Para analistas, silêncio de Pyongyang sobre ataque à Síria é proposital

Por Sebastien Berger à Pyongyang, Sunghee Hwang à Séoul
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Nesta foto de 15 de abril de 2018 da agência de notícias norte-coreana KNCA, jovens e estudantes dançam em homenagem aos 106 anos de nascimento do falecido líder Kim Il-Sung, em Pyongyang

No dia seguinte aos bombardeios ocidentais contra supostas instalações de armas químicas na Síria, a Coreia do Norte, aliada de Damasco de longa data, assistiu a um espetáculo de dança em homenagem ao seu fundador, Kim Il Sung. Nenhuma palavra sobre o ataque.

A mídia oficial se absteve de fazer comentários até esta terça-feira, três dias depois do ataque lançado por Estados Unidos, França e Reino Unido. Em uma nota na última página, o jornal Rodong Sinmun criticou Washington por ter usado o "antiterrorismo como desculpa" para esta operação.

Esta reação contrasta com a retórica de um ano atrás, quando o presidente americano, Donald Trump, ordenou atacar a Síria em represália e um ataque químico. Pyongyang condenou na ocasião o que chamou de "um ato de agressão intolerável", que demonstra "mais de um milhão de vezes" a legitimidade de seu programa nuclear.

Há um ano, a tensão era máxima devido a uma série de disparos de mísseis norte-coreanos. E os bombardeios à Síria foram interpretados como uma advertência a Pyongyang.

Mas hoje, em um contexto de aproximação com o Sul, a Coreia do Norte prefere evitar a controvérsia, explicam especialistas.

O líder norte-coreano, Kim Jong Un, terá uma reunião de cúpula com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, na semana que vem, e prevê reunir-se mais tarde com Trump.

Há mais de um mês, a agência oficial KCNA não menciona a capacidade nuclear do país. Ao contrário do que costuma fazer, também deixou de lado a retórica de condenar exercícios militares anuais entre Seul e Washington.

Os jornalistas estrangeiros no Norte estão proibidos de abordar as relações entre Pyongyang, Washington e Seul, e tampouco podem mencionar os programas nucleares norte-coreanos, normalmente fonte de orgulho nacional.

- "Concessões" -

"Por enquanto, o Norte não vai querer fazer declarações que provoquem os Estados Unidos", afirma Kim Hyun-wook, professor da Academia diplomática nacional da Coreia do Sul.

Pyongyang "quer dificultar aos Estados Unidos renunciar ao diálogo e retomar sua linha-dura de sanções e opções militares", acrescenta. Uma desavença diplomática sobre a Síria poderia complicar as negociações para fixar o lugar, a data e a agenda de uma cúpula.

Segundo Andrei Lankov, do Korea Risk Group, não se deve esquecer da opinião pública norte-coreana. "Pyongyang fará concessões aos Estados Unidos em um futuro próximo" e "se lembramos constantemente aos norte-coreanos do caráter maléfico dos imperialistas americanos será mais difícil justificar estas concessões".

As relações entre Pyongyang e Damasco vêm de longe. Ambos se apoiam mutuamente.

O Partido dos Trabalhadores, no poder na Coreia do Norte, enviou recentemente a seu contraparte sírio uma mensagem de parabéns, na qual se declara "muito feliz" de que, sob o mandato de Bashar al Assad, "o exército e o povo sírios tenham conseguido grandes feitos no combate para proteger a dignidade e a integridade territorial do país".

O presidente sírio foi um dos únicos chefes de Estado estrangeiros a enviar flores ao festival Kimilsungia, que se celebra atualmente em Pyongyang, no âmbito das festividades por ocasião do nascimento de Kim Il Sung.

- Orquídeas malvas -

O Ocidente acusa a Síria e a Coreia do Norte de usarem armas químicas e atribui a Pyongyang o assassinato de Kim Jong Nam, meio-irmão de Kim Jong Un, em 2017, na Malásia, com uma substância neurotóxica.

Os dois países cooperam no âmbito militar. Especialistas da ONU encontraram indícios de uma contribuição norte-coreana no desenvolvimento do programa de armas químicas sírio.

Segundo analistas, os últimos bombardeios ocidentais reforçarão a ideia norte-coreana de que o país precisa da bomba atômica para se defender dos Estados Unidos.

Pyongyang se baseia no destino do ex-presidente iraquiano Sadam Hussein (assim como o Iraque, a Coreia do Norte faz parte do 'eixo do mal', expressão cunhada pelo ex-presidente americano George W. Bush) e do líder líbio Muamar Kadhafi, que renunciou voluntariamente ao seu programa nuclear.

Uma coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu o Iraque e Sadam Hussein foi enforcado. Kadhafi foi deposto e morreu em uma rebelião apoiada pela Otan.

"Do ponto de vista norte-coreano, Washington sempre pode lançar um ataque se algo lhe desagradar", afirma Koh Yu-hwan, professor da universidade Dongguk. "Uma razão a mais para que o Norte se oponha à 'desnuclearização primeiro'", acrescenta.