Análise: Vasco precisa de sangue frio para seguir na Série A, não de caça às bruxas

Bruno Marinho
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Segundo tempo do jogo contra o Flamengo. O placar ainda está 1 a 0 contra e o Vasco tenta jogar no Maracanã. Com três alterações, Juninho, Carlinhos e Ygor Catatau, a equipe equilibra um pouco as ações. E brotam questionamentos nas redes sociais sobre por que o time não desempenhou o mesmo futebol desde o início do clássico.

A resposta é simples: porque o Flamengo não deixou. Análises sobre o desempenho de uma equipe quando ela está atrás no placar e tenta reagir caem quase sempre na mesma armadilha, ao desconsiderarem o time que está do outro lado e a possível mudança de postura, de estratégia de jogo, adotada.

Mas essa não é uma análise sobre o desempenho do Vasco na derrota para o Flamengo, sobre a maneira com que o time se comportou depois que a equipe treinada por Rogério Ceni tirou o pé da marcação sob pressão na saída de bola, chamou o Cruz-maltino para o próprio campo e tentou matar o jogo no contra-ataque.

Essa é uma análise sobre como o resultado no Maracanã não deve ou deveria afetar o time montado por Vanderlei Luxemburgo nesse curto trabalho. Não há tempo para revoluções, caças às bruxas, soluções táticas mirabolantes e nem mudanças bruscas nas peças. São quatro jogos e o time precisa de duas vitórias, de preferência sobre Fortaleza e Goiás, e um empate, quem sabe com o Corinthians. Ponto.

Não que o time esteja bem, voando, pronto para garantir a permanência na Série A sem sustos. É que esse Vasco não tem para onde melhorar. E quando não é possível andar para frente, é melhor seguir parado do que andar para trás.

O esquema está claro: 4-5-1 com a bola, 4-4-2 sem ela, com Cano e Benítez jogando na frente. Luxemburgo alivia Benítez do desgaste com a marcação e coloca a linha de quatro no meio de campo para fazer o trabalho sujo: da direita para a esquerda, Yago Pikachu, Bruno Gomes, Leo Gil e Gabriel Pec. Pode ser o Talles no lugar do Gabriel. Não importa quem seja o titular. Um dos dois vai ser obrigado a marcar o lateral e não dará conta da transição em velocidade para o ataque. Mas é o preço para preservar o camisa 10. Por enquanto, parece um benefício justo a se comprar.

Contra o Flamengo, a retranca armada por Luxemburgo não funcionou. Levando em consideração o primeiro tempo, que é quando as duas equipes chegam zeradas para o jogo e colocam suas estratégias à prova, não funcionou porque o Flamengo soube jogar com bola e ocupar os espaços de forma que o time da Colina não conseguisse fazer a transição.

Mas contra o Fortaleza, poderá funcionar. O Vasco terá do outro lado um adversário com tanta obrigação para buscar o jogo quanto o Flamengo, mas com recursos substancialmente mais escassos. É nessas prováveis falhas adversárias que o Vasco poderá buscar os contra-ataques e vencer a partida.

Em termos de escalação, Gabriel Pec merece uma segunda chance. Contra o Flamengo, não deu conta de marcar e ainda se apresentar para Benítez na saída rápida. No Ceará, a história poderá ser outra, com o garoto menos atarefado defendendo e com mais espaços pela esquerda.

Além da manutenção tática, o Vasco deveria repetir os 11 iniciais. Isso porque todos os jogadores do elenco já foram testados e o resultado foi justamente esse, de time que luta para seguir na Série A. Colo Gil pode ter se mostrado uma decepção, mas não será Marcos Júnior ou Carlinhos que fará diferença. Andrey virou primeiro volante, não conta como possível substituto. O mesmo vale para Juninho, que virou meia e às vezes ponta.

A essa altura do Brasileiro, vale mais Vanderlei Luxemburgo apostar na manutenção do pouco que conseguiu acertar na equipe do que arriscar e correr o risco de ficar sem nada. Para suportar a pressão dos últimos quatro jogos, deve investir em quem estiver bem física e emocionalmente forte e reforçar o entrosamento entre os que já estão jogando. Soluções caseiras e milaborantes, como Caio Lopes despontou que poderia ser, foram até agora guardadas no armário. O garoto teve uma chance, o time foi atropelado pelo Red Bull Bragantino e depois disso ele perdeu espaço.

Vai chegar a hora em que o Vasco terá de se transformar. Depois que o Campeonato Brasileiro acabar, uma reformulação no elenco seria muito bem vinda. Mas antes disso, é inútil, é correr atrás do próprio rabo. O time é esse e é ele quem precisa manter o Vasco na Primeira Divisão.