Anitta, DiCaprio e Lula: Bolsonaro usa deboche e ironia para aumentar relevância nas redes

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

A resposta tem sido um padrão na comunicação do presidente Jair Bolsonaro (PL) no mundo digital. Em contraste com o clima da escalada da crise institucional entre o governo federal e o Supremo Tribunal Federal (STF), um longo e chamativo “kkkkkkk” passou a ser repetido por Bolsonaro em seus perfis nas redes sociais nas últimas semanas.

Comum em conversas na web, a risada já serviu tanto para minimizar a aliança eleitoral entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) quanto para comentar o desfile da escola Rosas de Ouro em São Paulo, que transformou um personagem representando o presidente em um jacaré depois de receber uma vacina.

A premissa é simples: debochar de opositores, que em geral são marcados ou retuitados pela conta oficial de Bolsonaro, para explorar suas respostas e, assim, se manter relevante no debate digital. Estudiosos do tema ouvidos pelo GLOBO avaliam que a retórica ancorada na provocação serve para mobilizar bolsonaristas e usuários indecisos e tem como efeito acirrar os ânimos, para que temas políticos habituais não sejam discutidos em profundidade, e reforçar a imagem antissistema de Bolsonaro.

Professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), Viktor Chagas enfatiza que o humor usado pelo presidente se diferencia das estratégias de comunicação de políticos que buscam parecer mais descolados e se comunicar com o público jovem — a exemplo do movimento feito por Lula ao postar uma foto usando óculos Juliet e anunciar a entrada nas redes de compartilhamento de vídeo TikTok e Kwai. No caso de Bolsonaro, predomina o deboche pela provocação.

— A provocação é uma estratégia tanto de ataque quanto de defesa. Inseguranças e fragilidades são camufladas por uma certa leitura de que o personagem tem postura incisiva. Ela desvia o olhar das audiências para outro terreno e acirra os ânimos. Na maior parte das vezes, há argumentos com o objetivo de espezinhar o adversário. Você constrói a piada encarando o alvo como inferior. A maneira que Bolsonaro constrói o humor, invariavelmente, oprime e reforça estereótipos — resume.

Na última semana, o presidente ironizou Leonardo DiCaprio, após postagens do ator no Twitter incentivando jovens brasileiros a tirarem o título de eleitor. Bolsonaro respondeu o americano retuitando sua publicação agradecendo o apoio. Falou também em "soberania sobre a Amazônia" e elogiou sua atuação no filme O Regresso.

"Obrigado pelo apoio, Leo. É realmente importante ter todos os brasileiros votando nas próximas eleições. Nosso povo decidirá se quer manter nossa soberania sobre a Amazônia ou obedecer aos trapaceiros que servem a interesses especiais de estrangeiros. Bom trabalho em 'O Regresso"”, escreveu em inglês.

Não é de hoje que o estilo “troll”, que na internet define um usuário que busca desestabilizar uma discussão e provocar fortes reações emocionais, é uma marca do bolsonarismo, afinal a prática já havia aparecido na comunicação do presidente mesmo antes da eleição de 2018, mas a insistência na fórmula nos últimos dias indica que ela será explorada mais uma vez ao longo da campanha eleitoral.

A exacerbação da comunicação debochada ficou mais evidente no confronto direto travado por Bolsonaro com a Anitta. Depois de adotar um figurino com tons verde, amarelo e azul, a cantora afirmou em suas redes que as cores "pertencem aos brasileiros" e "ninguém pode se apropriar do significado" delas. Em resposta, o perfil do presidente retuitou a publicação com emojis da bandeira brasileira e os dizeres "concordo com a Anitta".

A tática de retuitar postagens de rivais e lançar mão do deboche também foi usada contra Lula. A rede do petista foi compartilhada após postar uma foto de Lula com a advogada Deolane Bezerra. Bolsonaro publicou um trecho de um vídeo em que a influenciadora diz “gostar de advogar para bandido” e complementou com a legenda “feitos um pro outro”.

Antes disso, o presidente já havia retuitado Lula no último dia 8, quando o petista destacava a aliança com Alckmin. Além de recorrer a uma risada virtual, Bolsonaro foi aos comentários ressaltar o fato de sua postagem ter mais curtidas que a foto original, de Lula. Ainda no Twitter, Bolsonaro respondeu à cantora Zélia Duncan com uma montagem em que aparece empinando a moto com o ex-ministro Tarcísio de Freitas na garupa. A cantora havia escrito: “Não precisamos de motos poderosas e homens brutos, precisamos voltar a sonhar com um Brasil possível para todes”.

A ex-participante da última edição do Big Brother Brasil, Jessi Alves, também foi alvo da estratégia de Bolsonaro de gerar engajamento compartilhando publicações de outras figuras públicas. Após comemorar em seu Twitter ter quitado sua dívida com o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES), a professar viu seu post ser retuitado pelo presidente, que aproveitou a publicação para divulgar a Medida Provisória 1.090,de 2021, que concedeu abatimento de até 92% de dívidas de estudantes com o Fies.

Pesquisador e doutor em Semiótica, Paolo Demuru, da Universidade Paulista (Unip), avalia que o estilo de humor de Bolsonaro reforça sua identidade antipolítica e tem impacto na percepção de parte do eleitorado sobre seus rivais. Outra consequência é a possibilidade de criar engajamento e sensação de pertencimento comunitário por meio desse humor.

— Bolsonaro vai contra o que se chamou de politicamente correto. Isso está intimamente atrelado ao ser antissistema de Bolsonaro, que debocha da política enquanto sistema sério e coloca o outro lado, seus opositores, como um monte de chatos. Já há uma tentativa de Lula, por exemplo, de não parecer chato e isso tudo é mérito do Bolsonaro. Todos os seus códigos estéticos quebram os protocolos da política tradicional e a vantagem é que ele faz isso há muito tempo, o que faz parecer verdadeiro. O risco para os demais candidatos é responder às provocações e aceitar jogar dentro de um campo narrativo que o adversário domina muito bem — analisa.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos