Anitta 'sem filtro' e 'gente como a gente': da infância no subúrbio à descoberta de um irmão, vida da artista é tema de nova série da Netflix

Ricardo Ferreira
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À beira da linha do trem, com pouco mais de 20 mil habitantes e quase nenhum equipamento cultural à disposição de seus moradores, o pacato bairro de Honório Gurgel, subúrbio do Rio, tem uma filha célebre. Antes de ganhar o mundo com uma penca de hits estourados, apresentações nos maiores festivais de música e gravações com grandes astros internacionais, como Snoop Dog e Cardi B, Anitta passeava por lá, onde nasceu e foi criada. Aos 27 anos e com uma carreira para além de consolidada, ela lança nesta quarta-feira, 16 de dezembro, pelo Netflix, a série "Anitta - Made in Honório", que promete trazer bastidores da sua vida pessoal e profissional.

Com direção artística de Andrucha Waddington, a série com seis episódios, cada um com 30 minutos, coloca diante dos espectadores uma superestrela despida das interferências da fama, "sem filtro", ela garante. Uma Anitta "gente como a gente", lidando com questões pessoais, como a descoberta de um novo irmão, ou com mega tretas que pararam a internet - como a que envolveu a cantora Ludmilla no meio deste ano, ainda que a mesma não seja citada diretamente.

- Na série a gente toca nesse assunto mas sem dar visibilidade. Eu costumo dizer que eu mesma sou a que mais foge de situações de atrito. Mas, infelizmente, acontece. Hoje em dia, meu nome gera muito engajamento, gera algoritmos, gera visibilidade pra qualquer pessoa fala meu nome. Então acho que é uma questão de escolher as polêmicas que a gente vai dar visibilidade, que eu vou colocar a minha voz - diz a cantora.

Em entrevista por telefone, Anitta falou sobre a série, planos para o futuro, percalços da fama, machismo, tretas e redes sociais.

Confira alguns trechos da entrevista:

Anitta em família

"Acho que essa série mostra bastante da pessoa que existe por trás da Anitta, um pouco mais da minha personalidade por trás das câmeras. Não só o que as pessoas veem na imprensa, nas notícias, nos clipes, mas também tudo o que envolve a minha vida e a minha carreira. As pessoas vão ver bastante da minha relação em família, de como eu reajo com as coisas que acontecem. Tem bastidores do Rock in Rio, cenas de quando eu descobri que tinha um novo irmão, e várias outras cenas que vão ser bem bacanas do público ver"

A infância em Honório

"A essência e os princípios são muito os mesmos. Eu continuo uma pessoa muito pé no chão. Acho que as pessoas vão entender por que eu tenho sempre minha família em volta, a gente fala bastante dessa questão. Mas a gente fala também das coisas que eu mudei, da minha comunicação, por exemplo. Meu irmão fala bastante disso, de como eu tinha dificuldade de me expressar. De expressar minha satisfação para as pessoas. E como eu aprendi isso ao longo do tempo. Acho que eu mantive as coisas boas e aprendi a mudar as coisas ruins. Mas ainda tenho defeitos, claro."

Ambições na carreira

"Estou muito realizada na minha carreira. Acho que todos os sonhos e as coisas que eu tinha vontade de realizar, acabei realizando antes da hora. Em um momento na série, aparece eu bem novinha, e falo como eu estaria no futuro. E é tudo o que acontece comigo hoje, mas digo no vídeo que eu estaria bem velha (risos). Mas estou com 27 anos e já conquistei todas as coisas que eu almejava. Hoje em dia não guardo mais sonhos de carreira. Eu tenho muitos sonhos pessoais na minha vida. Os profissionais eu já conquistei todos"

Sonhos pessoais

"Quero passar mais tempo com a minha família e aproveitar tudo o que eu conquistei. Acho que eu passei bastante tempo indo atrás e não aproveitei tudo o que eu consegui. Agora é um momento de aproveitar tudo isso. Gosto de fazer tudo o que eu faço com dedicação 100%, e abdiquei bastante da minha vida pessoal. A gente também toca nesse assunto na série. Mas são escolhas da vida, faz parte, quando você faz escolhas, acaba abdicando de outras coisas. Acho que, por isso mesmo, agora é um momento de aproveitar."

Redes sociais

"É importante a gente viver a nossa vida e parar de levar a internet como se fosse centro de tudo. A internet é um complemento e não o centro. A gente tem que prestar atenção e se policiar pra ver quanto tempo a gente tá passando na internet, se a gente tem vivido a vida real, fora do celular, e é legal a gente se policiar porque a gente fica mais ansioso, mais agoniado quando a gente fica muito tempo na internet, mais do que deveria. É importante balancear esse tempo das coisas."

Machismo

"É muito importante a gente estar sempre lidando e falando sobre o assunto e tentando quebrar paradigmas de alguma maneira, sempre faço isso com o meu trabalho. Mas acho que as mulheres têm que se unir, os homens têm que estar mais abertos pra entender o comportamento da sociedade no geral. E acho que por isso é tão importante não baixar a cabeça, seguir fazendo um trabalho mais agressivo, vamos dizer assim, na forma que eu faço. Eu sou bem ativa no meu trabalho."

Gestora da própria carreira

"Eu tenho muitos fãs que não curtem o meu trabalho como cantora, não curtem a minha música, por exemplo, mas curtem o meu trabalho como administradora, como uma pessoa que cuida da própria carreira. Tem várias pessoas que assistiram à minha primeira série, por exemplo, e falam pra mim: “Olha, não curto seu trabalho na música, não é o meu estilo, mas adoro a maneira como você gerencia a sua carreira”. Então existe uma outra face pra galera acompanhar, assistir, admirar, enfim..."

Desavença com Ludmilla

"Na série, a gente toca nesse assunto mas sem dar visibilidade. Eu costumo dizer que eu mesma sou a que mais foge de situações de atrito. Mas, infelizmente, acontece. Hoje em dia, meu nome gera muito engajamento, gera algoritmos, gera visibilidade pra qualquer pessoa que fala meu nome. Então acho que é uma questão de escolher as polêmicas que a gente vai dar visibilidade, que eu vou colocar a minha voz. Quando eu acho que é necessário, que merece algum tipo de explicação, ou que merece que eu me desgaste, que eu fale alguma coisa, eu falo. Quando eu acho que não merece a minha atenção (risos), que não merece que eu me desgaste, aí eu realmente deixo brigarem sozinhos, falarem sozinhos, não dou tanta importância. A galera vai assistir a um pouco disso na série. Não falo o nome de ninguém, não cito ninguém, só mostro como eu lido com situações como essa."

Lição das tretas

"Fico mais na minha. Não dou mais opinião de nada, está tudo bem, está sempre tudo bem. Antes, eu era uma pessoa que queria responder, resolver, falar, e hoje em dia sou mais "ok, tudo bem, tudo certo..." Antes eu me importava mais e hoje em dia eu só digo "ok". Diria que eu, assim, ligo um botãozinho do foda-se."