Antes de pronunciamento de Bolsonaro, Ministério da Saúde recomendou em redes sociais evitar sair de casa

André de Souza

BRASÍLIA - Entre sábado e segunda-feira, o Ministério da Saúde publicou em sua conta no Twitter mensagens pedindo que as pessoas, independentemente da idade, evitassem sair de casa, para diminuir os riscos de contrair o novo coronavírus. As postagens contrariam a orientação do presidente Jair Bolsonaro, que, na terça e na quarta-feira, defendeu a volta à normalidade e o isolamento apenas para pessoas com mais de 60 anos ou que tenham outras doenças e constituem o grupo mais vulnerável. Segundo o último boletim do ministério, 57 pessoas já morreram no Brasil e 2.433 foram contaminadas.

"Quem tem mais de 60 anos deve ficar em casa, mesmo sem sintomas. Os demais, evitem circulação nas ruas. Proteja você e sua família! #coronavirus #covid19", diz mensagem do Ministério da Saúde publicada no último sábado.No mesmo dia, a pasta postou: "A recomendação do @minsaude é que as pessoas que vivem em zonas rurais não saiam para as capitais. Essa ação diminui a transmissão do #coronavírus."

Na segunda-feira, reforçou a mensagem: "Neste momento, é muito importante evitar aglomerações para se prevenir e prevenir as pessoas que você ama do #coronavirus. Evite, ao máximo, sair de casa!""Na noite de 24 de março, Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional, no sentido contrário a essas recomendações.

— Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é odas pessoas acima dos 60 anos. Então por que fechar escolas. Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. Noventa por cento de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. Devemos sim é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial ao nossos queridos pais e avós, respeitando as orientações do Ministério da Saúde — disse Bolsonaro na terça.

No dia seguinte, em entrevista, o presidente afirmou que a orientação do governo federal seria o "isolamento vertical", deixando apenas idosos e pessoas com doenças pré-existentes fora do convívio social. Segundo ele, não haveria outra alternativa, mas a decisão seria sacramentada após uma conversa com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

— Conversei por alto com Mandetta hoje e vamos definir essa situação. Tem que ser, não tem outra alternativa. A orientação vai ser o [isolamento] vertical daqui pra frente. Vou conversar com ele e tomar uma decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com o Mandetta sobre essa orientação — declarou o presidente na quarta de manhã.

No mesmo dia, pela tarde, em entrevista coletiva, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, disse que só vai adotar o "isolamento vertical" se os técnicos e especialistas que auxiliam a pasta concordarem. Ao ser questionado se o pronunciamento de Bolsonaro, na noite de terça-feira, foi antecedido de alguma consulta ao ministério, ele afirmou que o "presidente fala diariamente" com Mandetta. O ministro fez apenas um pronunciamento e deixou o local antes de começarem as perguntas dos jornalistas.

— A pasta não vai fazer nenhuma mudança na sua sistemática. A pasta está estudando todas as possibilidade. É um tema que está sendo estudado por nossa equipe. No momento em que achar o melhor caminho, ele será feito. Não é porque houve uma determinação superior. Ela será implementada se nosso corpo técnico chegar a conclusão de que esse é o caminho — disse Gabbardo na quarta.