Anastácia celebra 80 anos com EP produzido por Zeca Baleiro: 'Virei a vovó do forró'

Sérgio Luz
1 / 2

Anastacia_03 (1).jpg

A cantora Anastácia, 'A rainha do forró'

RIO — Autora de centenas de canções, cerca de 230 delas com o ex-marido Dominguinhos, não à toa Anastácia é chamada de rainha do forró há décadas. Mas o fato de ter um parceiro genial, aliado ao machismo da época e forte no gênero, acabou a deixando, de certa forma, numa espécie de segundo plano. Agora, aos 80 anos, completados no último dia 30, a cantora e compositora celebra a carreira com um EP produzido por Zeca Baleiro, ao lado de vários convidados, e se mantém positiva.

— Foi sofrido, mas insisti na música nordestina, ela faz parte desse chão enorme que é a MPB — diz, para completar, com bom humor: — Depois de velhinha, sou ainda mais reconhecida, virei a “Vovó do forró”, ainda dou no couro!

Baleiro afirma que sempre se surpreendeu com “o engenho de Anastácia como letrista e melodista”. E arrisca um raciocínio para tentar entender o fato de ela não ter chegado ao reconhecimento de Dominguinhos.

— Talvez isso se explique até por um certo machismo, quem sabe, pois o forró é um território a priori de homens, né? Não só homens, mas “cabras machos” (risos). E aí umas poucas destemidas, como ela, Marinês e Almira, é que foram abrindo caminho para as Elbas e Lucys.

Segundo Baleiro, pesava o fato de Dominguinhos ser um “supermúsico, completo, bom cantor, bom compositor e instrumentista”. Mas o produtor faz questão de ressaltar que “Anastácia é tão genial quanto”. A cantora explica a ligação com o ex-parceiro e marido, morto em 2013, aos 72 anos:

— Fui a primeira pessoa que colocou letra numa melodia dele. Nós nos incentivávamos. Eu adoro parceria. Quando a gente se junta com alguém com potencial, fortalece muito mais.

Anastácia era uma jovem de 20 anos quando saiu do Recife e chegou a São Paulo, em 1960, acompanhada da mãe, de cinco irmãos e um sobrinho, seguindo o trajeto de tantas famílias nordestinas em busca de oportunidades na mais rica cidade do país. Poucos meses depois, um conterrâneo a reconheceu ao passar pela Avenida São João e lhe entregou o cartão do escritório dos compositores Venâncio e Corumba.

Este encontro, que fez Lucinete Ferreira (seu nome de batismo) abandonar o emprego na Vasp para cantar, foi o primeiro dos acasos — aliados ao seu grande talento como intérprete e compositora — que construíram a carreira da rainha do forró.

— Foi uma aventura muito louca. Comecei minha carreira profissional aos 13 anos, no bairro da Macaxeira, no Recife. Depois segui para a rádio do “Jornal do Commercio. Quando fui a São Paulo, não tinha nem intenção de cantar, os artistas do Nordeste eram desconhecidos, fui para trabalhar, limpar banheiro, o que fosse. Aí o Venâncio me levou para um teste numa gravadora. E passei. Foi assim que tudo começou — diz a cantora, por telefone, de sua casa no bairro paulistano do Jabaquara.

'Amando escondida'

O segundo encontro marcante na trajetória musical da artista ocorreu logo depois, quando Anastácia viu “um cara com chapéu de couro no corredor do escritório”.

— Ele me olhou e disse: “Ooooiiiii”, com um vozeirão. Meu Deus, era o Luiz Gonzaga! Quando ele ouviu meu nome, disse que eu era um grande sucesso no Nordeste. E eu nem sabia disso. Assim surgiu nossa amizade.

Foi graças ao Rei do Baião que ela teve o mais importante encontro romântico e musical de sua vida.

— Um dia, vi um moreno bem arrumadinho. Botei os olhos em cima dele, mas não sabia quem era. Depois o Gonzaga me convidou para fazer um programa de TV, “Noite impecável”, na TV Continental. E quem tocava sanfona era o moreno, o Dominguinhos. Participei por quatro anos, amando escondida.

Gil deu régua e compasso

Antes do início do romance, ocorrido durante uma turnê com Gonzagão, ela e Dominguinhos deram o pontapé em uma relação ainda mais duradoura: a prolífica parceria musical.

— Ele tocava todo dia de manhã, e eu ouvia. Então fiz duas letrinhas para melodias que escutava. Fui lá, bati na porta e mostrei as letras, que encaixaram certinho. Foram “Mundo de amor” e “De amor eu morrerei”. Depois a gente fez “Eu só quero um xodó”, que o Gilberto Gil gravou. E eu tive a felicidade de ver uma música feita para o sertão estourar no Brasil inteiro. Foi nosso primeiro grande sucesso, era a música nordestina urbanizada. O Gil nos deu régua e compasso — resume.

O EP lançado agora, com cinco músicas, levou o nome “Anastácia 80 — Lado A” por conter parte do projeto, finalizado antes da quarentena. Ele conta com participações de Amelinha e Chico César em duas canções feitas com Baleiro: “O sertão está chorando” e “Venha logo”, respectivamente. E de Hermeto Pascoal (“A saudade me trouxe pelo braço”), Roberta Miranda (“Contando as estrelas”) — ambas escritas com Liane — e Mariana Aydar (“Venceu a solidão”, com Dominguinhos). O lado B, ainda sem data de lançamento, contará com as vozes de Alceu Valença e Lenine, entre outros.

— Artistas como Anastácia, espontâneos e criativos, influenciam gerações. Me agrada a naturalidade com que ela trata a canção, sem solenidade alguma. Ela é jovial, um poço de sabedoria — elogia Baleiro.

A cantora só tem uma reclamação sobre a vida:

— Lamento não poder fazer uma festa de aniversário, mas chegar aos 80 anos fazendo o que gosto, com tanta gente especial, me dá muita felicidade. Tenho amigos, saúde boa e família querida que me dá suporte para seguir.