Antártica, "o coração da Terra" que precisa ser protegido

Turistas visitam Orne Harbur nas Ilhas Shetland do Sul, Antártica

"Coração da Terra", a Antártica também sofre, apesar do afastamento, o impacto das atividades humanas, lamenta o diretor do Instituto Antártico Chileno, Marcelo Leppe, em entrevista à AFP.

P. Qual a importância da Antártica?

R. Na escola, fomos ensinados que existem apenas cinco continentes no mundo. É o sexto continente, um continente que pode ser definido como o coração da Terra.

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A principal corrente marinha do mundo é a corrente circumpolar antártica que se locomove do oeste para leste ao redor da Antártica. Aparecida há 30 milhões de anos, congelou um continente que antes era verde e está ligada à circulação termoalina (oceânica) em todo o mundo.

É como um coração, porque todos os anos a Antártica muda de tamanho: de 14 milhões de km2 para mais de 20 milhões. Cresce no inverno com o gelo marinho e encolhe no verão. É como se estivesse batendo.

E a corrente subantártica se move pelo mundo como um sistema circulatório. Provavelmente, desempenha um papel importante no controle das mudanças climáticas.

Portanto, é muito importante entender, prever e proteger.

P. Qual é o impacto das mudanças climáticas no continente?

R. O principal impacto na Antártica é provavelmente a criosfera: todos os anos, vemos as geleiras derretendo, o gelo do mar desaparecendo (...) e, nas áreas sem gelo, a recolonização de plantas e outros organismos que não estavam presentes na Antártida antes, pelo menos na escala da humanidade (...).

Nos últimos 50 anos, notamos que cerca de 15% do gelo desapareceu. E essa curva se acelerará nos próximos anos, provavelmente mais do que nas previsões do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas).

Até 2100, uma proporção significativa do gelo, mais de 35%, terá desaparecido. A paisagem da Península Antártica e a dinâmica das correntes marítimas serão totalmente diferentes.

P. Você enxerga outras ameaças? Por que devemos nos preocupar?

R. A Antártica não é tão isolada quanto pensamos. Os microplásticos estão começando a ser um grande problema na Antártica. Eles estão por toda parte e nós os detectamos em todos os ambientes. Detectamos em ovos de pinguim, por exemplo (...)

O que fazemos no resto do mundo tem um impacto até mesmo na Antártica e essa natureza que parece ser poupada pela pegada humana não é, como mostram os microplásticos.

Quando você tem um continente que regula o clima, o clima ao redor da Terra por meio de teleconexões, é claro que você deve estar vigilante.