Análise: tri da Libertadores recoloca Flamengo no trilho para marcar uma era

1981. 2019. 2022. O tricampeonato da Libertadores conquistado pelo Flamengo, neste sábado, em cima do Athletico-PR, é a retomada de um projeto do clube para dominar a América do Sul após a reestruturação financeira da última década ser transformada em resultado esportivo. Ao superar a geração de 1981 em títulos do torneio sul-americano, a atual geração fica a um degrau de assumir o posto de maior da história do clube, caso conquiste também o Mundial, a ser disputado em 2023. E recoloca o clube no trilho para marcar uma era, com os mesmos três títulos de São Paulo, Santos, Palmeiras e Grêmio.

Só o fato de ter chegado à sua terceira final de Libertadores em quatro anos já era prova de um trabalho sustentável no longo prazo. Que passa também pelas conquistas do Brasileiro de 2019, 2020, entre tantos outros troféus, 11 no total em três anos. Com o 1 a 0 sobre o Athletico, o Flamengo teve 12 vitórias e um empate na atual edição, invicto com a melhor campanha de um clube na história do torneio sul-americano. Provou-se o melhor time do continente mais uma vez com sobras.

Faltava ajustar o trabalho científico do clube aos talentos que se multiplicam em campo e meio a um ciclo virtuoso de contratações. Ao dosar o time em um revezamento que priorizou as Copas e deixou o Brasileiro como lucro, o técnico Dorival Júnior provou que o importante no calendário brasileiro não é conquistar tudo, mas conquistar sempre. Acabou levando a Libertadores e a Copa do Brasil, feito inédito na história do Flamengo.

Símbolos desse protagonismo duradouro, Gabigol e Éverton Ribeiro destravaram o nó dado por Felipão no primeiro tempo, após a expulsão de Pedro Henrique, do Athletico, e se consolidaram como atletas com importância parecida a de Zico e companhia. O camisa nove como principal ídolo rubro-negro atualmente, com o mesmo número em finais, inclusive (4), e o meia, capitão do time, como cérebro dessa equipe, e candidato a representá-la na Copa do Mundo ao lado de Pedro, o artilheiro da Libertadores..

Ribeiro foi para o Flamengo nesta edição o que Arrascaeta foi em 2019. Diferentemente de três anos atrás, quando virou contra o River em poucos minutos, o Flamengo sofreu por todo o primeiro tempo, marcou aos 48 minutos, e na segunda etapa poderia ter ampliado, mas acabou administrando e evitando os perigos maiores, sob a batuta do camisa sete.

Saída de Filipe Luís e expulsão são determinantes

Com uma estratégia que surpreendeu o Flamengo, Felipão armou o Athletico de forma a anular as ações do rival dentro de seu campo defensivo, e por quase todo o primeiro tempo isso foi possível. A equipe comandada por Dorival Júnior era marcada individualmente, sobretudo os meias Arrascaeta e Éverton Ribeiro. O Athletico adotou postura ousada ao adiantar as linhas e igualar numericamente os homens de meio-campo, com Hugo Moura e Alex Santana em cima dos meias rubro-negros. Desta forma, a saída de bola só era limpa nos pés de David Luiz e Léo Pereira, e nem tanto assim, pois o vigor de Vitor Roque, Vitinho e Vitor Bueno gerara pressão. Mesmo com mais posse de bola, o Flamengo teve dificuldades de sair do seu campo. O que piorou com a lesão de Filipe Luís. O jogador levou uma pancada no joelho e não conseguir seguir na partida, assim como em 2021.

A entrada de Ayrton Lucas, entretanto, deu nova velocidade pelo lado esquerdo. E foi em uma bola esticada que o lateral acreditou que o jogo virou a favor do Flamengo. Pedro Henrique, zagueiro que já havia feito falta desnecesária sobre Gabigol, chegou atrasado e fez falta dura em Ayrton, o que levou ao segundo cartão amarelo. Depois do lance, já no fim da etapa inicial, Fernandinho recuou, e o meio-campo teve mais espaço para Éverton Ribeiro assumir o protagonismo. Em jogada pela direita com Rodinei, o camisa sete serviu Gabigol, que fechou na segunda trave e só empurrou para a rede.

Na etapa final, Felipão lançou as opções que tinha de fazer um jogo mais propositivo desde o início, mas com um a menos não adiantou. O Flamengo conseguiu suportar a pressão, saiu com mais espaço em várias investidas, mas sofreu um pouco com o desgaste físico, que levou Gabigol e Arrascaeta a pedirem para sair. Diferentemente do jogo contra o Corinthians na Copa do Brasil, as mexidas de Dorival deixaram o time mais compacto e organizado. Vidal e Victor Hugo, sobretudo, renovaram bem o gás após a saída de Thiago Maia, e João Gomes foi peça fundamental nesse momento por todo seu vigor. Um elenco renovado, com talentos longevos, alguns prestes a se aposentar, e sementes sendo plantadas para que a geração comemore por muito tempo.