Se Deus vier, que venha armado ao Brasil de Jair Bolsonaro

Manifestante participa de ato em apoio a Bolsonaro em Brasília. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Tem filme que você precisa assistir mais de uma vez para captar nuances, detalhes, mensagens e contextos. A primeira análise pode ser traiçoeira. A segunda e a terceira podem revelar um novo filme. Muitas vezes, pior do que se pensou.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

O da reunião ministerial do dia 22, cujo vídeo foi liberado exato um mês depois pelo decano do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, exige revisões para além do que se viu, e se concluiu, no calor da hora.

Na sexta-feira (22), tive a impressão de ter visto no centro da cena um presidente nu e cru, nada muito diferente do que sempre apresentou quando era ainda uma atração do programa da Luciana Gimenez.

A versão pode até ser a mesma, mas nu e cru é licença poética.

Vista e revista, a reunião é uma montagem de cena para conferir espontaneidade ao que é ensaio e jogo de cena.

O espaçamento de corpos e elementos desta cena é o que os entendidos chamam de mise-en-scène. No encontro ministerial, Jair Bolsonaro é protagonista e diretor. Como num teatro, é ele quem planeja a introdução do drama no espaço cênico.

Nesta montagem há o dito e o não dito. O feito e o não-feito.

Visto ali, em sua zona de conforto, o ator principal nem parece o personagem algo estúpido e desarticulado incapaz de pronunciar o termo “lockdown” e que separa sílabas em palavras como “questão” -- em sua voz, algo como “cu-es-tão”.

Esse é o personagem que opositores se esforçam para criar, uma espécie de recruta Zero que chegou ao poder por acidente. 

O que tem a Presidência sob controle é outro. É menos caricato. E também mais enganoso.

O sociólogo alemão Max Weber, ao falar de dominação legítima pelo carisma, fala também da “comoção" causada pela pregação do líder político. 

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Assim, a obrigação de obediência em relação ao portador do carisma resulta, de um lado, da devoção ao absolutismo, a mensagem proclamada; de outro, da fé nas qualidades espirituais e físicas da pessoa de seu portador, da qual o sucesso da missão depende essencialmente. É o que demonstra Maurizio Bach, professor da Universidade de Passau, da Alemanha, em um artigo sobre carisma e racionalismo publicado em 2011.

Bolsonaro é o líder carismático que tem a mensagem proclamada por si. No centro da reunião ministerial, ele fala com seus auxiliares como se estivesse numa carroceria em frente ao Quartel General do Exército e diante de adoradores que devotam fé em suas qualidades espirituais na condução de uma missão.

Qual?

Veremos.

A reunião, que deveria discutir um plano improvisado de recuperação econômica, colocou em cena um presidente que precisa energizar não apenas sua base eleitoral que se esfacela na pandemia, mas também os seus soldados.

Para isso preciso de um inimigo. Vários. Todos. Inclusive inimigos internos, como se anunciasse aos discípulos: “um de vós irá me trair”.

Leia também

O capitão fala também como o general em guerra que precisa elevar o moral das tropas à beira da derrota. Mas esse líder oscila entre a figura do pai-patrão e a do vendedor bom de lábia que quer convencer o cliente a comprar um Passat velho. (Nas redes, circulava a expressão de Nelson Teich, então ministro da Saúde, ao ver o colega Ricardo Salles, do Meio Ambiente, discorrer sobre a boiada. Seria aquele o momento em que a ficha do Passat caiu?)

Vista e observada novamente, a reunião é um documento para a posteridade. Tem ali, talvez, a maior desmoralização das forças policiais brasileiras já proferida pela boca de um chefe de Estado. Este chefe de Estado só confia em seu grupo “paralelo”. O resto não cumpre a missão de lhe servir, municiar, avisar quando os filhos encrenqueiros estão encrencados.

Em certo momento, Bolsonaro fala que povo armado é povo que jamais será escravizado. Ali, no não-dito, tem muito a ser revelado.

