Anta é solta em floresta nesta quinta-feira para tentar salvar espécie de extinção no Rio

André Coelho
·3 minuto de leitura

Filha de Antônia e de Antenor, Jasmim deixou o local onde nasceu com uma missão: ajudar a corrigir um erro cometido há mais de um século. A jovem anta doada pelo zoológico de Guarulhos, em São Paulo, será solta nesta quinta-feira (29) na Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), localizada entre os municípios de Cachoeiras de Macacu e Teresópolis, se unindo a outras da sua espécie Tapirus terrestris que estão vivendo livres novamente na região. No início do século XX, estes animais chegaram a ser considerados localmente extintos. Mas, devido à parceria entre os projetos Guapiaçu e Refauna, estão voltando à natureza.

— A reintrodução das antas em Guapiaçu estabelece a primeira população da espécie após mais de 100 anos de extinção no estado — afirma Maron Galliez, coordenador do programa de reintrodução e professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

O objetivo da parceria entre os dois projetos, patrocinados pela Petrobras e pelo Governo Federal, é restaurar relações ecológicas perdidas com o desaparecimento de mamíferos silvestres na Mata Atlântica. Conhecidas como “jardineiras da floresta”, as antas têm uma dieta que inclui frutas e uma enorme habilidade de dispersar sementes. Devido ao seu grande porte, necessitam de uma quantidade elevada de alimento e percorrem extensas áreas. Por isso, são capazes de semear grandes trechos, favorecendo a regeneração florestal. A longo prazo, esse movimento garante segurança hídrica e aumenta o sequestro de carbono atmosférico, combatendo o aquecimento global.

A espécie de anta da qual Jasmim faz parte foi extinta há mais de 100 anos no Rio devido à caça predatória, e sua reintrodução na Reserva Ecológica de Guapiaçu teve início em 2017, com a chegada de três animais. Ao todo, já foram devolvidos ao seu habitat natural 11 antas e há registros de que um filhote nasceu livre na região. Apesar de quatro animais terem morrido, os remanescentes estão adaptados e contam com o apoio, inclusive, dos moradores do entorno da reserva.

- Estamos fazendo o que a natureza sempre fez e nos ensinou, cada parceiro do projeto ajuda com alguma coisa neste trabalho. Precisamos da ajuda de todos para corrigir o erro de nossos antepassados e fazer o trabalho da natureza. Agora o desafio é mostrar para crianças e jovens como cuidar do nosso planeta – acrescenta Gabriela Viana, coordenadora executiva do Projeto Guapiaçu

Jasmim nasceu no zoológico de Guarulhos no primeiro semestre de 2019 e, no último dia 31 de julho, foi transferida para uma área de aclimatação na reserva ecológica. A meta é transportar mais antas em breve para a floresta. Assim, acreditam os pesquisadores, será estabelecida uma população viável destes animais que, com o tempo, se dispersarão para o vizinho Parque Estadual dos Três Picos e outras áreas adjacentes, colonizando a região mais densamente florestada do estado, o Mosaico da Mata Atlântica Central Fluminense.

Maior mamífero terrestre da América do Sul, as antas pesam entre 180 e 300 quilos, e podem medir até dois metros de comprimento. São animais herbívoros que ingerem entre oito e nove quilos de alimento por dia, incluindo folhas, ramos, brotos, caules, cascas de árvores, plantas aquáticas e frutos. As antas são grandes responsáveis pela formação e manutenção da biodiversidade. Livres na natureza, elas vivem, em média, entre 20 e 25 anos.

O projeto Guapiaçu, realizado pela Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), tem como objetivo o fortalecimento do ecossistema da bacia Guapi-Macacu. Por meio das ações de restauração florestal, reintrodução de fauna, educação ambiental e monitoramento da água, demonstra-se a relação entre a restauração ecológica e o serviço de provisão de água de qualidade na bacia hidrográfica. O projeto já atingiu mais de 26 mil pessoas com atividades de educação ambiental e restaurou 160 hectares de áreas degradadas, com o plantio de 300 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica.

Desde 2010, o Projeto Refauna vem lutando para reverter a síndrome de florestas vazias em remanescentes de Mata Atlântica. Para isso, trabalha através da reintrodução de vertebrados para restaurar as interações ecológicas que foram perdidas.