Anish Kapoor abrirá novo espaço de arte contemporânea em São Paulo em 2021

Giuliana de Toledo

SÃO PAULO ­— Uma grande exposição do artista indo-britânico Anish Kapoor vai inaugurar um espaço dedicado à arte contemporânea perto da Avenida Paulista, região de São Paulo que já concentra boa parte do circuito artístico da cidade, com locais como Masp (Museu de arte de São Paulo), IMS (Instituto Moreira Salles), Japan House e Itaú Cultural.

A mostra está prevista para setembro de 2021 no espaço cultural batizado de Casa Bradesco da Criatividade, em construção dentro do empreendimento Cidade Matarazzo. O nome do local foi anunciado em evento nesta quarta-feira (12). O complexo fica na área do antigo Hospital Matarazzo, conjunto de construções tombadas do começo do século 20 no bairro Bela Vista.

Um milhão de visitantes por ano

Numa mistura de edifícios reformados e recém construídos, o local reunirá também um hotel de luxo (projetado por Jean Nouvel com interiores assinados por Philippe Starck), escritórios, lojas, restaurantes e centro de convenções. Pelo movimento forte na região, principalmente aos domingos, quando a Avenida Paulista fica fechada para carros, a expectativa é que o espaço de cultura receba um milhão de visitantes por ano, com, em média, três exposições diferentes em seu andar principal no período.

Na inauguração, Kapoor mostrará alguns trabalhos inéditos na sala de quase 2 mil metros quadrados. Por essas dimensões, os empreendedores dizem que esta será a maior sala de exposição privada da capital paulista. Conhecido pelas esculturas de grandes proporções — uma das mais famosas é “Cloud Gate”, que parece um gigante feijão de metal espelhado instalado em uma praça de Chicago, nos EUA —, o artista criará em ateliês no Brasil as estruturas novas, conta o curador Marcello Dantas. Os dois já trabalharam juntos na sua primeira individual na América Latina, realizada em 2006 nos Centros Culturais Banco do Brasil do Rio, de São Paulo e de Brasília.

Kapoor, que em suas obras conceituais faz provocações sobre questões contemporâneas, condensa o propósito do novo local: abordar o mundo presente. Por isso, o nome escolhido para a nova sala, por sugestão de Dantas, é Bradesco Aqui.

— Não vamos nem colecionar o passado, nem projetar o futuro — diz Dantas, em comparação com outros museus. — Vamos mostrar o que significa hoje ter originalidade — explica.

Para o francês Alexandre Allard, empreendedor à frente da Cidade Matarazzo, isso acontecerá sem “uma visão imperialista”.

— Vamos convidar os criativos mais poderosos do mundo para trabalhar sob a energia brasileira — descreve ele, que comprou o antigo hospital em 2011. O investimento total no local atualmente já está na casa dos R$ 2 bilhões.

Marcas do tempo

Já o curador, que fechou um contrato de longo prazo com a nova instituição, destaca que outro diferencial do espaço serão as características preservadas do prédio original. O projeto assinado pelo arquiteto francês Rudy Ricciotti (responsável, entre outros trabalhos, pela criação do Departamento de Arte Islâmica do Museu do Louvre em Paris) prevê que marcas do tempo da construção original fiquem intactas. Assim, azulejos antigos de algumas paredes, infiltrações e partes de plantas que se enfiam pelo local de entorno bastante arborizado deverão conviver com as obras.

— Esse não é um white cube (cubo branco, em português), não é um espaço neutro — define Dantas, que vê esses detalhes como uma “provocação aos artistas”.

Segundo ele, o planejamento de longo prazo das exposições também deve ser uma marca do lugar. Para pensar na exposição de 2021, Kapoor, por exemplo, veio ao Brasil já em abril do ano passado. Rara no Brasil, diz, a antecedência para organizar as mostras vem da segurança financeira do novo espaço. O Bradesco não revela de quanto é o investimento.

— É mais do que naming right. Vamos participar também da curadoria — conta Glaucimar Peticov, diretora executiva do banco. Segundo ela, com a parceria, o Bradesco pretende destacar valores como a “brasilidade” e a “diversidade”. — Temos que aprender a lidar com realidades diferentes. E a arte lida muito com a questão do respeito — comenta ela quando questionada sobre possíveis polêmicas futuras envolvendo o patrocínio, como ocorreu com o Santander na mostra “Queermuseu”, em Porto Alegre, acusada por grupos conservadores de promover a pedofilia e a blasfêmia de símbolos religiosos.

Na casa, o Banco também apoiará um espaço dedicado a oficinas educativas para crianças, com enfoque em questões ambientais, um “clube de criatividade” e um restaurante no sótão, que devem reunir empresários e pensadores, e uma sala multiuso no subsolo, batizada de Sala 22.

O nome vem tanto de uma homenagem à Semana de Arte Moderna de 1922 quanto ao número de horas em que o local será usado. O andar deve fechar somente das 7 às 9 da manhã, afirma Allard. As múltiplas atividades durante 22 horas por dia garantem a sustentabilidade do negócio, diz o francês. Em um mesmo dia, exemplifica, podem haver aulas de gastronomia, mostras de artes visuais baseadas em projeções (também com curadoria de Marcello Dantas, aos moldes das exposições imersivas do Atelier des Lumières, em Paris), espetáculos de teatro, música e dança, e até shows com cara de balada durante a madrugada.