Como Anitta e Leonardo diCaprio viraram peças-chave na disputa pelo voto jovem

Anitta performs during the Coachella Valley Music and Arts Festival at the Empire Polo Club in Indio, California, U.S., April 22, 2022.  REUTERS/Maria Alejandra Cardona
Crítica de Bolsonaro, a cantora Anitta virou personagem central na disputa pelo voto jovem, que termina no dia 4 de maio. Foto: Maria Alejandra Cardona/Reuters

Tempos de crise econômica e desencanto político costumam produzir dois fenômenos paralelos em ano eleitoral: apatia e rejeição ao governo.

Os fenômenos podem ser observados de maneira mais nítida entre os eleitores mais jovens, para quem o voto é facultativo entre os 15 e 18 anos.

Conquistar a atenção e a simpatia desse público, que pode definir os rumos de uma eleição milimétrica, é tarefa árdua que tem no caminho a pedra do desinteresse.

Jair Bolsonaro já esteve do outro lado do balcão e sabe disso.

Em 2018, ele foi o candidato a presidente que se disfarçou melhor de novidade no momento em que as opções dos chamados partidos tradicionais eram rechaçadas em meio aos escândalos destampados pela Lava Jato.

A postura tresloucada do então deputado fanfarrão do baixo clero contrastava com o tecnicismo e a fala engomada dos rivais engravatados. Era como se seu trunfo principal fosse uma certa espontaneidade, tosca mas autêntica, em falta no mundo político. Ao menos assim ele era pintado nas redes.

Antes da disputa Bolsonaro já havia conseguido mobilizar as atenções de jovens vitimados pela crise econômica com memes e páginas de humor dedicadas a ele.

O ex-militar se tornou um destino natural dos votos mobilizados pelos grupos de jovens lideranças que foram às ruas em defesa do impeachment de Dilma Rousseff, como o Movimento Brasil Livre.

Eleito presidente, Bolsonaro mostrou que falava sério quando prometia transformar o Brasil em um país parecido com o que era há 40 ou 50 anos, quando os pais dos novos eleitores ainda vestiam calça boca de sino.

Hoje, se dependesse dos eleitores entre 16 e 24 anos, segundo a última pesquisa Datafolha, Luiz Inácio Lula da Silva venceria a eleição no primeiro turno com 51% dos votos. Bolsonaro teria 22% em um cenário com Sergio Moro ainda na disputa (ele teria 6% dos votos no segmento).

Mais: 62% desses eleitores diziam no final de março que jamais votariam no atual presidente (na população geral o índice é de 55%).

A crise, que encurtou as possibilidades de trabalho e estudo para todos, especialmente os mais jovens, ajuda a explicar a rejeição.

Para Lula, o maior beneficiário até aqui da revolta, esses números podem significar muito ou quase nada se parte dos eleitores não estiverem aptos a votar em outubro. O prazo para a regularização do título de eleitor termina nesta quarta-feira (4/5).

Para incentivar os jovens a irem às urnas e demonstrar na prática seu descontentamento com o atual governo, artistas e influencers que se opõem a Bolsonaro têm conclamado seus seguidores a correrem para tirar o documento.

Crítica do presidente, Anitta, por exemplo, já anunciou que só fará fotos com os fãs que apresentarem título de eleitor.

Nos últimos dias, até Leonardo DiCaprio compartilhou em bom português, nas suas redes, uma mensagem com o link do movimento “Seu voto importa”.

DiCaprio é hoje uma das principais vozes em defesa da Amazônia, achincalhada desde que a turma de Bolsonaro chegou ao poder. A preservação ambiental é um dos muitos temas com alta capacidade de mobilização política entre as pessoas que estão crescendo à sombra do aquecimento global.

Entre janeiro e março de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral contabilizou 1.144.481 novos eleitores na faixa etária de 15 a 18 anos. A procura pelo documento, segundo o órgão, supera o movimento observado em 2018 e 2014, quando foram emitidos 877.082 e 854.838 novos títulos, respectivamente.

Conscientes ou não, os influencers desse grupo potencial de eleitores têm feito o trabalho de campo que a própria oposição não consegue organizar.

Isso fica evidente quando se percebe que Bolsonaro é ainda a figura política mais atuante e influente nas redes sociais, um território dominado desde antes das eleições. Foi lá que os integrantes de seu estafe (leia-se filhos) entenderam que seriam definidas as futuras disputas políticas.

Como tudo, as plataformas e ferramentas digitais passaram por processos recorrentes de atualização desde 2018. Como na música de Belchior, o que há algum tempo era jovem e novo hoje é antigo – e não estamos mais nos tempos dos textões.

Reportagem recente da Folha de S.Paulo, com base em uma pesquisa de doutorado, mostrou nesta semana que o ex-capitão têm audiência 13 vezes maior que a do petista no TikTok, a rede social do momento.

Um levantamento apontou que, somando as dez principais hashtags postadas na plataforma sobre os dois pré-candidatos, os vídeos de Bolsonaro tiveram 92% das visualizações, contra 8% das de Lula. Uma lavada.

Nos bastidores da campanha petista, todos os alertas sobre erros de comunicação e estratégia digital já foram acesos. A turma não tem conseguido acompanhar o ritmo de produção industrial de conteúdo dos grupos bolsonaristas no WhatsApp e outros programas de mensagem instantânea. (Nesses grupos, é bom lembrar, os eleitores acima de 60 anos, público hoje cativo do presidente, são muitas vezes maioria, mas é por lá que as mensagens chegam aos filhos e netos que nunca leram um editorial de domingo nos jornais).

Ou seja: convencer os jovens, tendencialmente revoltados com o governo (quase sempre com qualquer governo), a regularizar o título e comparecer às urnas é só parte do trabalho.

A partir de 4 de maio o desafio será evitar que os TikTokers com título de eleitor não sejam atraídos por quem ainda nada de braçada nas redes.

Essa disputa mal começou.

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