Marina Helou e os desafios da sustentabilidade em um país em chamas

Matheus Pichonelli
A deputada estadual Marina Helou (Rede-SP). Foto: Reprodução
A deputada estadual Marina Helou (Rede-SP). Foto: Reprodução

No dia em que Marina Helou, deputada estadual da Rede Sustentabilidade em São Paulo, participou da série de entrevistas “Vozes da Nova Política”, o Sistema das Nações Unidas no Brasil pedia que as autoridades nacionais intensificassem os esforços para conter as chamas que consomem partes da floresta amazônica e outros biomas do norte e centro-oeste do Brasil. Na mesma tarde, pesquisadores da Nasa endossaram os “sinais de que o desmatamento está aumentando” na região, o presidente da França, Emmanuel Macron, cobrou ação urgente a ser discutida no G7, o grupo dos países mais ricos do planeta, e até a Madonna pediu ao presidente “Borsalino” mudanças em suas políticas sobre o meio ambiente.

Como na música de Caetano Veloso, o mundo explodia longe, mas as migalhas caíam todas sobre o debate em um estúdio de uma avenida comercial de São Paulo, terra onde os bandeirantes já tratoraram o que poderiam dos biomas nativos. Nada mais simbólico do efeito borboleta de um mundo cada vez mais estreito, e conectado, do que a fumaça escura que tampou os céus no Sudeste três dias antes.

Naquela quinta-feira, 22 de agosto, a Rede Sustentabilidade entrava com uma ação de pedido de impeachment do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, enquanto o governo federal, que nega o aquecimento global e as evidências científicas, preferia atribuir a pressão internacional à má-fé da imprensa que estimularia com uma “cortina de fumaça” uma suposta histeria em torno do assunto.

O mundo todo olhava, preocupado, para o Brasil, e parte do impasse estava, de alguma forma, metaforizado na fala da deputada ao Yahoo Notícias. Na esteira do desejo de transformações em torno de uma “nova política” que marcou as eleições de 2018, Marina Helou foi a única deputada eleita pela Rede, um partido fundado na ideia de sustentabilidade, na Assembleia Legislativa do maior estado do país.

A bancada de uma mulher só indica o quanto a noção de representatividade é ainda escassa no país onde ela diz ouvir, com frequência, que não tem “cara” de deputada. Estamos, afinal, em um país onde política é ainda substantivo masculino. Masculino com cabelo branco.

Isso se reflete quando ela ouve de um colega que foi eleita, por outros deputados, como a parlamentar mais bonita da Casa - e precisa explicar que isso não é elogio.

Marina Helou, de 31 anos, decidiu entrar para a política após uma viagem, ainda nos tempos de faculdade, para a Amazônia, onde viu, e previu, uma série de conflitos que explodiriam em breve na região das barragens das hidrelétricas no Pará e em Rondônia.

As imagens do desastre ambiental que correram o mundo são resultado, segundo ela, de uma visão de produção de riqueza incompatível com o mundo contemporâneo. Uma visão extrativista que produziu mais destruição do que riqueza no século passado.

Em São Paulo, seu estado, ela aponta uma série de desafios relacionados ao meio ambiente, da manutenção da área remanescente de mata atlântica à ocupação de áreas de proteção ambiental.

A comoção mundial com um país, literalmente, em chamas (um país que aboliu suas metáforas desde o mar de lama de Mariana), deu visibilidade para a pauta defendida pela deputada.

Mas o que é possível fazer?

Em seu relato, Marina Helou aponta as dificuldades para fazer a lição de casa a partir de seu gabinete, onde pensou em alterar as estruturas para desenhar um modelo de gestão horizontal, mas esbarrou nas determinações da Casa. Uma das saídas foi montar uma brinquedoteca no local, para atender grupos que se sentiam barrados à entrada da Assembleia que ainda não estendeu as noções de inclusão e diversidade em seu quintal.

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O próprio orçamento do mandato é engessado, prevendo um gasto, segundo ela absurdo, em gasolina. Justo ela, que no início do mandato sugeria a construção de vestiários na Casa para quem fosse ao local de bicicleta.

Ainda assim, ela vê avanços, como a participação, cada vez maior, nas comissões temáticas da Alesp. E os protestos que prometem mobiliar um país em torno da causa ambiental.

São pequenas atitudes que no Brasil de 2019 encontram agora uma bifurcação, de onde podem se agigantar e consolidar uma grande mudança de fato ou se alastrar até serem carbonizadas pelas chamas produzidas em um surto de estupidez.