Antibiótico é o medicamento que mais falta em SP, dizem farmacêuticos

*Arquivo* Caixas de remédios de amoxicilina. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
*Arquivo* Caixas de remédios de amoxicilina. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pela segunda vez em menos de três meses, a professora Ana Elisa dos Santos, 36, tem enfrentado, sem sucesso, uma busca em quase uma dezena de farmácias atrás de antibióticos para os filhos. O país vive um apagão de medicamentos e insumos médicos.

Uma pesquisa feita pelo CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia de São Paulo) identificou que os antibióticos estão entre os medicamentos com maior escassez no mercado. Remédios simples e classificados como essenciais, como amoxicilina e azitromicina, são os que mais faltam nas farmácias paulistas.

Segundo o levantamento, feito com 1.152 farmacêuticos de todas as regiões do estado, 98,5% dos profissionais disseram sofrer com o desabastecimento de remédios. Entre as categorias que mais relatam ter dificuldade de comprar estão os antibióticos (93,5%), mucolíticos (76,5%), antialérgicos (68,6%) e analgésicos (60,5%).

A pesquisa foi feita, de forma online, entre os dias 19 e 30 de maio deste ano. No entanto, o conselho diz que o desabastecimento persiste, sem perspectiva de ações que solucionem o problema.

É a situação que Ana Elisa tem enfrentado pela segunda vez. No início de maio, o filho mais novo de 5 anos teve uma otite e precisou tomar azitromicina. Ela demorou quatro dias para encontrar o remédio.

Agora, percorre as farmácias novamente atrás do mesmo medicamento para o filho mais velho, de 7 anos, que está com faringite. "Na primeira vez, achei que fosse uma falta esporádica pela entrada do outono e aumento das doenças respiratórias em crianças. Estou chocada em saber que o problema continua."

Outra pesquisa, feita pelo CFF (Conselho Federal de Farmácia), também identificou que 97,4% dos profissionais da área da saúde tiveram problemas com o desabastecimento de remédios imprescindíveis.

O levantamento foi realizado entre 21 e 26 de junho deste ano com 883 médicos, farmacêuticos, enfermeiros e administradores de unidades de saúde de todas as unidades da Federação.

"Há meses estamos pedindo soluções para o problema e nada muda. Também não há previsão de mudança a curto prazo. Enquanto isso, a população vive uma situação sem precedentes de falta de remédios essenciais", diz Luciana Canetto, vice-presidente do CRF-SP.

Os remédios que estão em falta nas farmácias e unidades de saúde do país estão listados na Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais), feita pelo Ministério da Saúde.

O ministério diz que o desabastecimento de remédios é resultado de "diversas causas globais que extrapolam" sua competência. Às entidades, a pasta tem dito que o problema é a dificuldade de importação da matéria-prima dos medicamentos, que foi impactada pela guerra na Ucrânia, pelo fechamento de portos na China em decorrência da pandemia de Covid-19 e pela alta do dólar.

Cerca de 95% dos insumos para produzir medicamentos no Brasil, incluindo o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), vêm da China e da Índia.

Canetto diz que as entidades vêm há anos alertando sobre os riscos de o país não ter uma política que fortaleça a autonomia da indústria farmacêutica e que evitaria o desabastecimento vivido atualmente.

"Somos muito dependentes da importação da matéria-prima e ficamos vulneráveis a essas questões externas. O Brasil tem tecnologia para produzir o IFA, mas não deram condições financeiras para essa produção. Com essa política, a indústria ficou refém da importação", diz.

Em nota, o Ministério da Saúde disse articular com a Anvisa medidas para combater o problema e que "trabalha sem medir esforços para manter a rede de saúde abastecida com todos os medicamentos ofertados pelos SUS".

Uma das ações que o ministério diz já ter adotado foi liberar critérios de estabelecimento ou de ajuste de preços para remédios com risco de desabastecimento no mercado. Outra foi diminuir o imposto de importação de insumos para alguns medicamentos, como dipirona e neostigmina.

"Essas medidas atenuaram parte do problema, já que libera os fabricantes a vender alguns medicamentos pelo valor máximo. Então, o consumidor volta a achar alguns remédios, como a dipirona, com mais facilidade, mas com preço maior", diz Canetto.

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