Com uma portaria que revogou a rastreabilidade de armamentos civis e aumentou a cota de munição, Bolsonaro humilhou seu ministro da Justiça que assinou o documento e saiu com a pecha de desarmamentista e mandou, de fato, um “recado pra esses bosta” -- falava dos prefeitos e governadores que faziam o que podiam para brecar o avanço da pandemia.

Com palavras, ameaças e portarias prometidas, Bolsonaro reforçava assim o risco à vida do policial na ponta, do agente federal ao guarda municipal, que dali em diante teria de lidar com interpretações individuais do que é ser livre e não escravizado. Era a senha para que no dia seguinte o condutor criminoso que se autodeclara cidadão de bem avançasse o sinal por discordar das leis de trânsito e usasse as armas de uso pessoal como argumento e contra-argumento de uma eventual abordagem policial.

Bolsonaro atualiza os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, com uma interpretação particular: se o próprio presidente diz que a lei é draconiana, a lei não existe. Tudo é, então, permitido. Inclusive a guerra.

A reunião mostrou também que Bolsonaro tem uma noção própria, e torturada, das ideias de liberdade e verdade.

A primeira vale para quem obedecer. A segunda precisa aproveitar o foco da imprensa na pandemia para liberar a boiada.

Uma das razões para a troca dos chefes da Polícia Federal, como revelou Sergio Moro ao apresentar uma mensagem de celular, era uma ação contra grileiros na Amazônia. Não foi a verdade que libertou os desmatadores; foi a omissão sob proteção presidencial.

No jogo de cena bolsonarista, meias-verdades apresentam-se como absolutas. Alguns pressupostos tem pé na realidade. Bolsonaro, diante de seus soldados, quer se mostrar perseguido. Não porque é um mau presidente, mas por picuinhas de maus brasileiros.

No fim de semana, ele voltou a ser criticado após sair do castelo para comer um cachorro quente. Na próxima reunião, certamente usará as críticas para dizer que a mídia queria tirar dele o direito de ir, vir e comer sua iguaria em paz. Porque é alvo e pronto.

Olhando assim, parece mesmo implicância noticiar a traquinagem do presidente, não fosse um detalhe: estamos no meio de uma pandemia. E uma pandemia que, como em todos os outros lugares, só pode ser controlada com isolamento social.

Bolsonaro furou todos os esforços desse isolamento. O risco não está (só) no raio de aglomeração em torno do seu cachorro-quente. Está na mensagem: “se eu sou o presidente e posso mandar às favas o esforço por isolamento, você também pode”. Quem discorda é ditador.

Aqui a verdade é novamente torturada, e se revela numa solidariedade fajuta a quem precisa sair de casa para buscar trabalho.

E então chegamos a 22 mil mortos.

Como se diz em Minas, a palavra convence, mas o exemplo arrasta.

Bolsonaro atribui as críticas ao um desejo perverso: querem me tirar do poder. 

Mas até a saída de Sergio Moro, que jogou a palavra impeachment como sombra ao Palácio do Planalto, tudo o que os adversários pediam era que o presidente governasse. As respostas a suas andanças era uma espécie de “faz o seu que eu faço o meu” dos esforços republicanos que ele já boicotava. 

Bolsonaro não se continha em não ajudar; ele confundia e atrapalhava. Palavras de seu ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta. O primeiro a pedir o boné por não conseguir aproximar a realidade do desejo presidencial.

Conforme avança seu mandato, Bolsonaro parece atualizar o paradoxo do Coringa de Heath Ledger: “Eu sou como um cachorro correndo atrás de um carro, se ele parasse eu não saberia o que fazer.”

Em 2018 o carro parou para Bolsonaro. 

Veio a pandemia e ele preferiu andar de jet ski. Criticado, ele volta a latir atrás do carro -- coincidentemente, sua grande preocupação como projeto eram os taxímetros, os pardais de estrada, as cadeirinha e o resgate do prazer de dirigir. Sem contar a tomada de três pinos, abordada na reunião ministerial.

Perdido no papel que escolheu para si, o ator Bolsonaro encarna para a plateia um personagem revoltado com as injustiças brasileiras.

