Anitta não entende de política

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A notícia da semana é que a cantora Anitta declarou que apoiaria Lula na sua tentativa de volta ao Planalto.
A notícia da semana é que a cantora Anitta declarou que apoiaria Lula na sua tentativa de volta ao Planalto.

O número de eleitores com menos de 18 anos volta a crescer após duas décadas em queda. Isso é uma bela de uma notícia. Certamente fruto de uma campanha ostensiva para que isso acontecesse.

Que maravilha!

Depois de 20 anos, os jovens se interessando pela política. Mas a notícia da semana é que a cantora Anitta declarou que apoiaria Lula na sua tentativa de volta ao Planalto. Logo depois, ela não autorizou o uso de sua imagem pela campanha petista. Ok. Parte da liberdade dela.

Houve muito questionamento de o envolvimento da cantora em política era benéfico ou não para a democracia. Anita não incitou violência, não agrediu fisicamente ninguém e há algum tempo ela vem demonstrando interesse pelos movimentos políticos brasileiros.

Na mesma linha, uma pesquisa indicou que a maioria dos jovens vê a política como algo distante “feita por quem não tem interesse nenhum no país”.

Não fosse a campanha para que tirassem o título de eleitor, estaríamos com uma juventude completamente absorta ao que acontece no poder. Mas uma personalidade com público jovem pode atrair esse percentual da população para o debate.

“Ah, mas Anitta não entende nada de política”. E quem entende?

O próprio Maquiavel dizia que a política é um jogo de paixões e de interesses opostos, no qual a dissimulação constitui uma de suas regras essenciais. Como compreender a dissimulação? Todos nós fazemos exercícios diários de interpretação de noticiários para compreender minimamente o que se passa nesse jogo. Anitta não é diferente.

O problema da política não é Anitta. É bem outro.

É num país de terceiro mundo (ou em eterno desenvolvimento) onde as pessoas não conseguem nem ter o básico para se manter, não haver formas para deter a busca incessante de uma elite pelo poder. Elite essa que mantém o povo sob suas rédeas contando uma mentira atrás da outra.

Há quem diga, inclusive, que na política, você combate uma mentira com outra mentira. E o problema realmente é Anitta?

Fomos achincalhados por corrupção nos últimos governos. Bilhões desviados que poderiam ter sido usados para hospitais, escolas e transporte público foram parar no bolso de uma elite de Brasília que usou a desculpa do “eu não sabia” para se valer de sua posição privilegiada.

Um impeachment depois e um governo que se preocupa mais em manter sua bolha mobilizada, e realmente estamos discutindo se uma cantora pode influenciar os rumos da democracia de um país que está mais para terra arrasada do que propriamente um exemplo de avanço?

O nosso problema é que perdemos a capacidade de indignação com as coisas que deveria gerar esse sentimento como a PEC Kamikaze. Como o fato do presidente ficar constantemente agredindo as instituições. Como o fato do ex-presidente voltar à cena pública como se fosse o maior injustiçado da Terra.

Estamos anestesiados. Procurando culpados em todos os cantos e defendendo políticos como se eles fossem os salvadores da pátria. Deveriam ser bons gestores, primar pela democracia e pela ordem, ocupar-se com o desenvolvimento do país e não em encher os bolsos de dinheiro.

Mas procuramos bodes expiatórios. Uma hora é Anitta e outra hora é meu vizinho. E assim vamos sobrevivendo deturpando a realidade e acreditando num discurso que é imposto.

A realidade ficou completamente fora do jogo. Cada um cria sua base de fatos e acredita nela. O Estado de tensão, tão firme na ditadura, volta a ser permanente. Nossa visão segue alimentada por fervorosos exageros, desconfiança e fantasia conspiratória.

A verdade tornou-se uma questão de perspectiva e agenda política. Somos a era do relativismo onde não existem mais verdades universais. Apenas pequenas verdades pessoais. A corrosão da realidade chegou.

O problema não é Anitta. É a morte da objetividade.

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