Os rastros de ódio no filme "Bacurau"

Matheus Pichonelli
Cena do filme "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Foto: Reprodução)
Cena do filme "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Foto: Reprodução)

“Eu tenho vivido em um mundo de mortes. Eu vi as pessoas que eu amava morrerem. Algumas rapidamente, com um tiro. De outras não sobrou o bastante para enterrar. Se vierem me buscar, eles darão boas-vindas à morte”.

Ouço a apresentação do personagem, acuado por invasores, na sala onde fui assistir a “Bacurau” no fim de semana. (atenção: este texto contém spoilers; se você se importa e ainda pretende assistir, volte algumas casas).

O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, uma distopia baseada num futuro próximo, ainda não tinha começado. Era só um trecho do trailer de “Rambo – Até o Fim”, novo longa da franquia de ação. Era o entreposto do que a plateia assistiria dali em diante.

Naquele dia o presidente Jair Bolsonaro acabava de anunciar seu desejo de indultar policiais envolvidos nos massacres do Carandiru e de Eldorado do Carajás – notícia que me chegou, via notificação, já na porta do cinema – e ao menos cinco pessoas haviam sido assassinadas e outras 21 ficaram feridas em dois ataques no Texas; o atirador/terrorista foi alvejado em um complexo de salas de cinema.

Naquele mesmo dia completavam-se também três anos do impeachment de Dilma Rousseff. Era difícil não lembrar da manifestação de Kleber Mendonça Filho na apresentação, em Cannes, de seu filme anterior, “Aquarius”, em 2016, contra o que ele e parte do elenco chamaram, com todas as letras e cartazes, de golpe em curso no Brasil.

Difícil também não fazer paralelos entre o contexto em que os dois filmes chegaram aos cinemas do país. O que eles tinham em comum, além da participação da Sonia Braga?

Em “Aquarius”, ela mimetiza uma ideia de resistência com uma personagem que se nega a deixar o seu local de morada em um prédio prestes a ser demolido para dar lugar a um empreendimento de alto padrão na praia de Boa Viagem, em Recife – onde também se baseava a trama de “O Som Ao Redor”, longa de estreia de Mendonça Filho.

Naquele apartamento condenado a desaparecer, Clara luta com todas as armas que tem, no sentido mais alegórico, para enfrentar os empreendedores armados de instrumentos jurídicos e terrores psicológicos para botar ao chão não apenas um lugar, mas uma forma de vida e sobrevida na qual os vínculos e a memória importam mais do que uma sacada da área gourmet envidraçada. As forças de repressão não usavam botas, mas ameaças veladas, jargões carregados de estrangeirismos e conversas furadas sobre oportunidade de negócios.

Aquele sistema contemporâneo de achaque e repressão, encarnado pelo personagem de Humberto Carrão, tinha como estratégia uma pronúncia passivo-agressiva, conforme a protagonista definiu em um dos diálogos mais marcantes do longa.

Três anos depois, até mesmo aquele sistema sofisticado de imposição parece ter perdido a aura da contemporaneidade. Esta é hoje, novamente, mediada por botas, botinas e promessas de armamento.

Sim, a coisa avançou rapidamente de lá para cá, e é difícil não observar, em “Bacurau”, uma camada espessa de sangue pisado no vilarejo onde o diretor, em parceria com Juliano Dornelles, situa agora o novo velho civilizatório: um entreposto entre o sertão e o agreste, onde invasores não pedem mais por favor, nem enviam folder com propostas irrecusáveis debaixo das portas. Estas estão arrombadas, seja na tela, seja no país onde candidato à Presidência é esfaqueado durante ato de campanha e uma vereadora é metralhada em via pública para deboche de quem rasga as placas em sua homenagem.

A coisa já desandava desde a praia de Boa Viagem, mas era preciso um grau de sensibilidade agudo para imaginar que descambariam para o faroeste high tech que Mendonça Filho e Dornelles conseguiram captar. Como em toda grande tragédia, os sinais não chegam com trombetas. Pelo contrário, cozinham em fogo brando e levam a duas perguntas principais. Quando reagir? E como?

