Annie Ernaux repassa memórias familiares e a história social e política da França em livros lançados no Brasil

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Annie Ernaux tem 80 anos, cabelos longos e bem cuidados, olhos brilhantes, um charme afrancesado, postura potente de vencedora e o rosto marcado pelas linhas da vida. “Essa mulher da foto é ela”, diz, olhando uma das suas próprias imagens que descreve em “Os anos”. Francesa, da Normandia, já publicou 34 livros, ganhou inúmeros prêmios pelo conjunto da obra, como o Prix de la Langue Française (2008) e, mais recentemente, o prêmio Marguerite Youcenar (2017). Só agora, porém, chega de fato até nós, com dois romances (além de “Os anos”, “O lugar”) daqueles que já deveríamos ter lido. Chega bem, intermediada pela competente e sensível tradução de Marília Garcia.

“O lugar”, de 1983, é uma narrativa breve que, como outras obras da autora, gira em torno de alguém decisivo em sua vida, aqui o pai. Ou melhor, da morte do pai e do enterro em pequena cidade do interior da França. A despedida do homem simples do campo é a despedida do espaço em que viveu até mudar de cidade e de vida ao se aproximar de burgueses e de um novo mundo.

O homem que falava patoá é mais do que o pai, é uma era que se fecha definitivamente. O desprezo que o jovem intelectual com quem se casara tem pelo velho sogro evidencia que não havia mais lugar no país que se modernizara para gente como aquele que só tinha um orgulho: a filha que estudara e fazia parte “de um mundo que o desprezou”.

A autora interfere com enunciações que iluminam a compreensão de toda a literatura de Annie Ernaux, afirmando que busca uma escrita neutra, “nem memória poética, nem ironia grandiloquente”. Não quer oferecer ao leitor qualquer cumplicidade complacente: “não era nada fácil lançar luz sobre fatos esquecidos, talvez fosse mais simples inventar”.

“Os anos”, de 2008, sua obra mais recente, rendeu-lhe prêmios-homenagens. Faz todo sentido que tenha recebido o Marguerite Duras e outros pela publicação do romance. Nele, quem fala é “ela”, olhando a França e sua relação com o resto do mundo, a sociedade, os costumes que se modificam, aqueles que passam por sua vida, os que a deixam e os que ficam.

Ao recurso de desafiar as memórias fazendo-as coexistir com o espírito crítico se juntam as imagens constantes de fotos: “ela” pequena, “ela” na faculdade, “ela” em viagem com o marido, “ela” com os filhos. Das fotos em preto e branco passa a coloridas, ao vídeo, a fitas VHS.

O final da Segunda Guerra deixara lembranças que ocupam as refeições até que os franceses se convençam que a fome não ameaça mais. A escola e depois a universidade serão os marcos decisivos, o apelo forte do sexo. Surgem os temas que não podem ser mais abordados à mesa.

As questões sociais vão ocupando espaço, e a narrativa sobre a luta das mulheres pela legalização do aborto é um dos grandes momentos da obra. Surge, e não deixará mais a cena, a hipocrisia do conservadorismo francês. O país do amor livre, de Sartre e Simone de Beauvoir, de Brigitte Bardot, de canções sensuais, não aceita o aborto e convoca as feministas. O ano de 1968 muda a vida do país, dos jovens, sacode estruturas, mas o cotidiano dos rapazes continua bem diferente da vida das moças que também atiravam pedras na polícia, e o aborto só virá em 1973.

O “nós” conduz a narrativa pela política francesa desde a guerra da Argélia até a direita ameaçadora. De Gaulle, Chirac, Mitterrand são personagens do cotidiano. A sociedade de consumo, o conforto dos equipamentos trazidos pela tecnologia, as compras aceleradas pelo código de barra vêm junto com os novos habitantes das periferias. E surgem os jovens dos subúrbios. O mundo muçulmano vira pelo avesso, moças usando burca fazem teses nas universidades. As cidades se expandem para o interior e lugares como o de sua juventude não existem mais.

O “nós” observa, então, que, como antes de 68, a França está entediada, a liberdade sexual acabara com a luxúria, a indiferença vai da vida privada à vida pública, o feminismo era uma ideologia velha e mal-humorada: “estávamos nos transformando. Não reconhecíamos nossa forma nova”. A mulher de blush está na foto com seus filhos e a namorada de um deles, os almoços continuam ocupando a cena, mas é tempo de cuidar da própria vida.

A estrutura narrativa que usa recursos do ficcional para rever as lembranças torna a obra ímpar. O “ela” faz sentido, distingue-se da primeira pessoa que se tornará tão frequente mais adiante, sobretudo em literatura escrita por mulheres. A proposta aqui é outra.

Voltemos às imagens de Annie Ernaux. A intencionalidade da escrita que usa os pronomes impessoais, as fotos, o espelho são instrumento da luta diante do mundo e do tempo. O uso do “ela” a faz constantemente outra. Como diz ao final: trata-se de “uma biografia impessoal”.

Beatriz Resende é professora da Faculdade de Letras da UFRJ, pesquisadora e ensaísta

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