Anestesista preso por estupro olhava os monitores para disfarçar abuso, diz testemunha

O uso do capote de foram errada, sedação da paciente em excesso e o posicionamento sempre próximo à cabeça da mulher foram alguns dos elementos que chamaram a atenção de mulheres da equipe de enfermagem que trabalhavam ao lado do médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra, preso no último domingo (10) por estupro durante um parto. Enfermeiras e técnicas já o observavam com desconfiança antes mesmo do último plantão, quando foi montado um flagrante, com um celular escondido para a gravação. Após a prisão, as testemunhas contaram em depoimento na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de São João de Meriti, que investiga o caso, como era o comportamento de Giovanni na sala de cirurgia. Uma delas relatou que o médico "a todo o tempo tenta disfarçar, olhando monitores" enquanto pratica o abuso registrado em vídeo.

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O crime que foi gravado e serviu como prova para o flagrante aconteceu contra a terceira paciente do dia que teve o anestesista na equipe. Na cirurgia anterior, a testemunha estava escalada para a sala que cuida das pacientes após o parto, mas que, eventualmente, dá suporte à equipe na sala de cirurgia. No segundo parto do dia que o médico acompanhava, a profissional precisou reposicionar a "placa de bisturi". Giovanni estava em pé próximo à cabeça da paciente, como sempre ficava, e, segundo a testemunha, tinha o pênis ereto. Para esconder, ele fechou o capote (avental cirúrgico), escondendo a calça. A paciente, segundo falado no depoimento, também estava mais dopada do que é comum para a cesariana.

Foi a partir desse relato da testemunha ao restante da equipe de enfermagem, que também já via o anestesista com desconfiança, que o grupo resolveu armar o flagrante. Para isso, mudaram a terceira operação para a sala 3, onde há um armário com equipamento de cirurgia por vídeo, o qual é fechado por uma porta de vidro escura. Isso permitiu que escondessem o celular dentro do móvel, direcionado para filmar Giovanni durante o procedimento sem que fosse percebido.

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As imagens registraram todo o crime, que acontece a cerca de um metro da equipe médica que está separada por um lençol erguido, o que impede que vejam o pescoço e a cabeça da paciente e Giovanni, que a todo momento está em pé próximo a ela. Ao colocar o pênis na boca da mulher, durante o abuso ele faz, em determinados momentos, movimentos com o próprio corpo — com a pélvis — e mexe a cabeça da vítima, num movimento de "vai e vem". O abuso dura aproximadamente dez minutos e, para disfarçar, em alguns instantes ele olha para o monitor eletrônico, que mostra os sinais vitais da paciente, como se acompanhasse o quadro de saúde dela durante a cirurgia de cesárea.

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Uma outra testemunha, em depoimento à Deam, destacou que o comportamento de Giovanni de se manter em pé ao lado da paciente durante a cirurgia, em especial quando o acompanhante deixava a sala, causava estranheza porque nenhum outro profissional age dessa forma.

"A equipe começou a desconfiar de Giovanni devido a seu comportamento durante as cirurgias. O protocolo deveria ser: a paciente entra no leito, onde está toda a equipe (cirurgião, dois obstetras, um anestesista, um pediatra e um técnico de enfermagem). O anestesista conversa com o paciente e faz a aplicação da anestesia. Após a anestesia, o anestesista se senta e fica monitorando os sinais vitais da paciente através dos monitores eletrônicos. Giovanni não atua desta forma", diz trecho do depoimento de uma das testemunhas.

No mesmo depoimento, a profissional conta que "após o nascimento do bebê, Giovanni solicita a saída do acompanhante do leito diz que a paciente está apresentando quadro de náuseas e faz a aplicação de novas drogas, para 'apagar' a paciente". A testemunha destaca que o correto é o acompanhante ficar até o fim da cirurgia e que caso o paciente tenha náusea "não pode ser sedado, pois existe risco de broncoaspiração no caso de vômito".

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O enjoo que a mulher estaria sentindo, na verdade, era uma desculpa para deixá-la desacordada.

"Após a saída do acompanhante e a sedação completa da paciente, Giovanni diz que a sala está fria e utiliza um 'capote cirúrgico' para fazer uma cortina impedindo que a equipe veja a parte superior da paciente. Após a colocação da 'cortina', sem se intimidar com os membros da equipe, Giovanni fica muito próximo da cabeça da paciente, em pé a todo momento", contou a testemunha em depoimento.

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