De onde surgirá o "Coringa"?

Cena do filme "Coringa". Foto: Reprodução


Fui assistir ao “Coringa”, de Todd Phillips, sob o impacto da onda de revolta que tomou os países da América do Sul, Hong Kong e o Oriente Médio, onde o signo do personagem aparecia aqui e ali como uma reverência entre outros símbolos do cinema, como a máscara de “V de Vingança”.

Em tempo de distopia futurista, vigilância e máquinas de reconhecimento facial, faz sentido que as máscaras tenham conferido uma identidade a protestos tão díspares.

Difícil era não associar a ficção a alguma profecia que descamba para o mundo real. Afinal, o filme tem como pretensão falar de algo que já eclodiu ou que está prestes a eclodir?

Tudo depende de onde se olha.

Nos EUA, onde o filme foi pensado, Phillips parece compor uma era pós-Trump, mesmo que o presidente americano tenha surgido, em 2016, como uma piada que não deveria ser levada a sério.

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É fato que Donald Trump exerce fascínio em uma parcela do eleitorado que nos últimos anos se viu destroçado pelo que se convencionou chamar de “sistema” - uma palavra presente no filme - e associou a ascensão daquela piada a uma oportunidade de disrupção.

O grau de identificação se resumia a um enquadramento estético: o ex-apresentador de TV era boquirroto, mal diagramado, mal educado, pouco inteligente e politicamente incorreto, como o jovem branco ressentido que não obteve prestígio como atleta, profissional, amante ou qualquer outro talento.

Esse sujeito atribui seu insucesso a uma espécie de boicote protagonizado por mulheres, gays e imigrantes que passaram a ocupar espaço e visibilidade em uma sociedade que transformou a diversidade em um valor que supostamente o ameaça.

A identificação acaba aí: Trump não é o Coringa, e sim o herdeiro milionário de um império. Desde cedo ele se promoveu chamando os grupos mais pobres de marginais (quem assistiu à série “Olhos que condenam”, da Netflix, vai se lembrar da campanha financiada pelo então empresário em favor da diminuição da maioridade penal na onda da comoção dos jovens negros injustamente acusados de um estupro no Central Park).

Trump, em outras palavras, é o milionário populista e oportunista que elegeu as minorias inimigas para converter os EUA em um país que se volta para dentro enquanto desossa o que sobrou de um pacto social que lança à beira da pobreza a classe média desatendida de serviços básicos e à miséria a população já marginalizada.

Em sua trajetória política, a revolta é antes instrumentalizada do que atendida. Ele é a figura errática que vence a corrida prometendo menos direitos a quem já está afogado.

Arthur Fleck é antes o bagaço dessa demagogia política.

Deprimido, diagnosticado, subempregado, empobrecido e desprestigiado ao assumir o papel que ninguém quer assumir (o de cuidador da mãe também abandonada, pelo Estado e pelo antigo patrão), ele sofre antes de tudo de um déficit de reconhecimento que sonha em reverter em um programa de TV.

Lá, sim, ele será ouvido. Lá, sim, terá o trabalho e a missão (cuidar e fazer sorrir) aplaudidos. Lá, sim, estará protegido dos escarros diários recebidos no metrô, no trabalho e na rua por fazer parte de um contingente que não venceu na vida.

O estado de abandono da cidade é só a face mais visível desse abandono. É por lá que ele circula.

A espera por dias melhores serve como sonífero até o destino ser entortado por duas pauladas.

A primeira, quando é roubado por jovens de feição latina e é convencido por um amigo do trabalho a se armar.

A segunda, quando sua psicóloga anuncia que o Estado cortou o serviço de atendimento social gratuito, e não há mais subsídios para os remédios que já não pode comprar.

A partir dali, Fleck adentra em uma espiral que, diante de uma esquizofrenia paranoide negligenciada, pode transformar qualquer ato e ação em um grande delírio.

