Anitta estudaria bastante antes de aceitar um cargo político: ‘Se for pra ter alguma posição, ia querer ser a melhor’

Ramiro Costa
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Anitta organizou uma live com o deputado Felipe Carreras

Ostracismo era o tipo de punição dada aos atenienses na Grécia Antiga suspeitos de atentar contra a liberdade política. Ao ser condenado, o indivíduo era retirado da tomada de decisões da cidade. Séculos depois, o termo entrou no dicionário das línguas latinas como sinônimo de esquecimento. Palavra que Anitta desconhece o significado há sete anos, quando estourou com “Show das poderosas”. Nem mesmo a quarentena foi capaz de freá-la e apagar seu holofote natural. É bem verdade que o isolamento social e suas consequências adiaram planos, mas não pararam a cabeça da cantora. Ela estreou um programa no Multishow apresentado dentro de casa, engatou um novo romance (o “boy”, como prefere chamar, tem passado os dias ao seu lado) e nas últimas semanas suas opiniões políticas ganharam forte projeção. Tudo isso enquanto o mundo parava. Inquieta, a ariana Anitta, se fosse grega, jamais cairia no ostracismo.

— Acho que essa parada (o isolamento social) era o que eu precisava. Necessitava de um tempo, de ficar de boa, ter o meu momento. Não conseguia curtir minha casa. Hoje, fico com meus cachorros, vejo TV... — pontua a carioca de 27 anos.

Na última quinta-feira, ela estreou o “Anitta dentro da casinha”, atração semanal do Multishow feita ao vivo em sua mansão de 620m², onde mora há cinco anos na Barra. Durante uma hora, ela cria, roteiriza, dirige, mexe com a câmera, canta e dança. Adaptou o terceiro andar do imóvel, usado anteriormente para fazer ensaios, transformando-o num grande cenário. Para isso, colocou a mão na massa: pintou parede, arrastou móveis e instalou iluminação apropriada para TV.

— Não fala que eu fiz obra, senão o povo me mata (risos). Não fiz mesmo. Na verdade, peguei um papel de parede que havia sobrado da minha sala e comprei algumas coisas pela internet. Eles me ajudaram muito a montar a estrutura do lugar — conta a musa.

O “eles” de Anitta são as companhias dela nesta quarentena: a amiga e influenciadora Larissa Bottino, o grafiteiro Romulo Deu Cria e o novo affair da cantora, o paulista Guilherme Araujo, ou somente Gui Araujo, de 32 anos. Rostinho famoso do mundo dos reality shows de pegação dos canais de TV por assinatura, ele entrou na casinha da artista no início de maio, após uma troca de flerte pública no Instagram, no fim de abril. Dias depois, o paulista já estava postando stories com Anitta.

— Ele ajudou muito (risos). Carregou sofá, desceu e subiu com coisas, operou câmera num dia... Colocou a mão na massa — conta ela, que nesta entrevista por telefone cita Gui como “boy”, mas prefere não entrar em mais detalhes sobre a repentina relação.

Apesar de tentar manter a discrição sobre o assunto, Anitta teve sua vida amorosa divulgada e compartilhada sem censura. Ela passou a virada de 2018 para 2019, com Ronan Carvalho, após terminar seu casamento de pouco mais de um ano com Thiago Magalhães. O novo namoro acabou antes do carnaval. Na Sapucaí, aproveitou a folga e ficou com Neymar, o que gerou uma saia justa com Bruna Marquezine, a ex do jogador. No meio de 2019, teve um affair relâmpago com Pedro Scooby. O último romance antes de Gui Araujo foi com o empresário e filho do bicheiro Anísio Abraão David, Gabriel David, de fevereiro ao início de abril deste ano.

E “abrir” a casa semanalmente para um programa de TV não seria ao mesmo tempo expor ainda mais a vida íntima? A cantora encara a situação com naturalidade e lembra o momento que estamos passando:

— Tenho noção de que não tem muito como ter essa privacidade se eu estou mostrando minha casa, mas, com o coronavírus, as pessoas estão mais ociosas e mergulhados num mundo cheio de energia pesada. Estou dando entretenimento. É o que sei fazer, é meu trabalho — explica ela, que mescla improviso e criatividade no programa, características sempre presentes em seu DNA: — Quando a gente cresce com pouca estrutura, aprende mesmo a se virar e isso acabou me dando um norte, encontrar soluções do nada.

