Ana Maria Machado faz 80 anos e escreve sobre lembranças de encontros com leitores

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RIO - Nascida em véspera de Natal, Ana Maria Machado não é muito de comemorar o seu aniversário, até para não rivalizar com as festividades da data. Ícone da literatura brasileira, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen (o Nobel do infantojuvenil) e de três Jabuti, a autora abriu uma exceção para a chegada dos seus 80 anos, completados hoje. Na semana passada, ela reuniu filhos e netos, que moram em diferentes lugares do mundo, para uma celebração familiar em sua casa de praia , no litoral do Espírito Santo.

Os 80 da escritora também marcam a publicação de seis livros. Foram três infantis no primeiro semestre, pela editora Moderna, que destacam temas como a solidariedade: “Igualzinho a mim”, “A história que eu queria” e “O mesmo sonho”.

Neste final de 2021, ela ainda está lançando outros três títulos “para adultos”. Todos eles, de alguma forma, giram em torno da memória. Nos contos da coletânea “Vésperas”, conflitos do presente ecoam rusgas do passado. Já “Ana Maria Machado: Entrevista” (Coleção Palavra do Tradutor) traz uma série de conversas em que a autora relembra sua carreira, que inclui 22 milhões de exemplares vendidos.

Concebido na quarentena, “Rastros e riscos” (Ática) reúne as lembranças dos encontros da autora com leitores. Pensar no efeito que sua obra causou em seu público é o que deu coragem à titular da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras para seguir em frente durante a pandemia, conta ela em entrevista ao GLOBO.

Por que um livro de memórias? E, mais especificamente, por que construí-lo partir dos seus encontros com os leitores?

Quando começamos a ficar isolados e preocupados sem saber todas as incertezas comecei a lembrar de coisas alegres, coisas boas. Abri um arquivo que chamei de Pequenas Alegrias Secretas e comecei a lembrar de crianças que eu tinha encontrado, e outros leitores de diferentes circunstâncias. Eram lembranças de bons encontros, que naturalmente foi virando um livro em três partes. Algumas lembranças são bem afetivas, outras são reflexões sobre políticas de leitura no Brasil e como vi mudarem ao longo da minha vida. Vou ampliando do individual para o coletivo.

O livro é um produto da quarentena. Como viveu o seu período de confinamento?

Passei a quarentena com muito cuidado. Sou triplamente grupo de risco: pela idade, por ser diabética e por ter três doenças respiratórias. Por isso fiquei para dentro, lembrando das coisas que me seguravam.

Qual foi a sua primeira reação ao saber que enfrentaríamos uma pandemia?

Eu tenho um lado muito científico. Sempre achei que íamos ter uma grande pandemia. Isso estava no horizonte. Na primeira semana já estava atocaiada, com mantimentos. Nesse tempo todo, não fiquei deprimida, fiquei preocupada com os outros, os que enfrentavam dificuldade, os que não podiam se isolar e se alimentar. Temos muito a aprender durante a quarentena.

E o que você aprendeu?

Desde a fazer live a ficar quietinha. Desaprendi coisas que achava que sabia e reaprendi coisas que achava que havia esquecido.

Sendo você uma pessoa que durante décadas acompanhou as diferentes políticas para a leitura no país, como vê a atuação do atual governo federal neste segmento?

Hoje é a destruição de tudo. Mas falar isso é chover no molhado, está todo mundo vendo. A gente vai sobreviver a tudo isso, tenho esperança. A recente eleição [presidencial] no Chile acena com alguma coisa... Mas o que me aflige mais é a questão ambiental. Acho muito mais lento e difícil recuperar a devastação [do meio ambiente]. Nem mesmo a oposição está levantando essa bandeira com a força que deveria. No restante do mundo tem adolescente fazendo passeata toda sexta-feira.

Corremos o risco de perder uma geração de leitores?

As crianças têm perdido no geral. É leitura, é fazer conta, é pensar o mundo, é socializar... Nenhum outro país ficou tanto tempo sem ir à escola. Mas não acho que perdemos uma geração de leitores. Isso se tiver um projeto consistente dá para recuperar rápido. Acho que recuperar um pantanal devastado é mais difícil.

Você está lançando um novo livro de contos. Sente que o sucesso como autora infantojuvenil eclipsou ou ainda eclipsa a sua produção literária para adultos?

É como chegar para qualquer pessoa e dizer assim: “Você gosta mais de conversar com pessoas mais velhas ou mais moças?” É uma coisa que depende das circunstâncias. Talvez eu tenha ficado refém de uma imagem de sucesso do livro infantojuvenil. Quando se diz que vendi 22 milhões de exemplares, evidentemente a maior parte é pelo livro infantojuvenil. Mas eu não posso me queixar porque o reconhecimento crítico aos meus livros adultos também é muito bom. Foi por causa deles que entrei na ABL. Recentemente teve um seminário inteiro no exterior dedicado à minha obra. Foram 29 apresentações de países diferentes e a grande maioria era sobre minha obra para adultos.

Nos últimos anos, há cada vez mais notícias de autores infantojuvenis que são “cancelados” por causa de títulos antigos. Pais que pressionam as escolas para que deixem de trabalhar livros com determinados temas. Conversando com escritores da área, o que se ouve é que o gênero sempre foi alvo de críticas...

Sim, sempre foi assim.

Mas, ao mesmo tempo, parece que a pressão ficou mais forte agora, em especial como o advento das redes sociais. Recentemente, o escritor José Roberto Torero teve um livro dos anos 1990 tirado de circulação por sua editora, após leitores apontarem um trecho considerado racista. Depois disso, ele afirmou em um texto que ficou impossível fazer literatura infantojuvenil hoje, porque seria preciso agradar a todos os lados.

É um momento muito mais pesado [do que em outras épocas]. E não só por causa das redes sociais, mas por causa de uma cultura de ódio. É um momento de acirramento da intolerância. No caso do livro infantojuvenil fica mais difícil porque existem diversas instâncias: os avós do leitor, os pais do leitor, o professor do leitor...

Em 2018, você também passou por uma situação difícil por causa do livro “O menino que espiava para dentro”, que 35 anos após o seu lançamento foi acusado de fazer incitação ao suicídio.

Nunca mais quis ter página em rede social depois disso. Você não imagina como foi a violência, o tipo de ameaça. Pediram ao ministério público para que meus livros não fossem mais estudados em escola. Dirigiram-se especificamente à Amazon para que ela nunca mais vendesse meus livros... Mas para quê eu tenho que falar de novo sobre isso? Para lembrar? Não é que não queira falar porque tenho medo, mas é que se ficar remoendo vou ficar amarga e nunca mais vou escrever. Quero pensar nos meus livros novos.

Que mensagem você mandaria aos jovens ao fim de um ano tão difícil?

Não sou boa de mensagem, não. Costumo dizer que quem manda mensagem é telegrafista. Mas eu diria a eles que o importante é ouvir os outros. Tentar entender qual é a razão do outro, o que outro está passando. A alteridade é fundamental para sair da pós-pandemia depois da terra arrasada desse governo. É nos darmos as mãos e seguirmos em frente.

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