Antes da pandemia, índice que mede concentração de renda teve 1ª queda em 4 anos

Pedro Capetti
A desiguldade das mansões, no bairro da Gávea, com o amontoado de casas da Rocinha

RIO — A desigualdade de renda dos brasileiros parou de aumentar em 2019, após quatro anos de crescente disparidade entre ricos e pobres. Dados divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE mostram que o Índice de Gini, que mede a concentração de renda, teve uma ligeira melhora no ano passado, caindo de 0,545 para 0,543. Quanto mais perto de 1, mais desigual é a distribuição.

Mas apesar da melhoria, o abismo entre ricos e pobres continua. Em 2019, o rendimento médio mensal real do 1% da população com redimentos mais elevados era de R$ 28.659, o que corresponde a 33,7 vezes o redimento dos 50% mais pobres, que era de R$ 850.

A pesquisa leva em consideração todas as rendas das famílias, como as remunerações obtidas pelo trabalho, aposentadorias, pensões, aluguéis, Bolsa Família e outros benefícios sociais.

Estudos divulgados no fim do ano passado já indicavam que a desigualdade da renda obtida através das ocupações, responsável em média por 72,5% do rendimento médio mensal das famílias, já vinha apresentando uma paralisação da alta registrada nos últimos anos. Agora, com a incorporação de benefícios e outros recursos obtidos pelas famílias, constata-se que o país registrou um freio no aumento da desigualdade.

— O Gini acompanha a tendência do mercado de trabalho, está relativamente estável — avalia Alessandra Brito, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE — Houve crescimento em todas as faixas distribuição dos rendimento, inclusive entre os menores.

Mais da metade com menos de um salário

Especialistas alertam, no entanto, que a desigualdade poderá aumentar este ano, por conta dos efeitos da pandemia do novo coronavírus na renda das famílias, principalmente as mais pobres. Conforme resultados mais recentes da Pnad Contínua mostraram, os informais, aqueles com renda mais baixa, foram os primeiros a sentirem o baque econômico.

Em 2019, o Índice de Gini só não melhorou no Nordeste e no Sul. Nas demais regiões, houve queda da desigualdade. Segundo Alessandra, houve um aumento dos rendimentos dos mais ricos nas regiões, não acompanhada do mesmo movimento na base da distribuição. Ou seja, os ricos ficaram mais ricos.

— O 1% mais rico teve aumento de 11,8% (dos rendimentos entre 2018 e 2019) — explicou a analista.

Apesar do avanço, o país terminou o terceiro ano com crescimento econômico muito distante de recuperar a equidade na distribuição de renda do período anterior a recessão econômica, entre 2015 e 2016, quando chegou a bater 0,526.

A renda média mensal de metade dos trabalhadores brasileiros foi menor que um salário mínimo em 2019. Segundo a pesquisa do IBGE, o rendimento médio mensal recebido por esses trabalhadores, classificados como os 50% da população com os menores rendimentos, foi de R$ 850, o que corresponde a apenas 36% da renda média de todos os trabalhadores ocupados, estimada em R$ 2.308. O valor é inferior do salário mínimo em 2019 (R$ 998).