Bolsonaro levou à ONU um grande áudio de WhatsApp

O presidente Jair Bolsonaro durante discurso na Assembleia Geral da ONU (Lucas Jackson/Reuters)


Sabe aquele áudio de WhatsApp que algum parente ou vizinho te repassou (“COM URGÊNCIA!!!”) sobre o desafio dos carros na contramão da BR-101, o ataque em massa do PCC em São Paulo, a loira do banheiro, os diamantes gigantes extraídos da Amazônia e as cartilhas de prefeituras orientando crianças a se masturbarem nas escolas para se acalmar?

O tom, a estética e a paranoia dos alertas que correm dia sim, outro também, nos grupos das melhores famílias marcaram o discurso de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira, 24.

Como quem repassa o áudio no zap, ele afirmou aos líderes globais que seu país esteve muito próximo do socialismo nos últimos anos e, graças a Deus e ao patriota Sergio Moro, seu ministro da Justiça, agora está salvo.

Citou parcerias com o regime cubano em programas como o Mais Médicos para dizer que o Brasil deu apoio a ditaduras na América Latina, como a da Venezuela, por meio de organizações criminosas como o Foro São Paulo, um de espantalho que, até outro dia, só tinha importância na cabeça de Olavo de Carvalho e seus seguidores.

Agora é alerta na ONU, com todos os pontos de exclamações possíveis de quem se autoconcedeu a missão de restabelecer parcerias com países onde o Brasil jamais cortou relações, entre eles os EUA.

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Na versão oficial de Bolsonaro, só agora o Brasil está abrindo a sua economia (saldo da balança comercial só em 2018: US$ 58,3 bilhões). Não tinha feito isso até janeiro deste ano porque os governos anteriores, moralmente inferiores, estavam preocupados em promover a irresponsabilidade fiscal e a aparelhagem do Estado para espalhar a corrupção generalizada.

Eram tempos, imagina-se, em que ninguém precisava ter relação de consanguinidade com o chefe do Executivo para ser indicado a embaixadas estratégicas como a de Washington, nos EUA.

Lembrado na fala, o único intervalo desse passado tenebroso foi quando os militares expulsaram os riscos de o Brasil virar uma ditadura ao estilo castrista instalando um tipo de regime libertário que perseguiu opositores e impediu que se elegessem presidentes por 21 anos.

Para mostrar a disposição de sua grande abertura, Bolsonaro citou a conclusão de acordos comerciais, como o Mercosul-União Europeia, que correm o risco de miar em razão do de questões ambientais.

Com uma lupa gigante sobre si após a crise das queimadas, em agosto, Bolsonaro lembrou que a Amazônia possui um território maior que o da Europa ocidental, o que provaria o compromisso do país com a proteção ambiental. Atribuiu as queimadas ao vento, aos índios, e às populações locais que buscam sobreviver, e chamou de “ataques sensacionalistas” o noticiário da imprensa internacional.

O episódio, segundo o presidente, despertou o “sentimento patriótico” no país, em reação ao espírito colonialista que atacou parte da mídia e de países que “questionaram a nossa soberania”. Era uma mensagem nem tão cifrada ao presidente Emmanuel Macron, da França.

Mas, diferentemente da Venezuela e de Cuba, a sexta maior economia do Planeta não foi nominalmente mencionada – a não ser quando comparou a capacidade de produção de alimentos e preservação ambiental dos dois países.

Bolsonaro, que na véspera do discurso desfilou com um colar indígena, tentou sair em defesa dos povos nativos dizendo que eles são “seres humanos como qualquer um de nós e merecem usufruir dos mesmos direitos”. Bom, quem até outro dia chamava as aldeias de zoológico era o próprio presidente.

O capitão usou a tribuna para atacar o líder caiapó Raoni, que participa de eventos paralelos à Assembleia da ONU em Nova York e pode ser indicado ao Nobel da Paz neste ano. Disse que o conterrâneo serve de “manobra de governos estrangeiros que querem avançar seus interesses na Amazônia”.

Ah, sim: de acordo com o áudio de WhatsApp, digo, do discurso na ONU, as ONGs querem transformam os índios em homens das cavernas.

Para Bolsonaro, os índios são pobres em cima de terra rica, como a Raposa Serra do Sol, abundante em ouro, diamante, urânio e, claro, nióbio. E precisam se desenvolver sem “amarras ideológicas”, seja lá o que isso significa.

Ele defendeu a superação da política indigenista e ambientalista “ultrapassada”, dizendo que seu governo instituiu a política de tolerância zero contra a criminalidade, inclusive a ambiental.

Contou que, no “novo Brasil”, terroristas e corruptos não encontram mais refúgio, citando a extradição do italiano Cesare Battisti, e acusando os antecessores socialistas de desviarem “centenas de bilhões de dólares comprando a mídia e Parlamento” e enviando recursos para o exterior. (Nesse país a mesma mídia revelou escândalos de seus adversários, como o “mensalão”, e os bancos privados lucraram bilhões ano após ano).

“A fonte secou”, informou o presidente.

A camisa alvejada da menina Ágatha Felix, assassinada aos oito anos em uma ação policial no Rio, ainda tremulava quando Bolsonaro citou a redução do índice de homicídios no país, que já vinha ocorrendo desde o ano passado em razão de uma série de medidas e articulações com governos estatuais, e jurou que o Brasil está hoje mais seguro e hospitaleiro.

A certa altura, ele convidou o mundo a conhecer a “vassidão” da Amazônia que “não está devastada pelo fogo como diz mentirosamente a mídia” – e a NASA, e o diretor do instituto de pesquisas espaciais demitido por divulgar os índices oficiais.

Ele prometeu combater incansavelmente a perseguição religiosa, um problema quase irrisório em um dos países com maior sincretismo religioso do planeta.

Graças a ele, porém, o Brasil está se reerguendo e deixando de se seduzir por ideologias que buscavam o poder absoluto e se infiltravam na cultural, na educação, na mídia e nos lares para destruir as famílias, a inocência das crianças e as identidades biológicas.

Teve tempo ainda para atacar o “politicamente correto”, que expulsa a racionalidade do debate e a substitui por clichês e palavras de ordem.

Ele atribuiu a um milagre de Deus ter sido salvo após ser esfaqueado por um “militante de esquerda” que a própria Polícia Federal atestou ter problemas mentais.

Encerrou a fala citando, como fez diversas vezes em campanha, citando o versículo bíblico “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, e conclamou a ONU a resguardar as soberanias das nações, não o interesse global.

Encerrou a fala agradecendo dando graças e glórias a Deus.

Como lembrou um amigo, a paranoia, a arrogância e a autoproclamada missão divina atingiram um nível Ahmadinejad de vexame, em referência ao ex-líder fundamentalista islâmico que também falava em complô da mídia com os interesses colonialistas sobre seu país.

Se algum estrangeiro se perguntava, até então, se era verdade aquele “bilhete” sobre a paranoia reinante no Brasil, há agora um discurso na íntegra, em formato de áudio de WhatsApp, para atestar. Passamos vergonha, mas pelo menos estamos livres do Foro São Paulo e do socialismo.