Análise: Tite colhe frutos do ciclo de trabalho, justifica Daniel Alves, mas não escapa de debate

De Romário (2002) a Neymar e Ganso (2010), passando por Alex (2002 e 2006) ou Ronaldinho Gaúcho (2010), as ausências costumam pautar o debate em torno das convocações da seleção brasileira para Copas do Mundo. Tite, de certa forma, não corria esse risco: fruto de um trabalho de longo prazo, a lista divulgada nesta segunda-feira, na sede da CBF, no Rio, tinha pouco espaço para surpresas, não havia um clamor popular em torno de algum nome dissidente e a ampliação de 23 para 26 convocados permitiu que o treinador acomodasse com certo conforto nove jogadores no ataque, setor sempre mais sensível a discordâncias. Todos os atacantes, incluindo a “novidade” Gabriel Martinelli, justificam o carimbo do Catar no passaporte pelo que mostraram ao longo do ciclo, em clubes ou seleção.

Tabela da Copa: Datas, horários e grupos do Mundial do Catar

Simulador: você decide quem será campeão da Copa do Catar

Sem discussão em torno de “um nome que faltou”, não era de se surpreender que a presença de Daniel Alves tomaria os holofotes e geraria mais críticas do que aplausos nas redes sociais, mesmo diante dos argumentos da comissão para justificar a presença do lateral de 39 anos.

Dani não joga desde setembro, vem de passagens irregulares por três clubes nos últimos três anos e mantém a forma física treinando no Barcelona B, já que o Pumas, seu clube, foi eliminado da liga mexicana. Na última data Fifa, ficou fora dos amistosos da seleção brasileira por questão física e, mesmo que hoje seja apenas uma opção para o banco de reservas, sem ameaçar a titularidade de Danilo, não foi poupado do arsenal de críticas. Afinal, qual será o Daniel Alves que entrará em campo caso o titular da Juventus esteja suspenso ou se machuque? A preocupação é válida, já que os problemas físicos foram cruciais nas últimas eliminações em Mundiais.

Ao ser perguntado sobre as reações negativas, Tite disse que não estava ali para “agradar as pessoas do Twitter”, que “respeita opiniões divergentes” e não tem a ambição de “convencer todas as pessoas.” Foi um raro momento em que Tite, mesmo sereno, foi mais enérgico nas palavras para defender sua escolha. Antes, técnico e comissão asseguraram que o lateral está apto fisicamente e que o atual modelo de jogo da seleção favorece atletas com as características do veterano. Para Tite, os laterais do Brasil não atuam como pontas, portanto não precisam ir e voltar o tempo todo. E são mais construtores de jogadas, que é exatamente o que Daniel Alves poderia oferecer.

Você escala: quais os seus 11 titulares do Brasil na Copa do Mundo

Nas outras posições não houve alarde. Bremer ficou com a quarta vaga na zaga, e Martinelli será uma nova opção pela esquerda do ataque. Ao longo do último ciclo, foram 84 jogadores testados em uma campanha com mais de 80% de aproveitamento. Mais do que números, Tite pôde testar variações táticas, moldar suas certezas ao passo que novas peças se provavam e o termo “Neymardependência” caiu em desuso no dicionário do futebol à medida que nomes como Vini Jr., Rodrygo, Antony, Raphinha surgiram ou amadureceram. Não há entre as 32 seleções que vão ao Catar um arsenal ofensivo tão completo e que permita tantas variações e opções de qualidade vindas do banco como o Brasil.

No papel com o timbre da CBF entregue ontem aos jornalistas, a lista de Tite traz mais motivos de esperança do que preocupações ao torcedor. Agora, são sete jogos para Tite colocar as convicções em prática pelo título.