Angela Ro Ro celebra música em ‘Um lugar ao sol’, volta a fazer show e abre o coração ao falar de vaidade, sexo e nova namorada

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Reclusa em Saquarema, na Região dos Lagos, desde o início da pandemia, Angela Ro Ro volta a ecoar sua famosa voz rouca no Rio neste sábado (dia 15), em única apresentação no Teatro Rival Refit, a partir das 19h30. Na companhia do músico e fiel escudeiro Ricardo Mac Cord, seu parceiro na autoria de “Compasso” — que na trilha sonora de “Um lugar ao sol” é tema da personagem Júlia (Denise Fraga) —, Ro Ro apresenta bossa, jazz, rock e romantismo no show sugestivamente intitulado “Cheia de amor pra dar”. Aos 72 anos, esta que é considerada uma das artistas mais polêmicas da MPB conversa com mansidão e muito bom humor ao telefone, afirmando: “Só quero saúde, paz de espírito e trabalho neste 2022. Parei de passar o chapéu”.

A rotina em Saquarema

“Vinha pra cá desde os meus 17 anos, esta casa era dos meus pais. O terreno tem muita árvore, gambá, macaquinho, passarinhos, borboletas, vagalumes... Fico encantada com tudo, porque eu vivia no urbano, no asfalto de Copacabana e Ipanema. Aqui eu cozinho pouco, peço mais comida no restaurante japonês. E como pouquinho, emagreci mais de 70kg e não voltei a engordar. Faxina não é meu forte, de vez em quando fico toda desconjuntada. Minha diarista vem raramente. E tem o caseiro que mora no meu terreno. Sem ele, não posso ficar, porque vira matagal. A casa é perto da lagoa, a uns 2km da praia. Mas não vou mais lá, tem muita muvuca. Já fui muito à praia na vida, agora prefiro ficar branca”.

Viver só

“A solidão é um estado natural pra todo mundo. Mesmo que a pessoa esteja rodeada de gente ou viva em comunidade, cada um é um indivíduo. Eu me sinto muito bem nessa condição. E me divirto muito com as redes sociais, elas me fazem companhia”.

Velhice

“Estou jovem ainda. Em matéria de velhice, eu ainda estou no início dela. Tem um pessoal aí na ativa com mais de 90 anos: Nathalia Timberg, Fernanda Montenegro... Como estão bonitas! Envelhecimento é aquele negócio: depois dos 60, cada ano parece cinco. E depois dos 70, parece dez. Durante a pandemia, dei uma enferrujada. Faço exercícios, alongamento, quiropraxia pra colocar o boneco no lugar”.

Pedidos de ajuda financeira

“Parei de pedir dinheiro, estou pedindo é trabalho. Saúde, paz de espírito e trabalho neste 2022. Tenho um ofício, quero cantar. Mas fazer só um show por mês é fogo, o dinheiro vai todo nas despesas. Eu nunca consegui guardar dinheiro nem rancor. E nunca tive vida de luxo. Esse negócio de emagrecer, inclusive, foi um grande negócio. Uso as mesmas roupas há dez anos. Mas não vou ficar reclamando, porque o país como um todo voltou a um estágio de pobreza e miséria. Esta gestão é desastrosa! Tenho roupa pra vestir, casa pra me abrigar, comida, água potável, cobertor, duas camas, geladeira, fogão, micro-ondas, dinheiro pra comprar botijão de gás! Isso , hoje em dia, é luxo”.

Vaidade

“Depois que emagreci, pelancou. Sou boa pra ser olhada de burca. Fiz plástica no pescoço, porque ficou muito pelicano, mas não tive coragem de fazer no corpo. Meu médico disse que eu corria risco de ferir tendões, que são frágeis. Então, deixa a pelanca cair. Hoje, eu me olho no espelho casualmente, quando faço maquiagem, penteio o cabelo, escovo os dentes... Mas eu me gosto. Dependendo do ângulo e da luz, é claro. A verdade é que até chegar a uma intimidade sexual com alguém, estou vestida. Então, conquistei com roupa. Na hora do tesão, não tem surto com pelanca. Até agora, ninguém desmaiou. E todas voltam, o que posso fazer (risos)?”

Vida amorosa

“Ultimamente, estou me sentindo o Louvre. Já reparou como a juventude adora um museu? Tenho uma namorada mais jovem e mais tímida, então não vou falar muito sobre. Mas ela é vacinada, cuidadosa. A gente se conheceu pela internet. Só de ela ter uma ortografia sem abreviações, eu já fiquei encantada (gargalhadas). É um afeto, uma pessoa amiga pro que der e vier. Tive que me encorajar para chegar fisicamente perto de alguém na pandemia. Sou griladona. Já aglomerei demais na vida, sou da geração da bunda chata, de tanto ficar sentada em botequim. Agora, fico no meu canto”.

Mais romântica ou mais sexual?

“Estou mais cínica e sem vergonha do que nunca. Sou muito inculta, devo ter lido o catálogo telefônico e mais nada. Mas Fernando Pessoa não dizia que ‘o poeta é um fingidor, finge a dor que não sente’? Sou uma poeta, profunda admiradora e amante das mulheres. Sou lésbica, mas não fico caçando pessoas nem me expondo. A minha lesbianidade está mais no amor-próprio. Me amando como mulher, eu amo todas as outras com um amor irmão. Acho mulher um bicho fascinante. Continuo romântica na vida como sou nas músicas, e a libido não sossegou. Isso é sadio. Só não vou fazer a mesma coisa que o Ney (Matogrosso) fez na internet (o cantor postou um nude sem querer)”.

Na playlist

“Ouço jazz, música brasileira tipo Vinicius, Chico, Caetano, Gil... Da nova geração, gosto de Leny Andrade e Nana Caymmi (gargalhadas). Que horror que eu sou! Mas quem são os novinhos da música? Eu não sei...”.

Na TV

“Gosto das comédias, tipo ‘Vai que cola’, ‘Suburbanos’... De ‘Um lugar ao sol’, vi uns pedaços porque soube que ‘Compasso’ está tocando lá. Que interessante saber que tem uma personagem que pode ter sido inspirada em mim! A homenagem é bem-vinda. Ainda mais Denise Fraga, atriz de fisionomia forte, reconhecida pelo talento. Nunca foi ‘a bonitinha’, mas está tão bonita! ”.

Recaída no vício

“Pra novela, é contundente, porque as pessoas adoram ver a desgraça alheia. Devem ter aporrinhado muito a Júlia pra ela entornar. Se eu fosse me perturbar por qualquer coisa, haja vodca! Nem a Rússia toda e os batatais da Sibéria dariam conta. Quando vêm me encher, eu digo: ‘Chegou atrasado, meu filho, já me aporrinharam hoje’. Mas eu não vou fazer isso comigo de novo (voltar a beber), não tem sentido. Meu basta custou, mas foi definitivo”.

EP e biografia por telefone

“Até o final deste ano quero lançar um EP de inéditas. E decidi fazer a minha biografia de um jeito diferente: ditando as histórias por telefone para alguém escrever. Tenho um olho cego, perdi a visão ao ser espancada por policiais, por homofobia. Vou contar cronologicamente as coisas que eu vi, vivi e senti. Todo mundo já falou o que quis da minha vida, que se danem, mas eu é que sei dela. Quero que a minha biografia seja uma coisa ‘Meus primeiros 70 anos’ (gargalhadas). A cada dia que passa, são mais 300 coisas que acontecem. De tédio, ninguém morre.

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