Detalhe: Fleck esbarra o tempo todo pelo desprezo de outros personagens, inclusive minorias (os latinos que roubam sua placa e o espancam; a vizinha negra que o ignora; a mãe negra que lhe repreende quando brinca com uma criança), mas esse desprezo não se converte em discurso supremacista.

A raiva daquela cidade é direcionada aos vencedores da história.

Trump está, assim, mais para os Wayne do que para Coringa. É contra ele que a população se revolta ao ser boicotada dos circuitos de consagração.

Fleck só deixa de apanhar quieto quando ele, armado, reage a uma tentativa de espancamento promovida por um grupo de executivos no metrô.

O crime é interpretado como uma declaração de guerra ao 1% mais rico de uma sociedade já conflagrada pela desigualdade.

Em outras palavras, Fleck só deixa de ser uma piada de mal gosto de quem ninguém se importa quando reage violentamente. Essa violência dá a ele um status até então negado: ele passa a ser visto, reconhecido e, no limite, aplaudido.

Torna-se, assim, a figura errática que gera identificação quando radicaliza e indiferença quando elabora o seu sofrimento (óbvio, pois ninguém quer assumir que tem parte neste sofrimento).

Embora se passe nos anos 1970, a transição para o mundo atual, onde carros são virados do avesso e as autoridades são contestadas entre destroços e incêndios, fica clara quando um vídeo do pretendente a comediante viraliza em um tempo sem smartphone.

Lá, como cá, tudo passa a ser definido pela imagem, como se o personagem reivindicasse seu protagonismo em um storie de rede social, onde é o bizarro, e não o belo, que larga na frente pela economia da atenção, e a fantasia se torna a constituição estética de um desalinhamento entre o deboche e a explosão.

Esse personagem é exposto à vaia e à censura quando mostra seu lado real: depressivo, carente de cuidados, assustado com a hostilidade do mundo onde circula, inclusive o ídolo da TV que o expõe ao ridículo. Ninguém dá atenção a ele quando ele denuncia essa violência, e sim quando ele passa a ser seu agente executor.

Em outra chave de interpretação, é possível dizer que ele se torna um “mito” ao flertar com a escatologia e o fascínio da disrupção, como se fizesse a ponte entre uma população cansada de ser apunhalada pelos homens bem-alinhados e o lobo de maus modos que ao menos é sincero em dizer: vou devorar vocês.

Para quem se pergunta se, por aqui, somos capazes de eleger um Coringa que de piada e fracasso em tudo o que tentou fazer na vida se tornou plataforma política viável em meio ao caos, é preciso lembrar alguns aspectos do contexto local, marcado pela ascensão de um apelo à ordem misturado a um messianismo religioso em defesa do que há de mais conservador, e desigual, na sociedade brasileira.

A identificação com o delírio de quem, enxotado dos círculos de prestígio, acumulou apenas raiva e ressentimento e perdeu o pé da realidade, porém, é assustadora.

Num caldo de polarização, a raiva está ali, mas ela tem uma série de componentes, inclusive históricos, que impede seu revide em direção aos vencedores da história. Pelo contrário, a raiva do empreendedor que não virou o novo Bill Gates é direcionada aos direitos de quem não pode contratar em um esquema análogo ao da escravidão. É antes canalizada aos despossuídos do que aos grandes donos de terra.

Ao menos aqui, a disrupção não é a reivindicação de uma nova Bastilha, mas a permissão para fazer parte dela e guardar a escada. O resto é extermínio, e tudo o que se quer é direcionar as armas para baixo.

Entre tantos contextos, o Chile que se revoltou contra o ex-milionário que se tornou presidente e agora incendeia ruas e automóveis parece o resultado mais plausível das consequências do desmonte de serviços básicos que transformou cidadania em um pedágio o qual só alguns podem pagar.

É desse caldo que desumaniza e dilacera que surgem os coringas para quem a morte faz mais sentido que a vida que já perdeu.