Bolsonaro escolhe a sua "rainha"

Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro para chefiar a Procuradoria Geral da República. Foto: Roberto Jayme/Ascom/TSE


Texto atualizado às 12h06

O subprocurador Antônio Augusto Brandão de Aras, de 60 anos, gabaritou a prova aplicada por Jair Bolsonaro. O teste foi mais ou menos assim:

- O protecionismo ambiental é um entrave para o desenvolvimento econômico?

( ) sim

( ) muito

( ) com certeza

- O STF deveria criminalizar a homofobia?

( ) não

( ) jamais

( ) tá de brincadeira, pô!

- O que constitui uma família?

( ) homem e mulher

( ) homem e mulher

( ) homem e mulher

- A ideologia de gênero é “inaceitável”?

( ) muito

( ) completamente

( ) mais que tudo

Pronto. Graças a declarações recentes, que demonstravam alinhamento ideológico com o presidente da República, foi escolhido o novo Procurador Geral da República, a “rainha” do tabuleiro de Jair Bolsonaro.

Nesse tabuleiro, conforme explicou o capitão, os peões seriam os ministros, Sergio Moro, da Justiça, seria uma torre e Paulo Guedes, um cavalo. “A dama é a PGR. Tá legal?”, explicou Bolsonaro, em referência à peça, também conhecida como “rainha”, considerada a mais poderosa do tabuleiro - mais, claro, que a torre, sequer consultada no processo seletivo.

Só ela pode se movimentar para todos os lados - inclusive o ataque. É ela quem protege o rei. Se ele for engolido, acaba o jogo.

Caso seu nome seja aprovado pelo Senado, Aras será o primeiro chefe a comandar a PGR sem ter integrado a lista tríplice dos candidatos mais votados em eleição interna pelo Ministério Público Federal desde 2003.

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Nascido em Salvador (BA), Aras não era o nome mais palatável para parte dos aliados e simpatizantes de Bolsonaro, em razão de sua ligação com a esquerda no passado. Nas redes sociais, circulava no trending topics um vídeo em que ele citava o guerrilheiro Che Guevara como alguém que “ousou sonhar”.

Além disso, suas posições no combate à corrupção não são consideradas tão enfáticas. Há quem diga que, entre os postulantes ao cargo, ele representava uma espécie de opção anti-Lava Jato. Em entrevista recente, Aras disse que existem “pequenos desvios” da força-tarefa a serem corrigidos e prometeu discutir um manual de boas práticas para os investigadores. A “espetacularização” da Lava Jato, avalia ele, empurrou a economia brasileira para a crise.

Segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, a indicação de Aras para a PGR foi recebida com certo alivio no Supremo e no Congresso. Outros nomes, de acordo com ela, eram considerados “um desastre”.

Pesou, a favor de Aras, as declarações feitas no início do ano, quando assumiu que “corria por fora” da lista tríplice.

Em abril, ele declarou à Folha: “Não podemos ignorar que proteção das minorias, inclusive indígenas, passa por interesses econômicos relevantes, internos e externos. Não podemos ignorar que nossas reservas indígenas têm minerais estratégicos. Não podemos ignorar que, na década de 90, países poderosos se reuniram para estabelecer princípios de intervenção em regiões do planeta”.

Parece música para os ouvidos de Bolsonaro. E é.

Ao longo do dia, leitores atentos da cena política lembravam que, ao longo da ditadura, e até a Constituição de 1988, a Procuradoria Geral da República funcionava em uma sala da própria Presidência. Em 2001 foi criada a lista tríplice para evitar que os presidentes escolhessem, em vez de um investigador-mor de seus atos, um “engavetador-geral da República”.

Em 2006, vale lembrar, coube ao então procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, apresentar ao STF uma denúncia contra 40 pessoas envolvidas no mensalão, entre elas o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Em 2017, Michel Temer se tornou o primeiro presidente em exercício a responder por crime de corrupção após ser denunciado por Rodrigo Janot no caso JBS. O Congresso barrou a investigação na época.

Em nota, a Associação Nacional dos Procuradores da República afirmou ter recebido “com absoluta contrariedade” a indicação. “A ação que interrompe um costume constitucional de quase duas décadas, de respeito à lista tríplice, seguido pelos outros 29 Ministérios Públicos do país. A escolha significa, para o Ministério Público Federal, um retrocesso institucional e democrático”.

O mandato da atual procuradora-geral da República, Raquel Dodge, termina em 17 de setembro.