Antes ser alvejado, catador salvou menino de 7 anos que estava em carro fuzilado

Catador correu para tirar menino de 7 anos do veículo alvo dos disparos dos militares do Exército. (Foto: Reprodução/Facebook)

Antes de ser alvejado por tiros de fuzil disparados por militares do Exército, o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo correu para salvar a vida de um menino de 7 anos que também estava no carro onde morreu o músico Evaldo Rosa, de 51 anos, no dia 7 de abril, em Guadalupe, no Rio.

As informações são do jornal Extra.

Depois de retirar a criança do carro, Luciano, de 27 anos, voltou ao local para tentar salvar também a vida de Evaldo, mas levou três tiros. O músico não resistiu e morreu no local. Já o catador morreu após 11 dias internado. Ele foi levado ao Hospital Estadual Carlos Chagas, mas foi a óbito na madrugada do dia 18.

“Se meu irmão errou muitas vezes na vida, ele acertou ali naquele momento”, disse Lucimara Macedo, irmã mais velha do catador. “Deus levou ele. O que me conforta é isso: ele foi salvar uma vida e deu a dele”, desabafou.

Daiana Horrara, esposa de Luciano, testemunhou o momento em que o marido foi atingido. A mulher, agora viúva, está grávida de cinco meses.

O casal vivia nas ruas e passava com um carrinho de mão pelo local em que Evaldo foi fuzilado pelos militares, na Estrada de Catonho. Eles estavam coletando vigas para construírem uma casa.

INFÂNCIA

Luciano teve uma infância difícil. Morando nas proximidades da favela do Final Feliz, em Anchieta, ele perdeu o pai cedo, num acidente doméstico, e foi criado juntamente com sua irmã pela mãe, Aparecida Macedo, auxiliar de serviços gerais. Luciano estudou até a 5ª série e, quando completou 18 anos, saiu de casa e decidiu viver sozinho.

Durante esse período, ele passou fome e chegou a ser preso uma vez por roubo. Mudou de vida e decidiu virar catador de latinhas para conseguir comprar comida. Há dois anos reencontrou Daiana, amor antigo, com quem começou um relacionamento. Em quatro meses, eles seriam pais.

O Exército já encaminhou a investigação ao Ministério Público Militar (MPM). Segundo fontes ouvidas pelo O Globo, os nove militares presos responderão pelos dois homicídios e pelas tentativas de homicídio dos outros quatro parentes de Evaldo, que estavam no carro.

“Entendemos que o Exército errou em três ocasiões distintas: ao atirar em Luciano, ao não prestar socorro imediato, pois viu ele agonizando no chão, pedindo ajuda, e, por fim, ignoraram o drama da família durante esse período de internação”, declarou o fundador da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa.

Antônio criou uma vaquinha online para ajudar a família a enterrar Luciano. O enterro acontece nesta sexta-feira santa, 19 de abril, no Cemitério do Caju.