Andrew Jennings foi uma verdadeira lenda do jornalismo esportivo

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  • Andrew Jennings
    British journalist
  • Castor de Andrade
    Diretor esportivo e contraventor brasileiro
Andrew Jennings durante evento em 2018. Foto: Tristan Fewings/Getty Images for Foundation For Sports Integrity
Andrew Jennings durante evento em 2018. Foto: Tristan Fewings/Getty Images for Foundation For Sports Integrity

Na manhã do dia 10 de janeiro desperto com uma notícia ruim: faleceu no sábado, 8 de janeiro, o jornalista britânico Andrew Jennings aos 78 anos. O tipo raro que realmente fazia seu trabalho e não tinha medo de investigar, tanto que expôs os bastidores da FIFA (Federação Internacional de Futebol) e do COI (Comitê Olímpico Internacional).

Nas redes sociais oficiais foi revelado apenas que fora vítima de uma “doença repentina e breve,” e a causa de morte não foi exposta.

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Entre seus principais trabalhos estão a revelação do envolvimento de mercenários britânicos contratados pela Casa Branca para atuar no caso Irã-Contras (em território iraniano) que ainda teve a participação do governo britânico no acordo secreto entre EUA e Irã e o dinheiro que sairia deste para financiar a oposição armada na Nicarágua na década de 1980.

Jennings também abordou as atividades da máfia na Chechênia. Jennings é dono de uma carreira que já despontava nos últimos anos da década de 1960.

Outro de seus trabalhos mais ousados foi o documentário que iria apontar os problemas da Scotland Yard, a Polícia Metropolitana de Londres, em 1986, porém a BBC, sua empregadora na época vetou a veiculação do material.

A investigação de sete anos se tornou no livro Scotland Yard’s Cocaine Connection (1990) apontando as corruptas ligações do departamento antidrogas do órgão com os cartéis de drogas colombianos atuando na Miami dos anos 1980, um período que ficou conhecido como Cocaine Cowboys, dada sua violência e excessos consumistas. A ganância da cocaína expandiu da ensolarada cidade americana para os cinzentos horizontes londrinos com anuência da dita entidade.

Perseguindo ladrões elegantes

O ano de 1992 teve os Jogos Olímpicos de Barcelona, e também o livro The Lords of The Rings: Power, Money and Drugs in the Modern Olympics, no qual Jennings derrubou cartolas e sangrou uma crise no Comitê Olímpico Internacional que precisou passar por profundas mudanças para tentar manter sua credibilidade.

Em território brasileiro sua principal contribuição foi a investigação das ações sombrias da FIFA que culminou na queda de cartolas longevos como João Havelange, Ricardo Teixeira e José Maria Marin. Jennings apontou que Havelange ao se tornar presidente em 1974 da instituição aprendeu os métodos de negócios do polêmico e folclórico bicheiro e também cartola Castor de Andrade, seu mentor.

Jennings também revelou como o filho do fundador e ex-diretor da marca esportiva Adidas, o alemão Horst Dassler, comprou votos de delegados para garantir a eleição de Havelange, o qual por sua vez “lavou as mãos” do europeu ao entregar-lhe o poder executivo quanto a comercialização dos principais torneios mundiais da FIFA.

Havelange levou os métodos aprendidos no Rio para uma nova potência: compra de votos, pagamentos de propinas e outras ações de ética questionáveis passaram a ser práticas comum na entidade máxima do futebol. Havelange fez herdeiros como seu sucessor na FIFA, o suíço Joseph Blatter e seu genro Ricardo Teixeira, o qual foi apelidado por Jennings de “Tricky Ricky” (Ricky Trapaceiro).

Os livros Jogo Sujo – O Mundo Secreto da FIFA de 2011 e teve sua “continuação” em Um Jogo Cada Vez Mais Sujo de 2014. No mercado anglo-saxão foi lançado como Omertà (2015), em alusão ao código de silêncio dos grupos mafiosos da Itália, dada que as práticas entre dirigentes esportivos em muito se assemelham a grupos do crime organizado.

Seu trabalho levou a uma enérgica atuação dos órgãos da lei em diversos países, em 2015, a FIFA foi alvo de uma operação policial do FBI (Federal Bureau of Investigation) dos EUA tendo sua divulgação sendo feita pelo Ministério Público Federal do mesmo país.

A investigação do FBI resultou no caso apelidado de “Fifagate” tendo Jennings participando como um “consultor,” uma vez que suas investigações foram a base de atuação dos agentes americanos. Era comum neste período vê-lo na TV americana, como foi também sua presença na imprensa brasileira.

Uma grande ausência para o jornalismo investigativo

As últimas semanas têm sido difíceis, senti muito os falecimentos do vencedor do prêmio Nobel da Paz, o arcebispo da igreja anglicana Desmond Tutu da África do Sul que lutou contra o Apartheid e do lendário astro do cinema Sidney Poitier, o qual levou foi membro ativo no Movimento de Direitos Civis nos EUA e pode ser visto como o maior astro do cinema americano dado as barreiras que rompeu e o caminho que abriu para outros.

Tenho muito carinho e respeito pelas obras de Tutu e Poitier, porém a morte de Jennings tocou meu âmago, o conheci pessoalmente e em muitas vezes abriu portas para meu trabalho como jornalista seja por aceitar minha participação no seu livro Um Jogo Cada Vez Mais Sujo (2014), chamado de Omertà (2015) no exterior, ao me conceder entrevista para a extinta versão brasileira da Vice ou mesmo com conselhos.

Jennings também mostrou que é possível ser jornalista esportivo e investigativo e que a editoria de esportes pode ser muito mais que uma vitrine para nações, clubes e atletas e realmente causar impacto e, para usar um clichê, “mudar o jogo.”

Encerro este texto sabendo que dificilmente teremos outro repórter tão aguerrido e em busca da verdade, mesmo que lhe imponha custos altos. Eu perdi um amigo, incentivador e mentor; e o jornalismo mundial perdeu uma verdadeira lenda.

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