Com ônibus desgovernado, Bolsonaro deixa novos aliados na estrada

O presidente Jair Bolsonaro durante a cerimônia de posse do novo procurador-geral da República, Augusto Aras (Adriano Machado/Reuters)


Se um estrangeiro desembarcasse no Brasil pelo aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), na última quinta-feira, dia 17, teria dúvida se havia chegado mesmo ao país descrito por Jair Bolsonaro em sua estreia na Assembleia Geral da ONU.

De cara, ele se questionaria onde estava a inteligência policial que não percebeu a ação de criminosos, no país que venceu a criminalidade e a corrupção, para levar praticamente um banco inteiro, à luz do dia, em um dos principais pontos de conexão da nação.

As notícias do dia, entre tiroteios reais e virtuais, ajudariam a entender o caos.

Antes de chegar ao fatídico e cabalístico 17 de outubro, é preciso voltar algumas casas.

Quase 15 meses antes, também numa quinta-feira, dia 19 de julho de 2018, o então candidato e franco-atirador Jair Bolsonaro desembarcava em Goiânia (GO) sob holofotes.

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A menos de três meses da eleição, ele ainda não havia conseguido fechar alianças políticas para sua candidatura. Faltava quase tudo, inclusive um vice para compor sua chapa no PSL, para o qual ele acabava de migrar.

Bolsonaro estava na capital de Goiás para participar do lançamento do programa PSL Mulher. (Meses depois, o partido seria envolvido num escândalo de candidatas-laranja para compor a cota feminina na disputa e drenar os recursos para o bolso dos dirigentes homens).

Estabanado, sem apoio, estrutura partidária, tempo de TV e sem um vice para chamar de seu, Bolsonaro subiu em um carro de som e declarou, enquanto era chamado de “mito” pelos apoiadores: “Não quero apoio para 2018, não. Eu quero apoio para 2022, porque 2018 já era”.

A perspectiva parecia plausível. A eleição de 2018 seria um balão de ensaio para o capitão deixar a disputa como líder da oposição, uma posição confortável para quem em 30 anos como deputado não tinha qualquer portifolio de serviços a apresentar, e chegar a 2022 com algum tipo de musculatura.

Até que veio Adélio Bispo.

Sobrevivente de um atentado a faca, Bolsonaro viu os 8 segundos da propaganda eleitoral se transformar numa cobertura 24 horas de seu estado de saúde em tempo real. Convalescente, não precisou sequer mostrar o despreparo nos debates da TV aberta, escapando de tomar lambadas ao vivo como a oferecida por Marina Silva (Rede) num encontro de candidatos na Rede TV!.

Bolsonaro, para quem 2018 já era, foi eleito naquele mesmo ano.

Foi como embarcar de sopetão em uma viagem planejada para dali alguns meses, deixando para trás documentos, utensílios de primeira necessidade, troca de roupas, etc.

Em 2019, não é que a roda precisou ser trocada com o ônibus, montado às pressas, já andando; é que o motorista resolveu deixar o volante para se estapear com os passageiros.

A onda de apoio após a facada fez o capitão furar o teto de 20% das intenções de voto apontado por todos os institutos de pesquisa. Quando a onda quebrou, veio a ressaca, e Bolsonaro havia eleito uma legião. (Já viu uma praia poluída após a ressaca? Pois então).

O nanico PSL, de repente, se tornou a segunda maior bancada da Câmara, com 53 deputados. Seus dirigentes estavam ricos. Só de fundo partidário, em 2019, havia R$ 110 milhões para torrar.

A sorte do milionário era também o azar, como o personagem de “Onde os fracos não têm vez”, dos irmãos Coen, que com o tesouro encontrou também a maldição.

Essa legião era composta por neófitos despreparados, bajuladores, líderes de torcida, tuiteiros oficiais e outras atrações exóticas que nunca fizeram nada na vida além de latir.

Eram espécies de cães que correram a vida toda atrás das rodas aceleradas e, quando finalmente o automóvel estaciona, não têm ideia do que fazer.

Joice Hasselmann, como jornalista, era uma grande gestora política de si. Mais conhecida por plagiar 60 reportagens dos colegas para subir na vida, sua contribuição para o jornalismo era próxima de zero, mas ela soube galgar cargos e posições de destaques para construir o próprio palanque.

Deposta da liderança do governo que abraçou sem pensar, caiu atirando, fingindo desdém, enquanto ia a público acusar ex-aliados de serem homossexuais enrustidos. Somou, assim, sua inteligência emocional à do presidente, que ela mesmo avalia como -20.

Delegado Waldir (PSL), outro apoiador notório, agora chama o presidente de vagabundo e promete implodir a nação.

Ambos se somam a desertores como Alexandre Frota, deputado hoje no PSDB, o ex-ministro-faz-tudo Gustavo Bebianno, o general Carlos Alberto Santos Cruz, e outra legião que ficou no caminho.

Dez meses bastaram para mostrar que nem Bolsonaro nem sua equipe montada de última hora tinha a menor ideia do que fazer como governo. As trapalhadas da bancada ao longo do mandato mostram isso, enquanto no governo o soluço mais próximo de uma ideia própria foi a de, na ausência de referências diplomáticas no ciclo de relacionamento, indicar o próprio filho para a embaixada dos EUA.

Quando do outro lado da vidraça, aliados, ex-aliados e neo-detratores de Bolsonaro estavam unidos com um “inimigo comum”. Bastava latir.

Governar são outros 500, por mais que a alguns ainda convença a história de que fantasmas vagam por aí oferecendo a foice, o martelo e novas identidades de gênero a nossas crianças e é preciso estar unido pela nação.

Brasil acima de tudo, lembra?

De duas, uma.

Ou Bolsonaro dobrou a aposta e quer transformar a República em uma dinastia, retirando a fórceps aliados que se projetam na frente dos filhos e fazendo da experiência como governo uma poupança com direito a herança, ou, percebendo que a geringonça composta por aliados de primeira viagem não levará a lugar algum, já projeta chegar, agora sim, a 2022, com os “profissionais” que sempre refutou. Profissionais, no caso, se resume a quem sabe ao menos ler o regimento.

O novo líder do governo na Câmara agora é do velho (e bom?) MDB. O do Senado, enroscado em investigações, também.

Em política a regra número 1 é que não existe assento vazio. O “centrão” sabe disso e pode sair da história mais governo do que nunca. Qual governo? Vai depender da queda-de-braço de Bolsonaro e os novos inimigos.