Países vizinhos pegam fogo em onda de manifestações. E o Brasil?

Imagens dos protestos registrados em 24 de outubro, no Chile. (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)


No dia em que o Senado concluiu a votação da reforma da Previdência, a maior mobilização de rua observada no país foi a caminho do Maracanã, onde quase 70 mil pessoas testemunharam o atropelo do Flamengo sobre o Grêmio de Renato Gaúcho no segundo jogo das semifinais da Libertadores da América. Nem um mísero patinho amarelo foi inflado na frente da Fiesp em protesto contra o colapso ambiental, o derramamento de óleo nas praias do Nordeste ou as mudança nas regras de aposentaria que fará um país inteiro, ou quase isso, trabalhar cada vez mais por cada vez menos.

Enquanto isso, nos países vizinhos, quase todos eliminados da competição, o mundo pegava fogo. Literalmente.

No Chile, 18 pessoas haviam morrido nos protestos que levaram o presidente Senastián Piñera a apresentar uma série de medidas para acalmar os manifestantes, como uma mudança com reajuste no sistema de pensões e medidas para elevar o piso salarial.

Os protestos foram detonados em razão do aumento da passagem do metrô na capital, Santiago.

Antes, outro país vizinho, o Equador, entrou em convulsão contra o cancelamento de subsídios aos combustíveis e outros ajustes econômicos anunciados pelo presidente Lenín Moreno. No auge dos protestos, ele precisou mudar a capital do país de Quito para Guayaquil.

Leia também no blog

Por razões diversas houve mobilizações também no Peru e na Argentina, esta às portas da eleição que deve ejetar do poder o presidente Mauricio Macri.

E o Brasil?

Segundo o professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Clóvis Gruner, esta é a pergunta mais lida e ouvida nas redes sociais desde a explosão das manifestações de rua no Chile.

O Brasil, afirma o historiador, já pegou fogo em 2013. Também pegou fogo no Xingu naquele mesmo ano. E pegou fogo em 2014, às vésperas da Copa.

Em sua página no Facebook, Gruner lembrou que, no primeiro episódio, ainda no governo Dilma Rousseff, parte da esquerda acusou, e ainda acusa, as manifestações contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo de fascistas e de terem iniciado o golpe.

Nos protestos contra Belo Monte, a Força Nacional foi acionada para reprimir as manifestações de indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Tanto neste episódio quanto nos protestos contra os gastos e remoções de moradores para a realização do Mundial e da Olimpíada, “parte da esquerda permaneceu silente frente a violenta repressão do governo”.

A conclusão do historiador é que o Brasil já pegou fogo muitas vezes nos últimos anos. “E não deixa de ser irônico que os que hoje apontam o Chile como modelo e se perguntam ‘e o Brasil?’ sejam, em sua maioria, também os que ignoraram e desqualificaram o potencial dos nossos incêndios, preferindo justificar e legitimar, sob qualquer pretexto, a violência do Estado.”

Na última vez (grifo meu), caminhoneiros decidiram bloquear as vias arteriais do país e por pouco não provocaram uma grande crise de abastecimento. A tensão segue no ar.

Em 2018, parte das respostas políticas propostas ao longo da campanha surfou no rescaldo de um país que combateu seus incêndios com mais fogo. Além de pancadaria, as labaredas causaram racha, cansaço e a letargia de quem parece não ter mais disposição para ir às ruas a não ser em dia de jogo. Mas as brasas da memória recente ainda queimam. As respostas é que foram incendiadas.