A lentidão com que os sinais descambam para o risco real da eliminação remete a um romance distópico de José J.Veiga, de “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “Sombra de Reis Barbudos”. Neles o ponto central é o medo do estrangeiro que chega para mudar a rotina de seus moradores até que os absurdos se perdem de vista e se naturalizam.

Em Bacurau, povoado homônimo do filme vencedor do prêmio do júri em Cannes deste ano, todo mundo parece demorar a perceber a gravidade da situação e os sinais que atravessam o céu daquela cidade no interior cantado por Gal Costa logo na abertura.

A reação, entre a indiferença e o susto (“eita porra”), do motorista de um caminhão-pipa que tenta desviar, sem atropelar, uma fileira de caixões de madeira espalhados na estrada que levava até o local é o prenúncio desse delay.

Um dia o veículo chega cravejado de bala, ao estilo Mad Max, e o anúncio é feito de modo protocolar: dado o espanto, a rotina volta a se impor como se tudo não passasse de um caso estranho, mas isolado.

Todos ali parecem de certa forma em um profundo estado de letargia, cansados de briga, como fica nítido quando um morador vê em silêncio, e sem grande assombro, um drone em formato de disco-voador a sobrevoar a trilha onde circula.

Ou quando a cidade é acordada pelos passos assustados dos cavalos que fogem de uma fazenda onde uma família é estranhamente dizimada.

Esse cansaço parece empedernido quando os habitantes correm para dentro de suas casas ao verem o prefeito chegar para um ato de campanha no local. De dentro, ensaiam uma espécie de panelaço, desses que marcaram os pronunciamentos políticos nas grandes cidades, onde a própria legitimidade da fala definha.

A saída é se trancafiar para dentro, e é de dentro que vem a resposta quando o cerco finalmente se manifesta. Se em “Aquarius” a resistência está no centro da cena, em “Bacurau” o que se sobressai é a reação.

A forma como essa reação é levada à cena me causou uma série de incômodos. Já em “O Som ao Redor”, era possível ver como as histórias, na filmografia de Kleber Mendonça Filho, se desenvolvem em forma de conto, mesmo em um longa-metragem; o recurso é legítimo, desde que implique no esquecimento de algum personagem no meio do caminho. No filme de estreia a história da vizinha e a máquina de lavar não apenas sobrava, mas parecia flutuar numa trama que se revela outra.

Em “Bacurau”, não há exatamente um protagonista, o que, como uma música sem refrão, não seria um problema se a ideia de reordenamento coletivo como elemento de impulsão não fosse construída por personagens com histórias com começo e sem fim, ou com fim sem começo. Assim, alguns dos personagens parecem desaparecer, como a própria localidade, conforme outros ganham o primeiro plano. É o caso de Pacote (Tomás Aquino) e (sua parceira?) Teresa (Bárbara Colen) após outro matador, o foragido Lunga (Silvero Pereira), ser resgatado de seu mirante para salvar o povoado.

Ah, sim: a certa altura do filme o drone, um sistema de vigilância e monitoramento que provavelmente seria fundamental para evitar o desfecho da trama, também desaparece, o que também incomoda, apesar de uma tentativa de explicação em um dos diálogos.

Também não gosto da construção do prefeito (afinal, ele quer os votos do povoado ou a eliminação física de seus habitantes?).

Em uma das cenas, dois visitantes do sul do país, que logo descobriremos serem aliados dos invasores estrangeiros e supremacistas na empreitada contra o povoado prestes a desaparecer, mal disfarçam o desprezo pelos moradores locais. Um deles tem o pé no sistema jurídico brasileiro (ok, captamos). Esse desprezo, que precede o ódio, se manifesta quando rejeitam o convite para conhecer o museu da cidade. Aquele museu é falado o tempo todo, mas só entra, de fato, em cena, quando fica claro que está no passado, na história de seus habitantes, valentes, armados, curados no cangaço, a quebra definitiva da letargia.

