Representada por uma mulher negra, Bancada Ativista tem no preconceito a maior das barreiras

A deputada da Bancada Ativista da Alesp, Mônica Seixas (Reprodução/Yahoo Notícias)



Mônica Seixas é a porta-voz da bancada ativista, iniciativa que se classifica como “pluripartidária, independente e voluntária que tem como objetivo eleger ativistas para o poder legislativo em São Paulo, através de campanhas inovadoras e pedagógicas, com foco em diversidade e coletividade”.

Em 2018, ela encabeçou a chapa do movimento. Concorreu a deputada estadual pelo PSOL e recebeu quase 150 mil votos.

Recebeu, não: receberam. Com ela foram “eleitos” nove ativistas de pautas diversas: Anne Rammi, Chirley Pankará, Claudia Visoni, Erika Hilton, Fernando Ferrari, Jesus dos Santos, Mônica Seixas, Paula Aparecida e Raquel Marques.

Dez meses depois, o racismo relatado por ela em entrevista ao programa Vozes da Nova Política, do Yahoo Notícias, é a barreira mais alarmante, e criminosa, do ambiente encontrado na Assembleia paulista.

Existem outras, como a dificuldade de se fazer ouvir, que a leva a “terceirizar” pedidos de encaminhamento a colegas homens do partido, e a própria viabilidade da iniciativa nos primeiros dez meses.

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Do grupo original, uma das militantes, Anne Rammi, dedicada à causa da maternidade, precisou deixar a iniciativa para cuidar de assuntos pessoais.

A deputada relata dificuldade em transformar as discussões realizadas dentro do mandato em projetos aprovados na Casa. Ela relata que todas as iniciativas são bloqueadas em um ambiente ainda notadamente masculino e conservador.

Um choque de realidade e tanto para quem compreendeu que novidade, na política, não se resume apenas à abertura a jovens lideranças, mas sim colocar no centro das decisões as vozes que historicamente não ocupam espaços de representação na política.

Essa é a diferença entre movimentos como o da bancada ativista e os de renovação, como o RenovaBR, do qual faz parte nomes como o deputado federal pelo Espírito Santo Felipe Rigoni, também entrevistado no programa. (Recentemente, ele pediu desfiliação do PSB, pelo qual foi eleito, deixando ainda mais visíveis as tensões entre os movimentos de renovação e a estrutura dos partidos políticos no Brasil).

Segundo Mônica da Bancada Ativista, o movimento que a elegeu é formado por lideranças que já têm atuação política no “asfalto” e não precisaram passar por um curso de formação para se tornar lideranças.

O nó é que, no sistema de voto proporcional brasileiro, as nove vozes se convertem em, no máximo, um voto, enquanto partidos tradicionais formam bancadas (e consensos, consequentemente) com estratégias como a filiação de puxadores de voto com grande exposição e pouca vivência política, como radialistas, apresentadores de TV e artistas populares. Tiririca e Celso Russomano são exemplos de quem ajudou a eleger como deputados candidatos que, pelo desempenho eleitoral, não teria conseguido a vaga. (O total de cadeiras é distribuído pelo total de votos de cada partido).

Outra dificuldade enfrentada pela deputada se refere a provocações de colegas como Gil Diniz (PSL), que usam a tribuna para chamar de “vagabundos” militantes de direitos humanos, como ela. Conhecido como Carteiro Reaça, o colega hoje é acusado de praticar “rachadinha” em seu gabinete, ficando com parte do salário de funcionários-fantasma.

O contrassenso é que, na versão oficial dos discursos populistas, são os movimentos de direitos humanos que ficaram com a fama de “defensores de bandidos”.

Jornalista de formação, a deputada atribui a um “terrorismo eleitoral” a vitória nas urnas do discurso bolsonarista com promessa de enfrentamento e recrudescimento do combate à criminalidade. O discurso, segundo ela, esconde a ausência de um projeto de fato para a segurança pública, como o suporte a policiais (e seus familiares) vítimas de violência e transtornos psicológicos.

Esse trabalho de acolhimento era feito por Marielle Franco, vereadora do PSOL, no Rio de Janeiro, antes de ser assassinada a tiros em uma via pública da capital fluminense.

Mais de um ano depois, muitos são os desafios citados pela deputada da bancada ativista para afirmar a nova política através de nomes que sempre foram descartados do jogo político.

Medo não era um deles.