Recado das ruas não pautará Bolsonaro. Já pauta

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SAO PAULO, BRAZIL - MAY 29: Demonstrators gather during a protest against the government's Covid-19 response, on Avenida Paulista in Sao Paulo, Brazil, on Saturday, May 29, 2021. The severity of Covid in Brazil, with 16 million cases and 450,000 lives lost, has often been attributed to the administration of President Jair Bolsonaro, who still wades unvaccinated and maskless into crowds. (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency (via Getty Images)

Pela primeira reação, já no fim de semana, as manifestações de sábado, 29 de maio, não poderão ser ignoradas por seu alvo principal.

Jair Bolsonaro acusou o golpe ao correr para as redes e dizer que é “imorrível” e “imbroxável”. O presidente é do tipo que gosta de medir forças por metáforas da anatomia masculina. E é quase certo que o ensaio de revide será uma tentativa de mostrar que, manifestação de rua por manifestação de rua, a dele é maior.

Hoje não é, mas não se pode menosprezar a capacidade da turma de potencializar a própria força pelo ângulo certo e alguma ajuda dos amigos da repressão.

Bolsonaro, que tende a radicalizar quando se vê acuado, certamente provocará novos atos em sua defesa em verde e amarelo e bandeiras do tipo “eu autorizo", “intervenção militar já” e slogans contra lockdown, Congresso, STF, fantasmas comunistas, etc. É o que tem na ausência de plano específico para tirar o país do atoleiro econômico e sanitário.

Essa será a resposta mais visível. O revezamento de bandeiras certamente se tornará um programa de domingo na avenida Paulista e outras regiões nevrálgicas da pulsão política brasileira por um bom tempo. 

Em 2018, a resposta imediata a uma espécie de prévia das manifestações contra o governo, a marcha das mulheres que gritavam #elenão, teve como rebote uma reação das forças antipetistas que viam no bolsonarismo um "mal menor". 

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Hoje está mais do que provado que essa conversa era fajuta, mas os afetos contraditórios que o levaram até o Planalto não foram totalmente dissipados —o que, para muitos, explica a ausência das manifestações nas capas de dois dos principais jornais do país. O fato é que, organizada pelas redes e sem uma liderança unificada, como se tornou praxe em atos do tipo desde 2013, pouca gente, inclusive nas redações, esperavam uma manifestação de tal envergadura em momento delicado da pandemia. Fica como lição.

Quem não pode se mostrar surpreso é o governo, que monitora há tempos a possibilidade de a revolta conta seu imobilismo criminoso explodir nas ruas e já prepara os esparadrapos.

A médio prazo, o governo já ensaia medidas para ampliar os gastos públicos em direção a 2022, como já antecipou o ministro da Economia Paulo Guedes. Em nome da reeleição, vale tudo, até o antigo Posto Ipiranga rasgar a cartilha da chamada responsabilidade fiscal. Perto da Paulista, na Faria Lima, quem comprou a lebre já pensa na troca sonhando com uma terceira via entre os atos de sábado e a metralhadora bolsonarista.

No meio da artilharia, enquanto as ruas mimetizam as mais recentes pesquisas de opinião, hoje majoritariamente pró-impeachment e anti-Bolsonaro, o correntão do centrão tende a dançar conforme os humores.

Em Brasília, costuma-se dizer que uma coisa é o humor das ruas; outra, o dos bastidores. Com direito a orçamento paralelo de R$ 3 bilhões, Bolsonaro oferece a galinha dos ovos de ouro às vésperas da eleição. Só que não tem bobo nesse jogo.

O recado mais claro da manifestação de sábado é que pode custar caro, mesmo sendo bem remunerada, a associação com um clã presidencial que pode até se esforçar, mas não conseguirá remover tão cedo um léxico de crimes de responsabilidade a ele associado.

Quem hoje flerta com o bolsonarismo por conveniência pode desembarcar amanhã se a viabilidade do projeto 2022 seguir descarrilhado por manifestações de rua, CPI, crise com o Exército, a Polícia Federal e, sem tanto alarde, mas não menos importante, o avanço de investigações sobre figuras-chave do governo, como Ricardo Salles. O abraço de morte entre o chefe e o ministro do Meio Ambiente pode representar o isolamento total do país no tabuleiro internacional. Isso a longo prazo é uma chuva de pesticidas até nos planos do agronegócio.

Ir às ruas neste momento ainda não é uma decisão fácil. Mas, nos cartazes espalhados pelas ruas, grudou como cola a mensagem de que era preciso correr riscos porque Bolsonaro se revelou mais perigoso do que o vírus. Muita gente ali viu na manifestação a primeira obra coletiva de elaboração do luto — pela perda de familiares, amigos, vizinhos. O luto e a revolta são hoje os principais motores anti-Bolsonaro.

Mesmo quem nunca pensou em desfilar com bandeiras e bonés de movimentos sociais e organizações de esquerda espalharam o mantra por suas redes, uma via que já não pode ser desprezada na disputa política.

Lula, o principal beneficiário dos atos, preferiu não se envolver nem se manifestar. Embora inevitável, a associação com os manifestos pode adiantar, por alguns meses, o desgaste da acusação de ver na crise que tem custado vidas uma oportunidade eleitoral.

Além disso, o grito das ruas acontece num momento delicado de avanço sobre um campo ainda refratário ao projeto petista, que não vai às ruas por Bolsonaro mas também não se vê empunhando bandeira vermelha. Lula, se for candidato, certamente vai apostar num tom salmão para dirimir o antipetismo.

Embora implícito nas mensagens em defesa da vacina, o impeachment não é uma bandeira que interessa à concorrência agora. Ela tiraria do jogo um presidente enfraquecido e colocaria em campo Hamilton Mourão, um reserva descansado e (ainda) não desgastado.

Bolsonaro sangra assim em praça pública enquanto tenta mostrar força com os apoiadores de

sempre, que talvez nunca tiveram tão poucos motivos para sair em defesa do capitão.

Nem o mais ingênuo dos analistas imagina que, diante do pito tomado nas ruas, a saída, para o capitão, será se emendar, se comportar como adulto, tomar as medidas que precisa tomar e conter o morticínio que não evitou quando apostou na imunidade de rebanho e sabotou os planos de vacinação. Vem aí uma aposta dobrada na radicalização.

Até lá, com mais de 462 mil mortos e uma terceira onda à caminho, o país inteiro sangrará junto.

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