Desfecho do sequestro no Rio vai legitimar “necropolítica” de Witzel?

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O ex-juiz Wilson Witzel foi eleito governador do Rio pelo PSC com um discurso linha-dura sobre segurança pública. Na transição, ele resumiu uma entrevista como seria a orientação para a polícia fluminense no combate à criminalidade: “mirar na cabecinha e… fogo!”

Uma vez empossado, declarações como essa serviram como carta-branca para inúmeras ações nas comunidades do Rio de Janeiro, algumas com uso de helicóptero. Uma delas vitimou um jogador não federado das categorias de base do América, que “portava” uma chuteira na mochila quando foi baleado em Niterói. Em 80 horas, outros cinco jovens como ele foram assassinados na localidade.

Na semana passada, cerca de 1.500 cartas feitas por crianças e moradores do Complexo da Maré foram entregues ao Tribunal de Justiça do estado pedindo menos violência nas comunidades.

Pressionado, o governador questionou a autenticidade das missivas e atribuiu a morte de inocentes aos “pseudodefensores dos direitos humanos”.

“Nunca vi um defensor de direitos humanos entrar em favela dando tiro”, respondeu o presidente da OAB do Rio, Luciano Bandeira.

Foi neste contexto que o Rio de Janeiro amanheceu, nesta terça-feira, 20/08, com a notícia do sequestro de um ônibus na Ponte Rio-Niterói. O cerco ao veículo, que levava dois passageiros, remetia a dois episódios traumáticos do passado recente, o caso Eloá Cristina, em Santo André (SP), e o do ônibus 174, também no Rio. Ambos resultaram na morte de sequestrados.

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A ação exigia uma intervenção cirúrgica dos atiradores da polícia, que conseguiram matar o sequestrador e libertar os passageiros. Soube-se depois que a arma do criminoso era de brinquedo – algo que ninguém, nem dentro nem fora do ônibus, poderia saber.

O caso estaria automaticamente encerrado se o tema da segurança pública não estivesse também refém dos discursos mais rasos sobre a violência no país.

Se, há poucos dias, o governador despachava os cadáveres de jovens inocentes para o colo do “pseudodefensores dos direitos humanos”, desta vez ele por pouco não promoveu uma volta olímpica pela cidade com o corpo do sequestrador em mãos. Preferiu descer de helicóptero no local celebrando o desfecho da ação como se fosse um gol.

É difícil analisar o sentimento de quem acompanhou o sequestro sem um redutor de termos morais, mas imagina-se que, em condições normais, a ausência de vítimas entre os passageiros gerasse uma espécie de alívio misturado ao conformismo com a inevitabilidade do desfecho. Isso se o debate público não estivesse contaminado pelas paixões mais irracionais – das quais a expressão de Wiltzel é antes resultado do que uma resposta.

Quieto em ocasiões anteriores, como quando uma vereadora é alvejada em via pública na mesma cidade, Jair Bolsonaro não demorou, desta vez, para dizer que não era para ter “pena” do criminoso. Como se a “pena” estivesse em pauta em algum momento.

Na fala dos defensores do recrudescimento parece ser humanamente impossível condenar a morte de inocentes nas favelas sem entender a ação policial na ponte entre as duas cidades como correta/inevitável. Ou, ampliando ainda mais o debate, como se fosse impossível rejeitar o armamento civil e defender o treinamento adequado, efetivo e municiado das forças de segurança para casos específicos como este. (Obviamente, ninguém defende o uso de flores como recurso, apesar de essa ser uma figura de ironia recorrente no discurso de defensores de massacres amplos, gerais e irrestritos).

No lodaçal das versões torturadas da verdade para fins políticos, o episódio certamente servirá para legitimar atrocidades pregressas e futuras, como se operações mal planejadas nos morros dos condenados ao nascer não vitimassem também agentes públicos de segurança.

Nos trending topics do Twitter, a ágora do pensamento contemporâneo, o episódio já alimentava discursos políticos igualmente sequestrados por quem já enrola os dardos para as eleições do ano que vem, com provocações quase futebolísticas ao PSOL e seus representantes, que estão no páreo da disputa pela prefeitura do Rio, e são constantemente associados a “defensores de bandidos”.

Até o início da tarde, o ex-deputado Chico Alencar era um dos poucos representantes do partido a se posicionar sobre o caso. Ele classificou como bem-sucedida a operação na Ponte Rio-Niterói, mas demostrou preocupação com o fato de o episódio servir para o governador afirmar o que ele chamou de “necropolítica”.

Os próximos episódios prometem.