A angústia de estar grávida em tempos de coronavírus

Por Hazel WARD
Grávida de máscara facial como medida de precaução passa por um mural de rua em Hong Kong, em 23 de março de 2020

Ainhoa Martínez está grávida de gêmeos e diz que o melhor seria ficar em casa e não atender ao público em sua loja de chá perto de Madri. As contas da família obrigam-na a trabalhar, porém, expondo-a ao risco de ser contaminada pelo novo coronavírus.

Com exceção dos estabelecimentos comerciais de alimentos e farmácias, os comércios estão fechados na Espanha há três semanas, como parte do plano do governo de conter a pandemia que já causou mais de 13.000 mortes no país.

Ainhoa, de 36, diz que não tem outra escolha a não ser trabalhar para continuar ganhando dinheiro. Segundo ela, o mais estressante é pensar na ultrassonografia de 20 semanas que fará em um hospital cheio de pacientes com coronavírus.

"Eles enfatizaram que a 20ª é uma semana muito, muito, muito importante. Como sou mãe de primeira viagem, me pergunto o que devo fazer. Vou? Não vou? Estou me arriscando demais?", diz à AFP.

Também se estressa com a ideia de ir ou não com o marido, caso a polícia os pare.

Nesse caso, está "desperdiçando o tempo de um profissional que deveria estar envolvido com o coronavírus (...) e não sabe se ele está infectado, ou não". E o fato é que, há semanas, a polícia vem aplicando milhares de multas diariamente em toda Espanha por quebra de confinamento.

Para as grávidas em boa parte do mundo, a pandemia fez disparar o estresse e a ansiedade, interrompeu o acompanhamento médico regular e levantou inúmeras perguntas sem respostas claras.

"Ir ao ultrassom não deveria ser assustador, pelo contrário, deveria ser emocionante", diz Sophie Hales, uma jovem de 25 anos que recentemente fez seu ultrassom de 20 semanas em um hospital de Luton, perto de Londres.

"Seria assustador para mim testar positivo (para o coronavírus), porque quando você tem um filho, você quer estar o mais forte e saudável possível", acrescenta.

- Pesadelo -

Para Vanesa Muro, positiva para o coronavírus, a situação pode ser descrita como um pesadelo, dias antes de ela dar à luz em um hospital de Madri, a área da Espanha mais atingida com mais de 5.000 mortes e inúmeras emergências em colapso.

Ela diz que "sentiu medo" ao pensar que "poderia transmitir o vírus para o bebê" e conta que, quando o marido a levou para a sala de emergência, não foi autorizado a entrar.

O bebê foi removido o mais rápido possível e testado para o vírus. Felizmente, ele deu negativo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não sabe se uma mãe pode passar a COVID-19 para o bebê, embora nenhum sinal do vírus tenha sido encontrado até o momento no líquido amniótico, ou no leite materno, de mães contaminadas.

Para essas mulheres, o medo é um grande fator, explica a parteira María Jesús García Díaz, que trabalha em um centro médico de Madri.

"É um dos problemas que mais as preocupa: como [o vírus] pode afetar a criança", afirmou, acrescentando que "a incerteza é o que dá mais estresse.

As regras de distanciamento físico produzem um estresse especial. Lumière Nabab, uma agente imobiliária de 29 anos de Paris, está preocupada com ter de dar à luz sem o parceiro ao lado.

"Num primeiro momento, disseram que o pai poderia estar junto, depois que ele deveria estar em outra sala durante o parto (...) e, em alguns hospitais, a entrada do pai não é permitida", conta.

"A primeira vez que você vai dar à luz é um mundo desconhecido. Você precisa estar segura, e não se ver sozinha", desabafa.

Para María Rosa Martí, radiologista de Barcelona de 29 anos e que espera seu segundo filho para esta semana, há também uma outra preocupação: a situação extrema das unidades de terapia intensiva.

"O que mais me preocupa é que, se houver uma complicação no trabalho de parto, não terão os meios de me atender em uma UTI", diz. "Um parto complicado para mim é a pior coisa que pode acontecer", afirmou.

Com as oficinas de pré-natal canceladas, e a maioria das consultas sendo feitas por telefone, são as parteiras as primeiras a ajudar essas mulheres diante de uma crise sem precedentes.

"Isso fará muitas decisões serem modificadas pelo medo", o que não é bom, diz a parteira María Jesús García Díaz, que insiste na necessidade de manter a perspectiva.

"O importante é cuidar de si e não se preocupar (...) E receber as notícias com um conta-gotas", sugere.