O desprezo por essa história é o desprezo de quem reivindica o patriotismo enquanto tremula a bandeira do separatismo com uma mão e do entreguismo na outra. “Não somos como eles. Somos do Sul e do Sudeste, uma região muito mais rica, colonizada por alemães e italianos. Estamos mais perto de vocês do que deles”, explica a dupla, para deboche dos estrangeiros que estão ali para uma missão até então desconhecida. São os primeiros a serem devorados. O bote é o ponto alto do filme.

Se há uma tese central ali é que o desaparecimento simbólico precede o desaparecimento físico e ambos fazem parte de um mesmo exercício de desumanização e apagamento: o inimigo, antes de ser eliminável, é alguém de quem desconhecemos a história.

Para os personagens de Bacurau, estar no mapa não é luxo para usuários de GPS, mas condição de sobrevivência. Esta não se constrói com flores - já dizia o jargão armamentista.

Um filme é, obviamente, um exercício de imaginação. Feita a catarse, não tem, nem deve ter, a pretensão de apontar caminhos ou munição para a guerrilha (espera-se) nem oferecer, pela tela, o veneno da coragem, como na música de Alceu Valença, que os moradores de Bacurau utilizam como recurso de enfrentamento. Mas se a estética da obra é um pincel encharcado de sangue, a escolha de seus realizadores é também uma decisão ética – sobretudo em um país onde o armamento individual é usado como trunfo político de autogestão e defesa.

Esse incômodo ficou comigo nas primeiras horas após a sessão, até que algumas passagens passaram a fazer mais sentido.

Bacurau não é a inocência perdida, ou sob risco de desaparecimento, quando entra na mira da barbárie – uma barbárie desenhada na brutalização de quem fala da metralhadora como humano e do humano como objeto de repulsa passível de eliminação.

Naquela cidade, a letargia parece compor a paisagem naturalizada onde uma jovem, provavelmente menor de 18 anos, é vítima da exploração sexual e parte da população assiste lobotizada aos melhores momentos de um filme real estrelado por um morador conhecido como “Rei do teco”.

A barbárie está bem guardada no museu, mas não necessariamente desativada naquela espécie de memorial do cangaço, da violência de uma área não alcançada pela lei e pelo Estado e onde o pacto civilizatório é tema de uma permanente negociação individual. “Aqui as coisas não acontecem assim”, avisa um dos moradores, antes de ser assassinado.

“Eu não sabia que era uma criança”, diz um dos estrangeiros assassinos ao justificar a eliminação, como uma barata, de um jovem que cruzou o seu caminho com uma lanterna. Estamos, afinal, em um país onde carregar chuteira na mochila ou guarda-chuva debaixo do braço é a senha para “morrer com um tiro na cabecinha”.

No filme, quando os invasores quebram a linha da barbárie, o que acontece não é a luta do bem contra o mal. O que acontece é a guerra. A capacidade de reação, até então ignorada pelos invasores, é parte da reivindicação de uma humanidade que não pede para sobreviver, mas se impõe para não ser destroçada.

A guerra é a prescrição desse pacto civilizatório, mas também um recurso de sobrevivência. Vide o Vietnã. Na Segunda Guerra, foi uma aliança militar que interrompeu a ascensão nazista. A vitória foi celebrada com duas bombas sobre o Japão.

“Bacurau” é, assim, um filme de guerra, no qual as referências pipocam como balas que ricocheteiam. É um ode ao cinema novo. Aos mártires da política contemporânea. Ao bando de lampião. Ao western americano – com o sinal invertido, mas é. Ao universo de Guimarães Rosa com um recado de fundo. “O senhor tolere, isto é o sertão”.

Mas é também um recado dos insurgentes: nós também sabemos usar a barbárie a nosso favor. O arsenal é a memória de quem fez da existência uma trincheira.

A pergunta, longe de ser respondida, é o que fazer, exatamente, quando essa barbárie já não figura só na linguagem. Como responder a ela se não com a guerra? O homem programado para matar do trailer acima talvez tenha a resposta.