Ana Maria Braga e a branquitude precisam ter mais responsabilidade ao falar em ‘racismo reverso’

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Lumena agiu errado em diversas ocasiões no BBB, mas ela não tem o poder de ser racista contra Carla; os brancos precisam ter responsabilidade, se enxergar e estudar a produção intelectual negra (Foto: Reprodução/Rede Globo)
Lumena agiu errado em diversas ocasiões no BBB, mas ela não tem o poder de ser racista contra Carla; os brancos precisam ter responsabilidade, se enxergar e estudar a produção intelectual negra (Foto: Reprodução/Rede Globo)

Flávia Ribeiro

Repitam: RACISMO REVERSO NÃO EXISTE! É preciso que se fale isso em alto e bom som e com letras garrafais para começar esta conversa. Ao vermos uma pessoa pública, como a apresentadora Ana Maria Braga, em canal aberto, reforçando o racismo reverso, precisamos, mais uma vez, ressaltar que o racismo é uma invenção da branquitude, em que as pessoas negras não se beneficiam em nenhuma ocasião.

No Brasil, que sustenta o mito da democracia racial, roubaram-nos a identidade negra logo cedo. “Somos miscigenados, diversos, uma lindeza de terra em que todos são tratados de maneira igual”. Um mito! Mitos não são bons, sabemos disso, não é mesmo? Os rastros do maior crime de todos os tempos foram queimados, estão esfumaçados, mas persistem para quem quer ver.

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É preciso abrir os olhos e as mentes e ver que somos diferentes sim. Não digam que não enxergam cores porque o nosso mundo está dividido assim. Quantos médicos negros vocês tiveram ao longo da vida? Quantas médicas negras? Olhem fotos de formatura de cursos como Direito e vejam quantas pessoas negras estão lá. Agora, comparem o número de empregadas negras e negros de residências vocês conhecem. Pessoas negras são a maioria deste país, porque estamos representadas numericamente de maneira desigual nos espaços? Quantas pessoas negras têm o mesmo espaço de Ana Maria na televisão aberta?

Entendam que racismo é algo estrutural e estruturante na sociedade brasileira. Não gostar de uma pessoa branca pode causar sofrimento, mas isso não representa um risco de vida. Pessoas brancas com guarda chuva não são confundidas com bandidos. Aliás, quantas pessoas brancas têm ‘cara de bandido’? ‘Cara de empregada’? Quantas pessoas brancas perdem o emprego por não terem ‘boa aparência’?

Foram quase quatro séculos em que pessoas negras foram sequestradas em África e forçadas a trabalhar em outro continente. De 1888, quando a Lei Áurea foi assinada, para cá há menos tempo do que os séculos de escravidão. E depois da Lei, o que aconteceu com os negros? Como se começa uma vida livre sem casa, documentos, dinheiro, comida?

São séculos dizendo que quanto mais escura, mais feia é a pele, e quanto mais liso, mais bonito é o cabelo. Quando os europeus chegaram nesta terra e interromperam a história do Brasil, eles se certificaram de mostrar que são superiores.

Os grandes heróis e desbravadores dos nossos livros de História são homens brancos. Quando se fala em cultura, tudo o que vem da Europa é considerado bom, superior e bonito. Tudo o que vem de África é feio, é pobre, inferior. As religiões de matriz africana são demonizadas até hoje. Os terreiros são invadidos, depredados, os religiosos são assassinados.

Percebam que racismo não é algo pessoal. Quando Lumena compara Carla a uma “boneca assassina”, por exemplo, ela está sendo muito desrespeitosa. Mas isso não é opressão. Ela está agindo errado, mas não é racismo. Agora, quando ela aponta a branquitude de Carla, pasmem, ela está certa. Carla Diaz, Ana Maria e quase todos os apresentadores de TV e de telejornalismo, os artistas, os diretores estão sim usufruindo desse espaço de privilégio. Têm culpa? Não! Mas usufruem sim.

Eu nem gosto de escrever ou de falar sobre racismo reverso, mas quando uma apresentadora usa do seu horário para reforçar essa ideia, preciso vir aqui. Gritar que ela está sendo desrespeitosa com a produção intelectual que vem sendo produzida sobre o assunto. Não quero ensinar nada a ela. Ela não sabe o que é branquitude? Há livros, inclusive escritos por pessoas brancas, como ela, para tratar do assunto. Ela só precisa de interesse em estudar, se informar. É preciso responsabilidade quando se tem um espaço em uma TV.

Este texto aqui é para que as pessoas negras continuem de cabeça erguida. Olhando e zelando pelos nossos, reconstruindo e no protagonismo da nossa história e para que sigamos os versos de Mel Duarte, na música "Mandume":

“É mais do que fazer barulho e vir retomar o que é nosso por direito/ Por eles continuávamos mudos, quem dirá fazendo história, ter livro feito/ Entenda que descendemos de África e temos como legado ressaltar a diáspora de um povo oprimido/ Queremos mais do que reparação histórica, ver os nossos em evidência/ E isso não é um pedido/ Chega de tanta didática, a vida é muito vasta pra gastar o nosso tempo ensinando o que já deviam ter aprendido/ Porque mais do que um beat pesado é fazer ecoar em sua mente o legado de Mandume/ E no que depender da minha geração, parça, não mais passarão impunes”.

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