Era parte da mise-en-scène: como deputado, ele nunca moveu um dedo contra as injustiças de um país de fato injusto; Bolsonaro manipula sentimento legítimo de quem se revoltou com o sistema corrompido sem colocar na conta que ele também é produto deste sistema -- um sistema que permite rachadinhas, aproximação com milícias, exoneração de assessores, entre outras histórias que não esclarece enquanto berra.

Bolsonaro não explica como implodir o sistema que permitiu aos filhos prosperarem economicamente à sombra de cargos políticos; um deles, eleito vereador no Rio, faz jus ao voto e ao erário público como guarda-costas e responsável pelas contas do pai nas redes sociais. O que pode ser mais injusto num país de injustiças históricas do que o sistema da filhocracia?

Assim assim, o berro bolsonarista encontrou eco e abrigo em parte do eleitor. O abrigo virou cárcere privado.

Eleito presidente, ele transforma ressentimento e despreparo em fantasias de revolta e amarras institucionais: se fosse livre, o país estaria igualmente livre.

Seria mesmo?

Na prática, esse líder das classes populares que não teme o cheiro do povo foi o primeiro a se contradizer e aprovar uma reforma da Previdência essencialmente impopular; mais que isso, ele mantém como norte os dizeres de um ministro da Economia em sua versão Caco Antíbes, um personagem de falas demofóbicas que quer dar R$ 200 de auxílio a quem mais precisa na pandemia porque se não o povo se acostuma com a vida boa; para ele, pobre é pobre porque não sabe poupar e é deles a responsabilidade pelo desmatamento porque precisam comer.

É este ministro que surge à cena com uma ideia brilhante para o Brasil atravessar a pandemia como potência econômica: vender a “porra do Banco do Brasil ou abrir logo um cassino e deixar o pobre apostador “se foder em paz”.

Como ninguém pensou nisso antes?

Atrás e à frente das cortinas da reunião onde seus apoiadores viram um patriota capaz de morrer pelo povo está um sinhôzinho enfurecido porque os criados não trazem o café para ele. 

A verdade é que Bolsonaro faz da Presidência uma reunião entre amigos e amigos dos filhos. Um deles quase virou embaixador nos EUA. E alguns amigos ocupam postos-chave em bancos, órgãos de inteligência e de proteção ao patrimônio. Só eles são os patriotas; você até pode ser um, desde que aceite se submeter sem reclamar.

O presidente que quer libertar um povo através das armas e da verdade mente desde que transformou um inexistente kit gay em plataforma de campanha. Hoje ele vê seus filhos arrancarem os cabelos diante de uma CPI de Fake News e de um coletivo responsável por avisar empresas que seus anúncios eletrônicos foram parar em sites que promovem mentiras ou meias-verdades.

O presidente altivo e verdadeiro visto na reunião se enrosca para explicar a pressa em trocar o comando da PF; erra ao dizer que a pandemia estava de saída quando não havia ainda matado metade das vítimas. É o mesmo líder que prometia critério técnico para nomear aliados e loteou o governo com bajuladores, amigos e, agora, amigos do centrão.

Bolsonaro fala em barco e iceberg para chacoalhar os ministros que não o defendem de forma convincente, mas nem assistindo dez vezes ao mesmo filme dá para saber para onde quer levar a embarcação se todos ali sobreviverem ao naufrágio. Torcendo e retorcendo, o futuro mais próximo que ele é capaz de desenhar é um cenário de terra arrasada de filme de faroeste.

O Deus que deveria estar acima de todos tem na reunião ministerial uma releitura sem neologismos de Guimarães Rosa: “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”.

Fica o recado para quem tem fé e estiver disposto a investir dinheiro nesta terra onde a lei que vale é a do mais forte. Se vierem, venham armados; aqui é o sertão.

No país dos jagunços nem Paulo Guedes mantém o verniz civilizatório de quem leu Keynes no original. A certa altura, é ele quem faz o melhor resumo do encontro e, consequentemente, do próprio governo: “Nós podemos conversar com todo mundo aqui, porque é o establishment, e porque nós precisamos dele pra aprovar coisas, mas nós sabemos que nós somos diferentes. Nós temos noção que nós somos diferentes deles”.

São diferentes, sim. São piores.