Guilherme Boulos questiona Ciro, critica esquerda "barata tonta" e aposta na rua para erguer muro "anti-Bolsonaro"

O ex-candidato a presidente Guilherme Boulos durante a entrevista (Reprodução/Yahoo Brasil)

A estratégia de Jair Bolsonaro é de guerra. Conhecida como “tática da saturação”, promove ataques em diversos francos justamente para desbaratar a capacidade de reação do inimigo. O inimigo, no caso, é a sociedade brasileira.

A análise foi feita pelo ex-candidato a presidente pelo PSOL em 2018, Guilherme Boulos, durante o programa “Vozes da Nova Política”, do Yahoo Notícias.

A estratégia é definida sem muito rodeio. “De manhã ele xinga a Brigitte Macron; antes do almoço ele indica o filho para a embaixada; no almoço ele diz que garimpeiro pode invadir área indígena e no fim da tarde diz que é pra cagar dia sim, dia não”.

Segundo o coordenador da Frente Povo Sem Medo, a esquerda está como “barata tonta” enquanto Bolsonaro, quebrando a tradição dos antecessores, que buscavam formar maioria pelo consenso, tensiona a relação com as instituições “incitando a minoria dele”.

Para Boulos, apenas a mobilização popular de rua é capaz de expressar uma oposição de fato a um presidente que, diante da mais lenta recuperação econômica da história, prioriza “briguinha da quinta série A contra a quinta B”.

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“Outro dia li uma entrevista com o governador da Bahia (Rui Costa) que me arrepiou. Ele dizia que a oposição tinha de colaborar com o governo, e não só negar. Colaborar com um sociopata? Ele que colabore, eu não. Eu colaboro com um projeto humanista”.

Parte da apatia, afirmou Boulos, se deve à velocidade com que Bolsonaro se movimenta e também porque a sociedade civil está intimidada com episódios como ameaça de prisão de jornalistas, promessas de “varrer os vermelhos do país” e a criminalização de movimentos sociais, citando militantes de moradia presos “por atacado” em meio a um contexto de perseguição.

Ele cobrou uma oposição combativa, que não abaixa a cabeça diante das ameaças contra valores civilizatórios conquistados e criticou setores da oposição considerados dóceis e pautados por “hashtag na internet” ou “colóquios fechados”. O projeto de destruição, afirmou, pode dar certo se não houver uma muralha entre desejo e ato dos governantes.

“Democracia não é só eleger candidatos a cada quatro anos. É lutar pelo respeito a liberdades. E Bolsonaro não cultiva essa liberdade. Quando ele diz que o garimpo tem que entrar em terra indígena, soa como autorização. Um salvo-conduto”.

Ele falou ainda sobre o uso de “fake news” por parte de apoiadores do presidente, e disse já ter sido vítima de diversas noticias falsas. Rindo, ele contou que recebeu, certa vez, uma ligação de sua mãe, preocupada com uma “notícia” de que havia sido preso.

Ao fim da entrevista, o ex-candidato disse não ver nexo nas críticas de parte da oposição que se vê refém da liderança do ex-presidente Lula, preso há mais de um ano em Curitiba.

Liderança, afirmou Boulos, não se pede licença. E Lula é ainda a figura política mais importante do país.

A conversa, fora dos microfones, seguia o que o coordenador nacional do MTST falava, pouco antes, sobre o racha no campo progressista. Boulos se disse preocupado com a postura do também ex-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT), que, segundo ele, tem sido pautado pelo “ranço”.

“A oposição precisa ter maturidade de entender que o que nos une é maior do que nos separa. Não sei o que o Ciro deseja. Antecipar calendário de 22?. Se alguém agora guia seus passos pensando na eleição não entendeu nada. Está em jogo um projeto de destruição nacional. Em 22 que Brasil vai ter pra governar?”, pergunta.

O alerta para os efeitos devastadores do governo Bolsonaro contrasta com a aposta, lançada na mesma entrevista, de que o bolsonarismo é um leão que chega sem dentes à próxima eleição. Esse leão, afirmou Boulos, passará antes pelas eleições municipais do ano que vem, que deve servir como uma espécie de “plebiscito” sobre a moral do presidente.

Para ele, 2018 foi marcado por uma onda de desesperança, medo e negação da política, que criou o caldo para falsos salvadores da pátria. Essa onda, afirma, não tem mais a mesma força. “Boa parte dos eleitores do Bolsonaro é melhor que ele”, acenou.

Na entrevista, Boulos disse estar disposto a percorrer o país para “chacoalhar” as ruas e fortalecer uma oposição que vai ao embate. Esse projeto, diz, não entra no calendário eleitoral de 2020. Entrará em 2022?