Ansiedade em tempos de coronavírus: especialistas indicam como não perder o controle

Talita Duvanel
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Ansiedade

A advogada Jaqueline Figueiredo, de 34 anos, se preparava para largar de vez o remédio contra as crises de ansiedade que fora receitado por seu psiquiatra, quando os primeiros casos de Covid-19 começaram a aparecer no Brasil. Até aquele momento, o tratamento evoluía conforme o esperado, e o médico vinha reduzindo as doses progressivamente, para não prejudicar sua saúde.

O quadro, no entanto, ficou mais sério — para o Brasil e para Jaqueline. O novo coronavírus se espalhou com rapidez pelo país e, a fim de evitar uma contaminação em massa, serviços não essenciais pouco a pouco foram fechados. Era hora de ficar em casa, e a advogada se viu trancada num pequeno apartamento, com o filho de 3 anos demandando atenção total. O plano de desmame da medicação, então, foi por água abaixo. Um dos sinais de que a coisa estava se agravando, inclusive, foi a retomada de uma antiga mania: comer bala Halls azul desmedidamente. “Só ela me acalma. Em uma semana, engordei quatro quilos. Ficar enclausurada tem sido muito complicado, e estar com o filho o tempo todo não me dá espaço nem para explodir”, diz ela.

Assim como Jaqueline, existem 18,6 milhões de pessoas sofrendo de ansiedade no Brasil, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgados no ano passado. Se essa quantidade já era suficiente para o país ocupar o posto de “mais ansioso do mundo”, a expectativa é de que os medos que acompanham o novo coronavírus aumentem esse número ainda mais.

Apesar de casos sérios como os da advogada e de outros tantos brasileiros, a ansiedade é um sentimento natural e até necessário em momentos de incertezas. Uma dose de aflição em relação à saúde ou à situação financeira dos próximos meses é normal, dizem os especialistas. “Se estiver dentro de certos limites, ela é uma emoção que faz parte do ser humano. Precisamos dela para tocar a vida, é uma espécie de motor”, diz o psiquiatra Mario Louzã, do Instituto de Psiquiatria da USP.

O alerta vermelho aparece quando as coisas fogem do controle, e o sofrimento se torna insuportável. “Caso ela fique intensa ou frequente demais, começa a ser prejudicial. A ansiedade extremada pode inibir desempenhos e fazer com que as pessoas tenham atitudes irracionais”, diz Mario. Um exemplo disso é o fato de Jaqueline exagerar na bala. Ou então o que muita gente tem feito: correr ao mercado para comprar dezenas de pacotes de papel higiênico e à farmácia para estocar um remédio que possa ter algum efeito sobre a Covid-19, sem qualquer comprovação científica ainda. “Essas ações são típicas de quem está num estado ansioso fora do normal”, diz Mario, que lista a taquicardia, sudorese e tensão muscular frequentes como os principais sintomas fisiológicos de determinados casos.

Em várias situações da vida e especialmente nesta, a autorreflexão é uma ferramenta essencial na investigação da saúde mental, diz a psicóloga especializada em estresse e diretora da consultoria Rumo Saudável, Rosalina Moura. “Todos nós temos dilemas emocionais e dificuldades. O autoconhecimento se torna ainda mais importante nesse momento”, diz Rosalina. “A pessoa tem que encontrar respostas para perguntas como: ‘O que está me deixando ansioso? Por que isso acontece agora? Podem existir outros motivos que estão mexendo comigo?’. Estamos numa fase de olhar para dentro. Nessa sociedade acelerada, quando nos sentimos mal, tendemos a arrumar coisas que nos distraem das emoções, mas não resolvem os problemas. Agora, as possibilidades estão limitadas.”

Quem passou por essa reflexão foi Micaela Goés, apresentadora do programa “Santa ajuda”, do GNT. Quando viu que a disseminação do vírus era uma realidade e o distanciamento social, uma medida vital para contê-lo, ficou “baratinada”, como ela mesma define. “Não conseguia dormir, estava fissurada com as notícias, olhando tudo. Parecia um cachorro andando em volta do próprio rabo”, diz. “Parei e pensei: ‘Não vou suportar esse período nesse ritmo.’" Recobrar a calma não foi um processo simples e demandou medidas que meses atrás seriam consideradas drásticas ou até mesmo impossíveis de serem cumpridas. A apresentadora passou dois dias sem ligar celular, computador ou televisão. Depois desse período, tem se limitado a ler reportagens apenas duas vezes por dia.

Essa atitude de demarcar períodos específicos para assistir a canais de notícias ou navegar por sites de jornais e revistas é, inclusive, uma orientação da OMS. “É recomendável que se procure informações atualizadas de fontes confiáveis somente em um ou dois períodos”, aconselha a instituição.

Expert em organização, Micaela se viu obrigada a reajustar o dia a dia da família. Suas gêmeas, de 10 anos, estão mais participativas na arrumação da casa e o marido, na linha de frente da manutenção do bem-estar do grupo, cozinhando diariamente. “Ordenar a rotina, nesse momento, é muito importante para os adultos e para as crianças”, diz a psicóloga Rosalina Moura, que pede atenção ao comportamento dos pequenos. “Haverá mudanças? Sim, mas é preciso ficar atento a alguns sinais que podem indicar níveis mais altos de estresse e ansiedade: muita irritação, dificuldade de organização, problemas de sono, choro.”

Colocar a família toda para pensar junto (e isso inclui deixar crianças e adolescentes presentes nas rodas de decisão, diz Rosalina) e analisar uns aos outros é vital para a saúde mental em tempos de quarentena. Quando a autorreflexão é muito difícil, são os familiares que podem acender o alerta sobre mudanças comportamentais e, inclusive, incentivar a procura de ajuda profissional. Antes da pandemia, apenas psicólogos credenciados pelo Conselho Federal da área podiam fazer atendimento on-line. Com a realidade atual, essa prática foi liberada a todos e tem permitido que pacientes como a advogada Jaqueline Figueiredo possam ter suas sessões de terapia mantidas. Serviços de apoio emocional remoto também são boas opções para quem não sabe por onde começar. O Centro de Valorização da Vida (cvv.org.br), por exemplo, oferece chats e linhas telefônicas para quem quer conversar. “Nós ainda vivemos numa sociedade que tem muito preconceito com saúde mental. As pessoas só vão buscar ajuda quando estão no limite. Não precisamos deixar os problemas avançarem tanto”, diz Rosalina.

Mais do que nunca, a autocompaixão e o pensamento em rede são fundamentais.

MENTE SÃ

Conheça seus limites

Veja como se prevenir e como ajudar os outros, mas tenha em mente que não há como controlar o que acontece lá fora.

Faça atividades relaxantes

Monte uma playlist, separe filmes e séries que você sempre quis ver, cozinhe seu prato favorito e leia aquele livro que nunca deu tempo de começar. Momentos de tranquilidade precisam existir.

Aprenda técnicas de respiração

Está muito nervoso ou agitado? Dê uma pausa e faça exercícios de respiração e meditação. Existem muitos aplicativos e sites que ensinam como fazer.

Estabeleça uma rotina

Busque manter o dia a dia o mais organizado possível. Acorde, trabalhe e se alimente sempre nos mesmos horários. Respeite as pausas e o fim do expediente.

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Fonte: Rituali Clínica e Spa