Analista campeão mundial: pernambucano Anderson Borges detalha trabalho junto à seleção sub-17

Anderson Borges. Foto: Arquivo Pessoal

Por Eryck Gomes (@EryckWaydson)

Com um coletivo marcado pela intensidade, a seleção brasileira Sub-17 chegou ao seu quarto título Mundial. Repleta de jovens que devem ser aproveitados pelos respectivos clubes formadores durante a temporada 2020, o grupo contou com pernambucanos importantes na conquista - dentro e fora de campo. Nas quatro linhas, o representante foi o atacante Kaio Jorge, do Santos. Já na comissão técnica, Anderson Borges atuou na análise de desempenho. Após trabalho árduo e merecidos dias de comemoração, o profissional conversou com o Yahoo Esportes para contar detalhes da trajetória pessoal e do tetra brasileiro na categoria.

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Chefe do departamento de inteligência do Náutico, Anderson, 31 anos, conhece bem o estado onde nasceu. Foram quatro anos trabalhando no futsal, até que, em 2013, veio a decisão de migrar para a análise de desempenho. Após especializações, conseguiu a primeira oportunidade nas categorias de base do Sport, em 2013. Logo em 2014, passou para o profissional, quando Eduardo Baptista assumiu o comando da equipe. Antes de chegar ao Alvirrubro, a percurso ainda contou com o Santa Cruz e a Chapecoense.

- No fim de 2014, saí do Sport e fui para o Santa Cruz, montando o departamento lá do zero. Fiquei lá até metade de 2017, quando fui para a Chapecoense. Eutrópio era o treinador e, quando saiu do clube, me fez o convite para ir na comissão dele. Ele acabou sendo demitido em dois meses, mas a Chapecoense fez o convite para eu ficar como analista fixo. Finalizei 2017 lá e, já perto do fim do ano, tive a proposta para voltar ao Recife. Ítalo (Rodrigues), o executivo de futebol, me convidou. A gente passou quase um mês negociando, porque a Chapecoense estava indo para a Libertadores e o Náutico caindo para a Série C. Mas duas coisas pesaram muito: a minha família e o projeto da nova gestão, que se importava bastante com a ampliação do setor de análise do clube.

O debute na seleção brasileira aconteceu no Torneio de Montaigu, na França, em 2017, com a equipe sub-16. Desde então, Anderson tem acompanhado de perto o desenvolvimento do atual sub-17. Embora seja um trabalho recompensador para o profissional, as demandas paralelas entre clube e CBF (Confederação Brasileira de Futebol) despende bastante energia no dia a dia.

- O obstáculo é não conseguir estar no dia a dia. Existem três observadores e um analista fixo lá na base e são eles que monitoram os jogadores, junto aos treinadores e auxiliares. Como estou no profissional aqui, não consigo esse acompanhamento tão forte. Às vezes, estamos programando uma convocação e, até para opinar sobre um atleta ou outro, você tem dificuldade, porque a minha vivência com esses atletas é de seleção, mas tento acompanhar o máximo que posso. De qualquer forma, o mais legal desse trabalho hoje é a confiança que tenho tanto do treinador quanto da comissão e da coordenação da CBF. De querer que eu faça parte do processo, e também por eu seguir essa geração há dois anos.

CONFIRA O RESTANTE DA ENTREVISTA:

Técnico Guilherme Dalla Déa utilizou bastante o setor de análise durante a competição - Foto: Arquivo Pessoal

Como era a relação do técnico Guilherme Dalla Déa com a análise de desempenho?

- A relação com o Guilherme é fantástica. Primeiro que é uma pessoa sensacional e, como treinador, é hiper aberto. Firme nas decisões, mas debate e escuta todo mundo, de todos os setores. Consegue distribuir bem as funções, aonde cada um pode ir, opinar, onde quer que interfira. Ele usa muito a análise de desempenho. A gente ficava vidrado de 6h30/7h até meia-noite/uma hora da manhã. Os períodos com ele são muito intensos, porque é um cara bastante estudioso. Devo muito a ele por confiar no meu trabalho. Como fomos em três analistas para o Mundial, dividimos bem as funções. Fiquei junto com o Felipe Leal, um dos auxiliares, diretamente focado na nossa equipe. Os debates entre nós eram focados em estratégia de jogo, ao que fazer, a mudanças táticas no time. E também são dois anos trabalhando juntos, isso facilitou demais as coisas a fluírem da melhor forma possível. 

Como era a composição do setor de análise de desempenho durante a competição?

- A gente tinha um responsável pelos adversários e outro que ficava indo in loco ver o nosso próximo adversário, o de imediato. Nisso, ia selecionando no software algumas situações de jogo pontuais, padrões, e já mandava mastigado para a gente. Fora isso, tínhamos mais três observadores, cada um em uma sede, que acompanharam todos os jogos. Eles faziam relatório da partida, com detalhes das equipes e caracterizando padrões táticos coletivos e individuais dos atletas. A CBF deu para a gente uma estrutura de monitoramento de Copa do Mundo principal. O pessoal na Rússia trabalhou com uma situação muito parecida com a nossa. Tivemos três observadores e três analistas.

Qual foi o adversário mais complexo de analisar?

- Estrategicamente, o mais difícil, com relação a variação e repertório, foi contra o Chile. Foi a equipe que mais fez a gente quebrar a cabeça. Não só para analisar no pré-jogo, mas durante a partida também. Eu tinha o rádio aberto com o Felipe Leal e debatíamos o jogo todo, eu vendo lá de cima e conversando com ele. O treinador do Chile é um cara hiper inteligente. Esperávamos algumas coisas… Por exemplo, algo simples que é a saída de três, eles não vinham fazendo em nenhum momento da Copa. Estudamos os amistosos que fizemos contra eles, jogaram fazendo essa saída e imaginamos que repetiriam, e até fizeram, mas começaram a utilizar o lateral, variando muita coisa, e demoramos para encaixar. Foi o jogo onde mais quebramos a cabeça para mudar algumas coisas e ir entendendo conforme a partida passava.

Os jogadores costumavam buscar vocês?

- Como já estou com a federação há um bom tempo, a relação com o grupo de jogadores e comissão era muito boa. Éramos muito fechados. Acredito que isso foi uma das coisas fundamentais para conseguirmos esse título. Passamos 45 dias juntos e foi um período bastante intenso. Quase todos os meninos nos procuravam, o tempo inteiro. Como são atletas de 17 anos, a busca por informação é maior que do profissional. Pós-treino eles já querem saber o que precisa ser corrigido, como foram, ficam curiosos para ver imagens. Sempre estávamos separando erros individuais, questões de ajustes, pontos positivos. Tinha muita reunião individual, setorial. Essa relação era muito ativa. Durante a Copa, a busca era mais pelo adversário, como, por exemplo, de quem atuaria no seu setor.

Havia algum atleta que procurava o setor de análise com mais frequência?

- Com relação a material, uma coisa certa era o Daniel Cabral, volante, e o Henri, zagueiro, nos procurando. No pós-jogo eu já tinha a certeza de que eles iam na minha sala buscar o material deles. Sentavam-se para assistir, separávamos as ações individuais e eles acompanhavam isso com a gente, debatiam. Outro cara que me procurava muito para debater sobre adversário, sobre o que fazer, e isso no pré-jogo, vestiário, intervalo, o tempo inteiro, era o Kaio Jorge. É um cara bastante interessado para saber características dos zagueiros, o que seria melhor fazer, se jogar nas costas, fazer pivô, vantagens que poderia ter. Moleque muito profissional, com a cabeça bem resolvida.

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