Para Manuela D'Ávila, morte de crianças no Rio é nova etapa do capitalismo mundial: o extermínio

Candidata à vice-presidência em 2018 pelo PC do B na chapa de Fernando Haddad (PT), Manuela d’Ávila foi a convidada do Vozes da Nova Política (Reprodução/Yahoo Brasil)


Manuela D’Ávila, ex-deputada federal pelo PC do B e candidata a vice na chapa de Fernando Haddad (PT) em 2018, vê a morte de Ágatha Félix, menina de 8 anos atingida por uma bala no Complexo do Alemão no último fim de semana, como parte de uma política de extermínio. Trata-se, segundo ela, de uma nova etapa do capitalismo mundial que consiste em eliminar parcelas da população mais pobre sem mediação.

Feita durante sua participação na série “Vozes da Nova Política”, do Yahoo Notícias, a declaração, que remete ao filme “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, acontece no mesmo dia em que o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), se manifestou, após 72 horas, sobre o crime. Witzel, que socou o ar em comemoração à morte do sequestrador de um ônibus por um sniper e dividiu o palanque com candidatos que rasgaram uma placa em homenagem a Marielle Franco em ato de campanha, se eximiu de culpa e classificou como “indecente” o uso do caixão de uma criança como palanque.

Para Manuela D’Ávila, é justamente as forças conservadoras, da qual Witzer grita por protagonismo, que se utilizam da política de morte como plataforma política. Citando um recurso de semiótica, ela diz assistir à criação do conceito uno de bandidagem para dar conta de um conjunto de problemas do Brasil, dos quais a corrupção e a ausência de segurança fazem parte.

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Esse conceito, afirma a ex-deputada gaúcha, permitiu o surgimento de falsos salvadores da pátria que têm como estratégia uma política de extermínio que tem como cerne a aniquilação da Declaração Universal de Direitos Humanos, documento que restou da humanidade após a barbárie do nazi-fascismo. Para ela, esse documento tem sido rasgado pelas forças políticas que chegaram ao poder em 2018.

Manuela D’Ávila admite que o campo progressista deixou de fazer um debate mais aprofundado sobre a violência quando esteve no poder. Faltou, afirma ela, uma discussão sobre a fragorosa derrota da guerra às drogas em um país de dimensões continentais e fronteiras com territórios produtores de droga. A guiar este debate faltou o exemplo de experiência de descriminalização anterior em países similares.

Na entrevista, ela lembrou que o uso abusivo de substâncias hoje proibidas não mata tanto quanto o confronto pela coibição da sua distribuição.

Parte da derrota na disputa pelo campo da segurança se dá, segundo ela, em razão do baixo investimento na capacitação das forças policiais e em inteligência para crimes nacionalizados. Exemplo desse atraso está em projetos do próprio Estatuto de Desarmamento que não saíram do papel, como um banco de DNA, além do alto índice de detentos sem julgamento nas penitenciárias do país.

Esse vazio possibilitou o surgimento de uma política do extermínio que tem como cerne a destruição do conceito de dignidade humana – um conceito, segundo ela, alvo de muita confusão no debate público. “Essa confusão não surge do nada”, diz.

Parte dessa estratégia, segundo a ex-deputada, é transformar uns em inimigos do outros: de um lado, a menina Ágatha no colo da mãe, de outro um trabalhador policial orientado a acreditar que nas comunidades são todos bandidos. “São trabalhadores contra trabalhadores”, diz.

Manuela chegou a se emocionar, em alguns momentos da entrevista, ao falar que é preciso olhar para crianças como Ágatha como se fossem suas filhas – ela é mãe de uma garota de quatro anos – e que é comum sentir culpa por ter acesso a direitos básicos que, no Brasil, são privilégio de poucos.

O que impede esse olhar de parte da população, segundo ela, é o racismo “que sempre encontra eco para legitimar o extermínio”. Antes se falava do extermínio da juventude negra; lembrou. Agora fala-se de “crianças negras”. “Está ficando cada vez mais cruel.”

Desde o início do ano, outras cinco mortes de crianças são investigadas pela Polícia Civil do Rio, mas só um dos casos teve o inquérito enviado ao Ministério Público – o relacionado a um rapaz de 12 anos, morto no início de setembro.

Manuela afirma, porém, acreditar na disputa pela consciência das pessoas. Diz duvidar que mais de 50 milhões de pessoas apoiem a tortura no Brasil, em referência aos votos recebidos por Jair Bolsonaro (PSL) em 2018, chamado por ela de “amante do (torturador Carlos Brilhante) Ustra”.

Em meio a trocas de farpas entre lideranças de esquerda, e do afastamento aparentemente em volta de lideranças como Ciro Gomes (PDT) do PT, Manuela afirmou, sem citar nomes, que o segundo turno conferiu unidade aos opositores do bolsonarismo, que não representa um pensamento liberal de direita, “mas o que há de mais atrasado no mundo”.

Ao falar dos erros dos governos anteriores, dos quais seu partido fez parte desde o início, Manuela citou de passagem o mantra da reforma política e da reforma da mídia, sem muitos detalhes de como essas mudanças poderiam conter o desgaste da chamada política tradicional e a onda de fake news – uma rede que ela mesmo se viu vítima em diversas ocasiões.

“Os erros decorrem de problemas nossos e da conjuntura. A crise a partir de 2008 limitou as ações no país”, avalia.

Espécie de pivô da Vaza Jato, ao fazer a ponte entre o site The Intercept Brasil e um hacker que invadiu dados de procuradores, juízes e outras autoridades e a procurou, Manuela se defende. Diz que não tinha cargo político na época, indicou um jornalista especializado em investigações para checar a história e que desde o início colocou seus aparelhos à disposição das autoridades.

Ela diz desconhecer o que ainda está por vir do material obtido pelos jornalistas e, quase quatro meses após o primeiro contato, em maio deste ano, ironiza o fato de Sergio Moro, o ministro ainda mais popular de Bolsonaro, conforme mostram as pesquisas de opinião, ser tratado como uma espécie de reserva moral do governo – a ponto de seu chefe trata-lo como “patrimônio nacional” no auge das revelações. “Se depois de tudo isso ele ainda for guarida moral é porque esse é um governo sem moral nenhuma”, diz.