Mas nem mesmo a ousadia e o rebolado da menina de Honório Gurgel conseguiram evitar os impactos da Covid-19 em sua carreira. Neste primeiro semestre, ela viu dois importantes festivais em que cantaria serem cancelados: o Coachella (nos Estados Unidos, previsto para abril e remarcado para outubro) e o Rock in Rio Lisboa (em Portugal, programado para junho, mas adiado para o ano que vem). Mas nem venha com papinho de que o ano acabou para ela.

— É cedo para dizer isso. Não chegamos nem na metade de 2020. Acho que as coisas podem voltar ao normal em outubro. O programa (“Anitta dentro da casinha”) já foi uma forma de tornar este período mais produtivo. Espero ainda estrear a segunda temporada do meu documentário na Netflix (o serviço de streaming não divulgou a data de lançamento).

Mas é na internet que a presença de Anitta se acentuou nos últimos tempos. Usou as redes sociais como uma espécie de púlpito estridente e de diferentes causas. No início do mês, comprou briga da sua classe artística contra o deputado Felipe Carreras (PSB-PE), que havia proposto que somente o intérprete poderia pagar o direito autoral de músicas executadas em eventos, isentando assim os produtores de arcar com tais custos. O político voltou atrás e retirou a emenda. Ponto para ela. No dia 8, criticou duramente a entrevista da secretária Especial da Cultura, Regina Duarte, à CNN Brasil, que chegou a minimizar as mortes registradas durante o regime militar no país. “Enaltecer os tempos de ditadura me causa muito medo”, respondeu a cantora. O ar militante, no entanto, nem sempre soprou a favor de Anitta. Nas eleições de 2018, ela recebeu fortes críticas pela demora em expressar sua opinião sobre os candidatos.

— Sinto-me lisonjeada que as pessoas querem saber o que penso, mas eu precisei aprender isso da pior forma em 2018. Não gosto de opinar sobre assuntos que desconheço. E, na época, era bem alheia, não era muito informada. Gosto de falar de coisas que consigo debater até o fim. Por isso, demoro às vezes para me expressar sobre algo. Se eu coloco uma hashtag, vou querer discuti-la até se esgotar o último argumento — defende-se Anitta, que tem aproveitado a quarentena para ler e ouvir opiniões diferentes: — Gabriela Prioli (amiga e comentarista política da CNN Brasil) me manda muitos artigos, livros e sugere textos. Gosto também de falar com Paula Lavigne (empresária e mulher de Caetano Veloso) e Luisa Mell (ativista defensora dos animais).

Ao se expor agora e mesmo quando mantinha o silêncio no passado, Anitta sempre foi presa fácil da tendência surgida na internet e que virou até palavra do ano por um dicionário australiano: o cancelamento. O termo se refere ao boicote a uma pessoa que tenha dito ou feito algo considerado errado pelos padrões de determinado grupo.

— Não é algo que me abala. Não tenho medo, fico tranquila, sigo minha vida normal. Tenho muita consciência de que eu sou uma pessoa do bem, sei do meu caráter. Qualquer julgamento que seja feito na internet... Pode vir me cancelar, mas é só eu “reiniciar” e está tudo certo. Eu já fui cancelada 700 mil vezes e acho que só fiz alguma coisa de errado em 10% (risos). Em 90%, estava quieta no meu cantinho. Não sofro nem morro por isso. Faz parte do meu trabalho.

O gosto recente pela política fez com que ela começasse a organizar lives ao lado de Gabriela Prioli. As pautas passam desde a diferença entre Legislativo, Executivo e Judiciário até como entender o que é um partido de direita e de esquerda. No debate, uma leva de fãs e interessados acompanha Anitta em suas redes sociais. Com 46,8 milhões de seguidores no Instagram, ela tem forte poder de propagação de suas ideias. Se compararmos com uma eleição, em que cada seguidor representasse um eleitor, a cantora somaria praticamente a mesma quantidade de votos que Fernando Haddad (PT) obteve no segundo turno presidencial naquele mesmo 2018, quando a artista foi cobrada para se posicionar — na ocasião, Jair Bolsonaro foi eleito com quase 58 milhões de votos. Após esta entrevista, foi divulgado que Anitta desejaria ser candidata à presidência da República. Ela negou dias depois. Mas, como os gregos, aqueles do ostracismo e ao mesmo tempo criadores do conceito da democracia moderna, a cantora revela que querer entrar na vida política é uma realidade.

— Aceitaria um cargo político, mas teria que estudar bastante para me sentir preparada. Se for pra ter alguma posição, eu ia querer ser a melhor que já apareceu.