Ana Marcela Cunha: "Nós somos carentes de ídolos de outros esportes"

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Há exatamente um ano, Ana Marcela Cunha vencia a prova dos 10km da maratona aquática nas Olimpíadas de Tóquio e conquistava a primeira medalha da modalidade para o Brasil. A vitória apenas consolidou uma carreira de dez anos no mais alto rendimento: ela foi sete vezes eleita a atleta do ano pela Federação Internacional de Natação, e já ganhou 14 medalhas em campeonatos mundiais (7 ouros, 2 pratas e 5 bronzes).

Ana Marcela estreou em Olimpíadas em Pequim, em 2008, com apenas 16 anos. Foi a estreia do esporte nos Jogos Olímpicos, e, apesar da pouca idade, ela já era uma veterana, com dois anos de experiência na seleção brasileira.

— Para mim foi como um parque de diversões (risos). O dia que eu cheguei na Vila Olímpica foi o mais assustador, vi o Kobe Bryant e o Michael Phelps andando. Estava despreparada. Hoje, os atletas são bem mais preparados sobre o que pode acontecer — conta Cunha, que ressalta a importância da saúde mental no esporte.

— O trabalho mental virou algo tão necessário quanto outras partes do treinamento, como trabalhar a parte física e fazer fisioterapia. Conseguir colocar isso dentro do planejamento me ajudou muito. Eu lido bem com pressão, mas hoje entendo o que aconteceu com a Simone (Biles, que desistiu de disputar finais olímpicas prezando pela saúde mental). Depois que você ganha o título mundial, a cobrança aumenta, parece que você tem mais obrigações ainda — desabafa.

E foi depois do ouro olímpico que as dúvidas começaram a pairar. Com medalhas em todas as categorias que disputa — 5, 10 e 25km — a atleta revela a motivação para continuar se dedicando ao esporte:

— Vou nadar até quando eu gostar, me fizer feliz e eu estiver bem. Hoje, já conquistei tudo o que queria, e chegou uma hora em que me perguntei se estava fazendo isso por mim ou pelos outros. Eu acho que eu não preciso ser mais nada. Eu continuo porque amo o que faço e é minha profissão. Tem uma equipe gigante de pessoas trabalhando na Ana Marcela, e aí entra o lado mais profissional de ser atleta.

Em relação às metas futuras, a vontade de superar os desafios é um combustível para a nadadora.

— Eu e o Fernando (Possenti, técnico) tentamos sempre “subir o sarrafo”. Ninguém no nosso esporte foi bicampeão olímpico, e para sairmos da nossa zona de conforto, queremos fazer coisas que ninguém fez. O mais importante hoje é me manter no alto nível, nadando todas as provas bem para conseguir a vaga para Paris — analisa.

A classificação está próxima: ela precisa de mais uma vitória em uma das duas etapas restantes do Mundial deste ano, e já ganhou dois ouros na prova de 25km.

Idolatria

Depois que começou a ganhar mais visibilidade, a nadadora passou a ser citada como uma das mais importantes atletas da história do país. Não faltam comparações, até mesmo com Neymar e Pelé, mas a baiana não nutre simpatia por esses julgamentos.

— Nós somos carentes de ídolos de outros esportes. Hoje em dia, os jovens falam do Neymar, do Vinicius Júnior, tudo é muito focado no futebol. Quando eu falo que não quero ser comparada, é porque são esportes diferentes e vivemos outras realidades. Eu quero escrever a minha história, eu tenho ídolos e cresci querendo ser uma referência, e hoje eu sou. Não quero que ninguém queira ser a Ana Marcela, acho que todo mundo tem que escrever a sua história — afirma.

Ao conquistar o ouro olímpico, Ana Marcela agradeceu, em entrevista ao vivo, à sua namorada pelo apoio durante a preparação para os Jogos. Apesar de hoje publicizar seus relacionamentos com outras mulheres, no início da carreira a situação era bem diferente. Ela conta que já teve medo de sair de mãos dadas na rua com outra mulher.

— No começo foi difícil, tinha medo do preconceito e do julgamento. Eu era mais “na minha”, mas hoje, de forma leve, consigo expor mais quem eu sou. Conversei muito com a minha psicóloga, e acho que isso fez melhorar ainda mais os resultados, porque não tenho que me preocupar com mais outra coisa. E vejo o quanto é importante para outras pessoas — afirma Ana Marcela, que se surpreendeu com a quantidade de mensagens de apoio que recebeu nas redes sociais após a declaração.

Em relação ao futuro depois da aposentadoria, a atleta já tem planos para a transição de carreira, e brinca sobre a possibilidade de conseguir uma vaga no Comitê Olímpico do Brasil.

— Sou formada em educação física e sempre tive o sonho de ir (dar aula) na borda da piscina, mas as crianças de hoje são muito diferentes. Então acho que talvez eu prefira trabalhar de outro jeito dentro do esporte, dando o que eu tenho de melhor, que é a minha vivência, para outros conseguirem progredir no esporte. Já tenho um instituto aberto, mas não coloquei em prática ainda, em parte por minha culpa, porque eu quero estar presente. Não quero ter alguma coisa no meu nome e deixar os outros fazendo, eu quero fazer parte.

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