Anestesista preso: pai de paciente vai à polícia e relata que estranhou médico ficar sozinho com filho por 20 minutos

O anestesista colombiano Andres Eduardo Oñate Carrilo, de 32 anos, acusado de estuprar ao menos duas mulheres sedadas durante procedimentos cirúrgicos, atuou em hospitais públicos e particulares no estado do Rio de Janeiro nos últimos anos. O que leva a polícia a, após a prisão do médico, na manhã de segunda-feira, investigar se foram feitas novas vítimas durante procedimentos além dos dois casos que ele mesmo gravou e armazenou. Na manhã desta terça-feira, um pai que teve o filho atendido por Andres antes de uma cirurgia procurou a Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav) para relatar o que aconteceu durante o preparo. Segundo contou à polícia, o anestesista pediu para ficar sozinho com o paciente e que todos se retirassem do local.

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— Acabo de atender aqui, nesse momento, um pai que alega que o filho foi submetido a uma cirurgia, e achou muito estranho esse médico suspeito exigir que todos saíssem da sala para ele continuar os procedimentos anestésicos. Demorou mais de 20 minutos, o que o pai achou muito estranho. Estou ouvindo agora o pai para esclarecer também essa questão — contou o delegado Luiz Henrique Marques Pereira, titular da especializada, em entrevista ao programa "Encontro", da TV Globo.

O delegado pediu que, em caso de suspeita, pessoas atendidas por Andres procurem a Dcav para prestar depoimento. A especializada busca por novas possíveis vítimas. Colegas de equipe do anestesista também são ouvidos nesta terça-feira.

— Queria fazer um pedido, que eventuais vítimas, pessoas que se sintam vítimas, que acham que possam ter sido vítimas desse suspeito que compareçam aqui na Dcav. A delegacia está aqui aguardando essas pessoas para serem atendidas — destacou.

Duas vítimas identificadas

Até o momento, a polícia encontrou nos arquivos de Andres vídeos gravados no momento de dois abusos. Uma das vítimas foi operada no Hospital Estadual dos Lagos Nossa Senhora de Nazareth, em Saquarema, em dezembro de 2020. Segundo a Secretaria estadual de Saúde, o médico deixou de atuar na unidade em setembro de 2021. Em nota, o órgão informou que “já solicitou à direção da unidade hospitalar todos os dados e prontuários do período em que o médico trabalhou como prestador de serviço e vai instaurar uma sindicância para apurar as devidas responsabilidades”.

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A segunda vítima foi uma paciente do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão, Ilha do Governador. Ela estava internada para retirar o útero, em fevereiro de 2021, e se reconheceu nas imagens e lembra que estranhou ficar muito tempo desacordada após o procedimento, cerca de duas horas a mais que sua irmã, que havia feito a mesma cirurgia.

— Na hora que o policial me chamou, eu achei que era um golpe, não era possível. Sabe quando parece que você está vivendo um pesadelo? Ele perguntou: “Você quer ver a cena?”. Eu falei que sim, para ter certeza do que aconteceu comigo. Ele falou assim: “Eu vou te mostrar só uma cena”. E era eu na cena — contou a mulher ao RJTV, da TV Globo:

— Eu lembro que minha filha ficava fazendo perguntas. Por que a minha mãe está assim? Aí, o doutor falou: tem um tipo de cirurgia que a gente tem que dar um pouco mais de anestesia porque é prolongada, foi a cirurgia da tua mãe. Ele estudou para quê? Para ser bicho, para ser monstro? Ou ele estudou para ser médico? Porque para mim um homem desses não é médico, não. Para mim, uma pessoa dessas é um monstro — completou.

Em nota, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho disse que Andres “ingressou em um curso técnico-prático (semelhante a uma especialização) em março de 2018 e concluiu em fevereiro de 2021” e que o curso realizado “resulta em um certificado que permite a ele participar de cirurgias e/ou procedimentos sempre com a supervisão de um profissional responsável”.

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Em depoimento à Polícia Civil, Andres Carrillo admitiu que é ele nas imagens abusando sexualmente das duas pacientes. Aos investigadores, contou que se formou em medicina na Colômbia em 2015 e veio ao Brasil dois anos depois para fazer sua especialização em anestesia. O médico afirmou não saber o motivo pelo qual “nutriu dentro de si a compulsão em ver e armazenar pornografia infanto-juvenil” e disse que nunca abusou sexualmente de crianças. Para ter acesso às imagens, buscava em plataformas de vídeos termos relacionados a pornografia infantil e acessava grupos de aplicativos sobre o tema.

Sobre o estupro de pacientes, o anestesista contou aproveitar o “momento em que estivesse sozinho” para cometer o crime, explicou que “no caso do Hospital dos Lagos não era o anestesista responsável, mas é comum que os médicos tenham acesso às pacientes no momento da pré e pós cirurgia”; e que “não se recorda do momento exato, mas deletou os arquivos de pornografia que estavam na sua posse com receio de ser preso”.

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A Justiça expediu mandado de prisão temporária por 30 dias e busca e apreensão contra Andres na ação que o investiga por estupro de vulnerável. Após a operação, o Ministério Público pediu a prisão preventiva. Em outro inquérito, a Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav) o investiga também por produzir e armazenar pornografia infantil. Ele mantinha arquivadas mais de 20 mil imagens de abuso sexual envolvendo crianças a adolescentes. A análise do material chamou atenção pela gravidade e quantidade de arquivos, que incluíam até bebês com menos de 1 ano.

— É um arquivo extremamente violento, em grande quantidade. Podiam ser vistos bebês de colo, de menos de 1 ano, sendo abusados sexualmente, sendo obrigado a participar de sexo com adultos. Algo que chocou até mesmo agentes mais experientes — explicou o delegado Luiz Henrique Marques Pereira, titular da Dcav. — Pesquisando esses conteúdos, foram encontrados dois vídeos em que esse suspeito ainda estuprou duas pacientes durante o procedimento de anestesia pré-cirúrgico. No decorrer das investigações, a polícia espera encontrar outras vítimas.

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Na próxima etapa da investigação, os celulares e computadores de Andres serão periciados em busca de provas que possam ter sido apagadas. A polícia também apura se ele se passava por criança nas redes sociais em um perfil falso para aliciar menores.

Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde do governo federal, Andres Carrilo trabalhou na rede SUS somente no Hospital Universitário Pedro Ernesto, administrado pela Universidade Estadual do Rio (Uerj). Desde maio de 2022, ele era contratado pela unidade por tempo determinado para serviços de anestesista. Procurada, a unidade não retornou os contatos.

O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) abriu uma sindicância contra o médico colombiano. De acordo com o órgão, “na época dos casos citados, Andres não possuía CRM e atuava de forma irregular, fato que também será apurado junto às unidades de saúde mencionadas”. O Conselho considerou as acusações gravíssimas e disse que o caso será apurado com todo rigor e acelera os trâmites para interditar cautelarmente seu registro. Ao fim da investigação ele pode ter o CRM cassado.

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