Antes de lamentar pelo Museu, o que seu candidato propôs para valorizar a cultura do país?

Marcello Dias/Futura Press
Yahoo Brasil

Um museu não é só um lugar de passeio onde tomamos café no sábado à tarde. É o espaço onde temos a possibilidade de nos encontrar com o que somos e o que fomos um dia.

Múmias, fósseis, esqueletos, meteorito, peças da monarquia, obras únicas da biblioteca especializada em ciências naturais eram algumas das peças do acervo do Museu Nacional, no Rio, que viraram cinzas em poucos minutos de incêndio.

A perda é inestimável porque no local, onde viveu a família real e foi assinada a Independência, não estavam apenas 200 anos de história. Estava o futuro das gerações que jamais terão a oportunidade de (se re) conhecer ali.

A tragédia coroa seguidos cortes orçamentários ocorridos desde 2004. Coroa também a premissa de que cultura é adereço, custa caro e que em tempos de crise devemos concentrar recursos e energia em outras prioridades. É justamente o sucateamento do acesso ao conhecimento que impede um país inteiro de rebater conclusões populistas como esta.

Enquanto confundimos custos com investimento, nossas prioridades são definidas entre bancadas e lobbys, como os que elevaram o salário dos ministros do Supremo na semana passada.

Mais do que chorar pelo museu, e outras tragédias no setor cultural que parecem se acumular de um tempo pra cá, é preciso aproveitar o momento para questionar o que o seu candidato a presidente tem feito ou falado durante a campanha sobre cultura, um direito fundamental reconhecido pela ONU, organização que o líder nas pesquisas jura que não serve para nada.

O descaso pode ser resumido pela reação dos presidenciáveis mais de 12 horas após o início do incêndio. Jair Bolsonaro (PSL), que pretende acabar com o Ministério da Cultura e já demonstrou a disposição em censurar livros que ele mente terem sido distribuídos nas escolas, se limitou a retuitar um tuíte que atacava um tuiteiro que o atacou (exatamente nessa ordem). De sua lavra, nada.

Ciro Gomes (PDT) também se manifestou com um retuíte, elogiando uma campanha para os internautas enviarem imagens de arquivo pessoais feitas durante as visitas ao museu. “Vamos ajudar a atenuar esta tragédia que o desgoverno no Brasil permitiu acontecer contra nosso mais caro patrimônio histórico”, escreveu.

Marina Silva (Rede) foi quem mais falou. Segundo ela, a catástrofe equivale a uma lobotomia na memória brasileira. “O acervo da Quinta da Boa Vista contém objetos que ajudaram a definir a identidade nacional, e que agora estão virando cinza. Infelizmente, dado o estado de penúria financeira da UFRJ e das demais universidades públicas nos últimos três anos, esta era uma tragédia anunciada.”

Para Geraldo Alckmin (PSB), o incêndio agride a identidade nacional e entristece todo o país. “Neste momento de profunda perda, quero me solidarizar não apenas com os cariocas, mas com todos os cidadãos brasileiros.” Ele disse ainda que, diante da perda irreparável do maior acervo museológico brasileiro, “devemos resgatar o compromisso de zelar permanentemente, com consciência e investimento, pela preservação do patrimônio e da memória do país.”

Fernando Haddad (PT), que deverá substituir Lula na disputa, listou tragédias similares, como as ocorridas no Instituto Butantã, o Museu da Língua Portuguesa, a Escola de Artes e Ofícios e o Museu do Ipiranga para lamentar “o descaso com o patrimônio histórico.”

João Amoêdo (Novo), que tem feito uma campanha baseada na defesa da privatização e do estado mínimo, foi também mínimo em sua manifestação: nada disse sobre o episódio.

Entre quem disse, quem não disse e os que esqueceram de dizer, cabe ao eleitor se questionar onde estavam os agora candidatos a presidente quando a tesoura orçamentária começou a operar na cultura, na ciência e na educação e deixou os fios desencapados para catástrofes como a do Museu Nacional.

Estavam do lado dos que protestaram, dos que silenciaram ou dos que deram aval para a polícia bater em cientistas e professores que se manifestaram contra a dança do país à beira de um abismo?