Do mar de lama ao óleo no mar: as manchas de um país que não aprendeu a lição

Cenário lama, barro e destruição após o rompimento da barragem na região de Mariana, em 2015. (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

No próximo dia 5 de novembro completam-se quatro anos do rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, que deixou 19 mortos, envenenou o Rio Doce e produziu um mar de lama de 39 milhões de metros cúbicos que varreu centenas de casas em Bento Rodrigues, na região de Mariana, em Minas Gerais.

Em maio de 2016, um acordo firmado entre Samarco e seus acionistas da Vale e da BHP Billiton, o governo federal e os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo previa o pagamento de R$ 20 bilhões em indenizações às vítimas ao longo de 15 anos. Foram definidos 42 programas que englobam a reconstrução das comunidades, a garantia de educação e saúde aos atingidos e a recuperação ambiental, segundo uma reportagem de março da Agência Brasil. O acordo também estabeleceu a criação da Fundação Renova, responsável pela gestão dos programas com recursos das três mineradoras.

Calcula-se que a entidade já tenha repassado R$ 5,2 bilhões desde 2015, valor que pode chegar a R$ 8 bilhões neste ano.

Em maio deste ano, o Ministério Público do estado recebeu um dossiê de 400 páginas elaborado pela Escola de Arquitetura da UFMG com a proposta de tombar a região devastada.

A ideia é que a história da tragédia seja contada em um memorial como o do Holocausto, em Berlim, onde a memória serve de alerta para os vícios históricos de novas tragédias.

Desde que o mar de lama tomou forma naquele 5 de novembro, as condolências e o direito à memória foram atropelados por outras tragédias ambientais, como a de Brumadinho, também em Minas, em 2019, as queimadas na Amazônia e, agora, o derramamento de óleo na costa do Nordeste.


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Em Brumadinho, o número de mortos chegou a 249, e 21 pessoas seguem desaparecidas desde 25 de janeiro, quando uma barragem da Mina Córrego do Feijão arrebentou, atingindo trabalhadores e moradores que não dispunham de um plano de contingência em caso de tragédia; parte deles estava em um refeitório criminosamente instalado logo abaixo da parede de dejetos. O último corpo foi encontrado em 31 de agosto.

Em 2018, pouco antes da tragédia, o Brasil escolheu para presidente um candidato que durante a vida pública não demonstrou qualquer apreço pelo meio ambiente e os órgãos de fiscalização, vistos por ele como entraves ao desenvolvimento econômico.

O presidente sonha em ver as áreas de proteção transformadas em um imenso garimpo, e tem como referência a exploração de Serra Pelada, devastada até o limite no tempo em que, segundo ele, os garimpeiros eram “felizes” sob o governo Figueiredo.

No caso das queimadas na floresta, que fez o dia virar noite em algumas áreas do Sudeste, está ainda fresca na memória a demora do governo em admitir a gravidade do problema. As críticas internacionais ao incentivo, velado e nem tão velado, aos crimes ambientais se transformaram em um discurso sobre a soberania nacional , supostamente em perigo por quem tinha como interesse a exploração mineral, e não “a porra da árvore”.

No caso do óleo no Nordeste, assusta a velocidade com que os desejos avançam pela costa, em contraste com a sonolência das autoridades que esperaram 50 dias para agir. As manchas ameaçam santuários naturais, a atividade pesqueira e destinos turísticos.

Ninguém sabe mensurar as consequências da tragédia, mas ela já começa a ser contada em toneladas.

Enquanto procura culpados (a Venezuela, as ONGs, os povos indígenas?) com uma lente e com a outra tenta apagar os incêndios envolvendo os filhos dentro do próprio partido, Bolsonaro lava as mãos sujas de óleo e embarca para o Japão sem demonstrar grandes preocupações com a tragédia na área dos “paraíbas”, como ele se referiu aos governadores da região.

Sem a mesma letargia, o Ministério Público Federal em Pernambuco acionou a Justiça para que o Ibama e a União adotem medidas para contenção e recolhimento do óleo na zona costeira do estado.

A preocupação se deve ao alcance do óleo em ecossistemas sensíveis, como manguezais, áreas de estuário e recifes de corais, demonstrados no Atlas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo do Litoral de Pernambuco e o Mapeamento Ambiental para Resposta à Emergência no Mar (Marem).

Entre as áreas afetadas pelo material estão as areias de São José da Coroa Grande (PE) e a Praia dos Carneiros, em Tamandaré (PE). Recifes de corais, importante ecossistema em âmbitos regional e global, e considerado o mais diversificado habitat marinho do mundo, estão ameaçados.

Antes, o MPF já havia determinado a instauração de inquérito pela Polícia Federal para investigar o possível ato criminoso que gerou o acidente com o óleo e a atuação dos órgãos ambientais.

O MPF aponta ainda que a proteção dos ecossistemas sensíveis não está sendo realizada de forma adequada e que faltam equipamentos básicos para o enfrentamento do problema.

Em sua briga contra o suposto aparelhamento de órgãos colegiados no governo federal, Bolsonaro extinguiu, em abril, dois comitês responsáveis por lidar com casos de poluição das águas por óleo, conforme mostrou a Folha de S.Paulo em sua edição de sábado, dia 19.

Como consequência está a demora em anunciar planos de ação e mitigação de tragédias anunciadas ao qual um país inteiro, imerso na sonolência e nas brigas mais paroquiais, parece ocupado demais para esboçar qualquer reação.

O que aprendemos com o histórico de tragédias recentes? Nada.