdeu ambos.

A mudança em Talles Magno com a chegada de Luxemburgo vai além do aspecto motivacional. A proposta é que ele atue mais próximo ao gol, centralizado, sem tantas responsabilidades defensivas. Isso contrasta com o que os técnicos anteriores pediram para o atacante em 2020: cobrir o lado esquerdo, atribuindo a ele a tarefa de dobrar o preenchimento do espaço com o lateral-esquerdo da vez — na maior parte do ano, foi Henrique, que na época de Ramon emulava um terceiro zagueiro.

A dobradinha com Henrique deu certo na parte ofensiva no clássico com o Botafogo. O cruzamento certeiro do bico da área achou Talles Magno entre os zagueiros do Botafogo. O movimento foi perfeito, não precisou de tanta força para deslocar Diego Cavalieri.

Talles já tinha usufruído dessa liberdade contra o Atlético-GO, mas a atuação passou longe de ser um primor. Ele ganhou confiança ao longo da semana e mostrou cenas daquele jogador promissor que apareceu em 2019. Um drible em Kevin fez o botafoguense perder o rumo e se estabacar.

Sentença

No outro lado do clássico, viu-se um Botafogo cada vez mais sem fôlego para uma arrancada rumo à salvação. E olha que a proposta da escalação de Eduardo Barroca foi apostar na velocidade. Mas a deficiência técnica das opções inviabilizou o planejamento. Os velocistas não tinham quem os lançasse na ponta. E quando tentavam arrastar a bola, eram facilmente desarmados ou tropeçavam nas próprias pernas. Retrato disso foi a forma com a qual Bruno Gomes roubou a bola de Kelvin no último lance do primeiro tempo. Nem precisou correr.

No segundo tempo, Barroca recorreu a Cícero e Kalou. Experiência que contrasta com o estreante Romildo, meio-campista de 20 anos que foi substituído e passou mal de calor durante o segundo tempo, no banco.

O Vasco pareceu sentir a parte física, mas o enredo do Botafogo traz requintes de crueldade. Pelo alto, as melhores chances. Depois de um escanteio, um chute de Kalou foi bloqueado por Henrique em cima da linha. O lateral do Vasco fizera algo semelhante contra o Atlético-GO. Cícero, por sua vez, chegou a comemorar um gol de cabeça. Só que estava impedido.

A festa, de fato, aconteceu quando o Vasco se organizou e propiciou o chute certeiro de Andrey. No fim, Pikachu fez o terceiro de pênalti. O resultado tem cara de sentença. Vasco afastado da zona da “confusão”. Botafogo cada vez mais perdido.