Governadores têm razão em temer um motim pró-Bolsonaro?

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Supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro take part in a protest near the house of the Governor of Sao Paulo Joao Doria against the measures he implemented to curb the spread of the coronavirus disease (COVID-19), in Sao Paulo, Brazil, March 7, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
Polícia barra avanço de apoiadores de Bolsonaro em frente à casa do governador João Doria. Foto: Amanda PerobelliReuters

Um segredo de Polichinelo veio a público com a decisão de João Doria de afastar um comandante da PM que incitou a participação de colegas em atos pró-Bolsonaro no dia 7 de Setembro, em Brasília.

Então chefe do Comando do Policiamento do Interior-7, que cobre 78 cidades da região de Sorocaba (SP) e soma 5.000 policiais de sete batalhões, o coronel Aleksander Toaldo Lacerda sabia que não poderia se manifestar nas redes como se manifestou até receber a punição anunciada pelo governador paulista.

O governador paulista, por sua vez, sabia que não se trata de caso isolado. Doria tentou mostrar firmeza, mas pode ter agido tarde.

Após o afastamento, conforme apurou a Folha de S.Paulo, colegas do coronel correram para dizer que seu posicionamento nas redes não revelava uma inclinação “golpista”. Era coisa de “tiozão do Facebook” que compartilha tudo o que recebe e não valeria uma punição maior.

Acredita quem quiser.

O regulamento da Polícia Militar proíbe seus quadros de participarem ou promoverem atos político-partidários.

Ainda assim, o chefe do CPI-7 usou suas redes para chamar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), de “covarde”, o governador paulista — e seu chefe — de “cepa indiana” e o recém-empossado secretário de Projetos e Ações Estratégicas de São Paulo Rodrigo Maia de beneficiário de um esquema “mafioso”.

Fosse um “tiozão de Facebook” qualquer, as palavras ficariam ao vento.

Mas Lacerda era comandante de um pequeno exército de 5 mil homens. Uma convocação para atos em defesa de quem quer que seja não tem outra conotação se não a de uma ordem.

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Em condições normais, seria redundante explicar o quanto é grave a manifestação e participação de militares em atos políticos. Sobretudo quando grupos políticos estão em conflito aberto e à véspera de uma eleição —uma eleição em que um dos lados não dá sinais de que reconhecerá o resultado em caso de derrota.

Jair Bolsonaro se candidatou a presidente e agora reivindica o posto de imperador. Ele desistiu há tempos de governar e explicar seus atos, inclusive as suspeitas de corrupção envolvendo seus subordinados e entorno. O que existe hoje é um projeto de poder visando a reeleição. Se não nas urnas, à força.

Para isso, não precisa do beneplácito da maioria da população. Justo ele, para quem a minoria deve sempre se curvar aos desejos majoritários. Em vez disso, conta com o ativismo de seus apoiadores remanescentes para poder passar mais quatro anos andando de motocicleta às custas do erário.

Está convicto de que, se tiver as armas ao seu lado, não precisará justificar os (muitos) erros de sua gestão. Basta calar quem critica e apontar a mira para quem tenta delimitar o seu campo de atuação. Daí o alerta de ministros do Supremo a governadores.

As armas aqui não tem sentido alegórico. Elas estão espalhadas nas mãos de civis, beneficiários do afrouxamento de regras para porte de armas, as Forças Armadas, hoje comandadas por um ministro mais bolsonarista que Bolsonaro, e as polícias estaduais.

Na reunião virtual do fórum dos governadores, Dória alertou os colegas sobre o risco de motim de policiais em seus estados. Disse que a inteligência da Polícia Civil apontou crescimento de movimentos autoritários nas corporações para emparedar governadores e prefeitos. Não precisava nem avisar. A situação já estava desenhada na reunião de 22 de abril de 2020. Houve quem preferisse apostar no mito de que Bolsonaro poderia se moderar.

“O presidente flerta com o autoritarismo permanentemente, e muitos de seus ministros endossam isso”, disse o tucano, segundo quem seus apoiadores estimulam as pessoas a ir armadas para as ruas.

Alguém duvida? A escalada acontece no momento em que o país é governado por um ex-militar indisciplinado que, como chefe das Forças Armadas, forçou seus subordinados à demissão por se negarem a embarcar em seus delírios golpistas, segundo a assustadora entrevista do ex-ministro da Defesa Raul Jungmann à revista “Veja”. Segundo ele, Bolsonaro queria usar os caças Gripen para sobrevoar o STF acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio. Os chefes militares se negaram a obedecer e foram substituídos. A história até agora não foi desmentida.

Em pouco mais de dois anos e meio como presidente, Bolsonaro usou seu tempo precioso para alimentar a animosidade entre Poderes e estimular a violência política contra todos os que não se dobram às suas inclinações. Fez isso acenando e prometendo benesses a grupos militares que hoje demonstram disposição a ir à guerra por ele —mesmo que à custa do cargo, como é o caso do comandante paulista.

Se amanhã os vidros e os ossos dos integrantes do Supremo e outras instituições forem quebrados por cabos, soldados, civis armados e policiais nas fileiras dos manifestantes mais radicalizados, quem estará a postos para conter o caos?

A simples pergunta deveria acender todos os alertas sobre os riscos do engajamento das tropas em assuntos políticos e partidários. Do lado que for. Sua missão é proteger, fazer cumprir as leis, combater o crime, preservar a ordem pública — e não engrossar as fileiras da barafunda estimulada, dia sim, outro também, pelo maior dos desordeiros.

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